A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) anunciou uma iniciativa no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar incluir o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, nas investigações sobre o esquema de descontos indevidos aplicados a aposentadorias e pensões do INSS. O pedido será apresentado ao ministro André Mendonça, que conduz procedimentos relacionados à Operação Sem Desconto.
A medida tem como base uma reportagem do Núcleo Investigativo do ICL Notícias, assinada pela jornalista Alice Maciel. Segundo a publicação, a Bravo Grafeno, empresa do setor de capacetes que tem Flávio Bolsonaro entre seus sócios, possui registro em uma sala de Águas Claras, no Distrito Federal, que também foi utilizada como endereço cadastral por pelo menos 16 empresas associadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS” e apontado como personagem central das investigações.
“Frente à revelação de que Flávio Bolsonaro e o ‘Careca do INSS’ usavam o mesmo endereço e o mesmo contador para suas empresas, estou acionando o ministro André Mendonça para que ele inclua Flávio Bolsonaro no Inquérito do INSS”, afirmou Erika Hilton. Em outra publicação, a deputada classificou a coincidência como grave e defendeu uma apuração sobre os vínculos empresariais identificados. “É absurdo que um senador e candidato à presidência da República tenha uma empresa sediada no mesmo lugar onde 16 empresas de alguém indiciado por operar um dos maiores esquemas criminosos da história recente do nosso país”, escreveu.
O endereço citado é a sala 2601, bloco D, do Edifício Connect Towers. Entre as empresas que tiveram registro no local está a Prospect Consultoria Empresarial, que, segundo dados do relatório final da CPMI do INSS divulgados pela imprensa, recebeu R$ 204,2 milhões de nove entidades investigadas. Os negócios relacionados a Antunes atuam em diferentes setores, incluindo consultoria, construção, incorporação, comércio, locação de veículos e call center.


Mesmo endereço e contador em Brasília
A reportagem esteve no local nesta sexta-feira (dia 11), por volta das 10h30. Logo na portaria do prédio, uma funcionária informou que a sala 2601 é ocupada pela Voga Serviços Contábeis, empresa que pertence ao sócio do Careca do INSS, Alexandre Caetano dos Reis, que também está preso.
Alexandre Caetano dos Reis é o primeiro elo conhecido entre Flávio Bolsonaro e o Careca do INSS. Ele é responsável também pela contabilidade do escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro.
A Voga ocupa quatro salas no 26º andar do prédio. A recepção da empresa fica na de número 2603, onde o ICL Notícias foi recebido pelo advogado Thalles Setúbal. Ele confirmou que a Voga presta serviços à empresa de Flávio Bolsonaro, mas negou que a sala 2601, onde estão registradas as empresas do senador e do Careca do INSS, pertencesse à contabilidade, apesar de os funcionários que circulavam pelo corredor, terem confirmado à reportagem que o local também é ocupado pela Voga.
Inclusive, em duas ocasiões, ao bater na 2601 que estava fechada, fui abordada por funcionários que me orientaram que me dirigisse à recepção da Voga, ou seja, a sala vizinha, 2603.
Thalles afirmou que na 2601 funcionava um coworking e pertencia à outra empresa, com donos diferentes da Voga. Questionado sobre a relação da empresa de contabilidade com o senador Flávio Bolsonaro e as investigações da PF, Thalles respondeu: “A gente se posiciona nos autos, não com imprensa”.


Capacetes bolsonaristas
A Bravo Grafeno foi aberta pela família Bolsonaro em junho de 2024 e conta com capital social de R$ 100 mil. A loja online vende dois modelos de capacete por R$ 598,90 e viseiras branca e preta, por R$ 54.
“Com capacete Bravo de grafeno, você garante sua liberdade e segurança. Assim como eu, esse é 100% brasileiro”, anuncia o ex-presidente em vídeo divulgado no site da empresa. O domínio do site foi registrado em julho de 2024 em nome de Flávio Bolsonaro.
Jair Bolsonaro lançou o capacete para motos, no dia 11 de março de 2025, no Salão das Motopeças, realizado em São Paulo. O tricampeão mundial de Fórmula 1, Nelson Piquet, também divulgou a marca durante uma live em 2025.
A escolha de Mendonça como destinatário do pedido está relacionada à atuação do ministro no caso. Em dezembro de 2025, a pedido da Polícia Federal e após manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República, ele determinou a prisão preventiva de 16 investigados na PET 15041, além de outras medidas cautelares. Antunes continua preso e é apontado nas investigações como operador financeiro e um dos supostos líderes do esquema.
As fraudes investigadas pela Operação Sem Desconto envolvem cerca de R$ 6,3 bilhões em descontos associativos realizados entre 2019 e 2024. Erika Hilton afirmou que “foram ao menos 6 bilhões de reais retirados dos pagamentos de aposentados”. Sobre os ressarcimentos, dados oficiais indicam que R$ 3,2 bilhões já haviam sido devolvidos a aproximadamente 4,7 milhões de beneficiários até junho.
O governo também adotou medidas para impedir a continuidade das cobranças. Em janeiro de 2026, Lula sancionou a Lei 15.327, que proibiu descontos de mensalidades associativas nos benefícios do INSS e estabeleceu mecanismos para localizar beneficiários prejudicados e devolver valores cobrados indevidamente, nos casos previstos pela legislação. A Operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União, tornou público o esquema e levou à investigação de possíveis irregularidades envolvendo milhões de benefícios previdenciários.