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Por Cleber Lourenço

 

A Polícia Federal colocou sob suspeita a origem de R$ 645,4 mil transferidos pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP) à Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A investigação confronta os repasses com os rendimentos mensais do parlamentar e questiona o “lastro financeiro” usado para bancar as transferências.

Os pagamentos à empresa de Karina Gama, também alvo da Operação Make Up, ocorreram em um intervalo inferior a dois meses. Ao analisar a movimentação, a PF comparou os valores enviados à produtora com a remuneração mensal de Frias, de cerca de R$ 44 mil.

A diferença chamou a atenção dos investigadores e abriu uma nova frente sobre o financiamento do longa: descobrir de onde saíram os recursos usados pelo próprio deputado para fazer os pagamentos à produtora.

O ponto ganha relevância porque Frias não é apenas roteirista e produtor executivo de Dark Horse. Ele também está no centro da investigação sobre emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas a Karina Gama e que, segundo a PF, podem ter sido desviadas por meio de empresas subcontratadas.

A Operação Make Up foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e deflagrada nesta quinta-feira (10). A PF cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Frias e Karina estão entre os alvos.

PF tenta reconstruir caminho do dinheiro

A investigação busca identificar se recursos públicos destinados originalmente a projetos sociais acabaram circulando por empresas relacionadas aos investigados e chegando à estrutura responsável pela produção de Dark Horse.

Segundo a PF, o grupo investigado teria direcionado dinheiro recebido por entidades para empresas subcontratadas sem comprovação da efetiva prestação dos serviços. Dados financeiros analisados durante a apuração indicaram movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas que aparecem no esquema investigado.

A Go Up ocupa posição central nessa apuração. Além de produzir Dark Horse, a empresa pertence a Karina Gama, que também está ligada ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), beneficiário de emendas destinadas por Frias.

O deputado destinou R$ 2 milhões em emendas ao instituto. Parte dos recursos deveria financiar projetos sociais. A PF investiga se o dinheiro seguiu a finalidade prevista ou se percorreu um circuito de empresas e contratos até beneficiar pessoas e negócios ligados aos investigados.

A apuração também identificou movimentação de cerca de R$ 19 milhões pela Go Up entre novembro e dezembro de 2025, período relacionado à produção do filme. Agora, os investigadores tentam reconstruir a origem e o destino desses recursos e verificar eventuais conexões com o dinheiro público sob investigação.

É nesse cenário que entram os R$ 645,4 mil enviados diretamente por Frias à produtora. Ao confrontar as transferências com os rendimentos conhecidos do parlamentar, a PF passou a questionar qual foi a fonte dos recursos utilizados nos pagamentos.

Filme já é investigado por financiamento de Vorcaro

A origem do dinheiro usado para financiar Dark Horse já é objeto de outra investigação no STF, sob relatoria do ministro André Mendonça.

Essa frente apura os recursos repassados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para a produção. O financiamento passou pelo fundo Havengate, administrado por Paulo Calixto, e entrou na mira das autoridades depois da revelação de conversas envolvendo Vorcaro e integrantes da família Bolsonaro.

Frias chegou a afirmar publicamente que não havia dinheiro de Vorcaro no longa e que a produção havia sido realizada exclusivamente com capital privado. Posteriormente, reconheceu uma “diferença de interpretação sobre a origem formal” dos recursos.

A investigação conduzida sob relatoria de Dino parte de outra origem: suspeitas envolvendo dinheiro público, emendas parlamentares, contratos e entidades ligadas a Karina Gama.

A Operação Make Up também apura suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes relacionados a licitações. Segundo a investigação, documentos referentes às operações financeiras teriam sido produzidos posteriormente e registrados com datas anteriores numa tentativa de justificar formalmente transações questionadas pela Controladoria-Geral da União (CGU).

Durante as buscas desta quinta, a PF apreendeu celulares e computadores. A investigação também encontrou armas registradas em nome de Frias em endereço diferente daquele informado para a guarda do armamento, episódio que abriu uma apuração específica.

Frias nega irregularidades no uso das emendas. Em manifestações anteriores, sua defesa afirmou que os recursos tinham finalidade definida e que as acusações de triangulação para financiar Dark Horse eram especulativas. Karina Gama também nega desvios e afirma que os recursos recebidos pela produtora foram destinados à produção do filme.

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