Master e Reag pagaram R$ 7,3 milhões a advogado que geria escritório de vice de Celina Leão

Gustavo Rocha  diz ser “amigo” de Engels Muniz, advogado que emitiu notas milionárias para empresas ligadas a Daniel Vorcaro
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Por Juliana Dal Piva e André Uzêda

O Banco Master e o Fundo de Investimento Reag pagaram R$ 7,3 milhões para o advogado que administrava o escritório de Gustavo Rocha (Republicanos-DF), candidato a vice na chapa de Celina Leão (PP-DF) e que durante seis anos foi secretário da Casa Civil do governador Ibaneis Rocha (MDB) no Distrito Federal. Celina assumiu o governo do Distrito Federal após Ibaneis renunciar ao cargo em março deste ano. Rocha diz que o escritório estava inativo e colocou “amigo” para gerir para “não perder CNPJ”.

Entre junho de 2024 e dezembro de 2025, o escritório individual do advogado Engels Augusto Muniz emitiu nota fiscal de quatro repasses milionários de três fontes pagadoras investigadas pela Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025. O núcleo investigativo do ICL Notícias teve acesso às notas fiscais eletrônicas do escritório de Engels e checou a veracidade delas no site do governo federal.

Em 12 de junho de 2024, Engels Muniz emitiu uma nota fiscal no valor de R$6,3 milhões, que foi paga pelo Fundo Legal Reag Claims – renomeado posteriormente de Fundo Pedra Azul. O grupo pertence à Reag Investimentos, liquidada pelo Banco Central em janeiro deste ano por fraude ao sistema financeiro em operações vinculadas ao Banco Master. Em delação premiada fechada com a Procuradoria-Geral da República (PGR),  o ex-dono da Reag Investimentos João Carlos Mansur afirmou que fundos administrados pela gestora foram usados para ocultar o pagamento de propinas de Daniel Vorcaro a autoridades públicas, de acordo com reportagem da Folha de S.Paulo.

Em maio de 2025, o escritório de Engels emitiu uma nova nota para receber R$1 milhão do Banco Master, sob a justificativa de ter prestado “consultoria jurídica” ao banco de Daniel Vorcaro.

Engels Augusto Muniz
O advogado Engels Augusto Muniz quando foi indicado à vaga reservada ao Senado no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), em 2022 – Foto: Agência Senado

Serviço prestado diretamente a Vorcaro

Em dezembro daquele mesmo ano, quando o Banco Central já havia decretado a liquidação extrajudicial do Master, Engels Muniz emitiu outras duas notas fiscais, mas desta vez tendo como tomador de serviço o próprio banqueiro Daniel Vorcaro. As duas notas somam R$ 4 milhões.

A primeira nota foi em 12 de dezembro, no valor de R$2 milhões. A justificativa foi por prestação de “serviços jurídicos”.

Em 29 daquele mesmo mês, a três dias do fim do ano, a operação se repetiu: outra nota no valor de R$2 milhões remetida a Daniel Vorcaro, sob a mesma justificativa de prestação de “serviços jurídicos”. Como os bens do banqueiro já estavam indisponíveis àquela altura, não é possível comprovar se, nestes casos, houve o efetivo repasse no valor das notas emitidas.

No momento em que cada uma das notas foi enviada pelo escritório, Engels ocupava funções públicas de destaque. Nas duas primeiras (para o Fundo Reag e o Banco Master), o advogado era conselheiro do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

Nas duas últimas, que teve como tomador de serviço o próprio Vorcaro,  Engels já era conselheiro do Conselho de Administração do Cartão BRB – o banco público de Brasília que, a partir de junho de 2024, passou a comprar as carteiras de crédito do Banco Master.

Quando o contrato entre o escritório de Engels e Vorcaro foi firmado para “serviços jurídicos”, o BRB já vinha operando nestas compras. No total, o banco público de Brasília adquiriu R$21,9 bilhões em carteiras de crédito do Master.

Procurado, Engels Muniz justificou o acordo com o Fundo Reag como “cessão de créditos de honorários advocatícios”, além de indicar que os processos correm sem segredo de justiça e podem ser consultados.

O advogado também informou que, desde dezembro, atua como “advogado de Daniel Vorcaro em processos no STF, na Justiça do DF e perante o liquidante do Banco Master”. E que “as notas fiscais correspondem à remuneração por serviços jurídicos regularmente prestados por meu escritório”.

Engels Muniz informou ainda que seu mandato já havia terminado no  Conselho Nacional do Ministério Público quando passou a advogar para Vorcaro. No entanto, não mencionou que era Conselheiro de Administração do Cartão BRB quando atuou para o dono do Master.

Relação entre Engels e vice de Celina Leão

Gustavo Rocha, vice de Celina Leão e ex-braço direito de Ibaneis Rocha, mantém uma estreita conexão com o advogado Engels Muniz. Em abril de 2024, os dois receberam conjuntamente o título de Cidadão Honorário de Brasília, concedido pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Na mesma noite, o ex-presidente Michel Temer (MDB) também foi laureado com a mesma honraria.

E foi justamente durante o governo Temer que Rocha e Engels trabalharam juntos em mais de uma oportunidade. Assim que o vice de Dilma assumiu a Presidência da República, em 2016, Gustavo Rocha se tornou subchefe para assuntos jurídicos, cargo subordinado à Casa Civil, então ocupado por Eliseu Padilha. E Engels Muniz foi nomeado chefe de gabinete de Rocha.

Em 2018, no último ano de Temer, Rocha foi alçado ao posto de Ministro dos Direitos Humanos, tendo Engels como secretário-executivo da pasta – chegando até a assumir  interinamente o ministério em algumas oportunidades.

As ligações entre eles não param por aí. Até junho deste ano, Engels figurava como administrador do escritório de advocacia Vale Rocha e Passamani Advogados, que tem como sócios o candidato a vice de Celina, Gustavo Rocha, e sua esposa, a advogada e arquiteta Marcela Meira Passamani.

Marcela Passamani também atuou por seis anos no governo de Ibaneis Rocha, ocupando até março de 2026 a Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal. Atualmente, ela é candidata a deputada distrital pelo MDB.

Em consulta ao site da Receita Federal, é possível constatar que, antes da saída de Engels Muniz como administrador, o escritório dele mantinha o mesmo endereço físico do Vale Rocha e Passamani Associados: um prédio no Lago Sul, área nobre de Brasília.

Um mês antes de ser anunciado como vice-governador na chapa de Celina Leão, Gustavo Rocha e sua esposa modificaram a organização societária do escritório, retiraram Engels Muniz do quadro e pediram alteração do endereço comercial.

Procurado pela reportagem, Gustavo Rocha disse que é amigo de Engels Muniz e que ele administrava seu escritório no período em que ele exercia funções públicas. Rocha diz que desde o ano passado já estava certo que seria candidato a vice na chapa de Celina Leão.

“Quando eu assumi a função pública, eu fiquei incompatível com a advocacia. Meu escritório estava inativo e eu precisava botar alguém para administrar mesmo ele estando inativo. Se não eu perdia o CNPJ do escritório que existe desde 2004. A legislação da OAB permite que você coloque qualquer pessoa. Isso não significa que ele [Engels] seja meu sócio. O Engels tem o escritório dele. O Engels é meu amigo. O Engels tem o escritório dele, os clientes dele e as causas dele. Eu tenho meu e os meus clientes”, afirmou Rocha. O candidato a vice de Celina negou que tenha prestado serviços para o Banco Master ou Daniel Vorcaro.

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