O Assessor Especial do Palácio do Planalto, Celso Amorim, afirma que o Brasil terá de agir para impedir que a Inteligência Artificial se transforme em uma arma de dominação contra os países em desenvolvimento. Em uma palestra para um instituto indiano, nesta segunda-feira, ele alertou ainda contra qualquer ação contra a soberania da América Latina e insistiu que governos precisam reconhecer que o sistema multilateral nunca mais será a mesmo.
Segundo ele, tanto o Brasil quanto a Índia buscam desempenhar um papel maior “na configuração da ordem internacional”. “Compartilhamos um forte senso de dignidade nacional e a convicção de que nossas vozes devem ser ouvidas”, disse.
Amorim destacou que um dos trabalhos da política externa do Brasil tem sido a “busca para diversificar nossas relações”, e coloca a Índia como uma “parceira essencial nesse esforço”.
“Não queremos ser forçados a parcerias exclusivas. Queremos ampliar nossas opções e fortalecer nossa resiliência. Isso é fundamental para construir um sistema internacional mais equilibrado”, defendeu.
Para ele, o momento vive “um momento em que muitos dos paradigmas da ordem internacional estão sendo desafiados simultaneamente”. “Princípios e conquistas que antes considerávamos sólidos e amplamente aceitos estão agora sob pressão”, disse.
Segundo ele, o sintoma mais grave dessa ruptura é a normalização do uso da força. “O conflito de caráter genocida que continuamos a testemunhar em Gaza choca a consciência da humanidade. Ao mesmo tempo, os impactos econômicos das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio nos lembram de que não estamos imunes aos efeitos dos conflitos, mesmo quando ocorrem a milhares de quilômetros de distância”, disse.
Ele ainda cita o caso de “um presidente em exercício foi sequestrado e levado à prisão por uma superpotência”, numa referência ao caso de Nicolas Maduro.
“Se não agirmos em prol da paz, pode chegar um momento em que esses conflitos inevitavelmente transbordem e se tornem interconectados”, alertou.
“Como observou o Papa Francisco, já vivemos uma “guerra mundial em pedaços”. Em minhas próprias palavras, descrevi-a humildemente como um mundo em carne viva. Em um mundo sem regras, cada país avalia a melhor forma de proteger sua soberania”, disse.
Amorim acredita que, no Brasil, pode-se dizer que “está surgindo um novo consenso social em torno da importância de aumentar os investimentos em defesa”.
“Não há dúvida de que o setor de defesa atravessa uma revolução tecnológica. Nesse âmbito, a cooperação com a Índia é particularmente promissora”, insistiu. Segundo ele, esse diálogo tem mais de uma década e envolve até uma aeronave brasileira servindo de base para um sistema de radar indiano.
Sua avaliação é de que esses investimentos teriam impactos positivos para indústria de defesa, particularmente em termos de empregos de qualidade, desenvolvimento tecnológico e crescimento industrial. “No Brasil, a Embraer é um dos exemplos mais conhecidos. Ela vem expandindo significativamente sua presença no mercado indiano por meio de importantes
parcerias locais”, disse.
IA: resistir à ganância internacional
Amorim ainda alertou sobre a necessidade de que governos reduzam seus riscos diante da IA.
“Qualquer que seja o caminho escolhido, é essencial que a cooperação internacional em inteligência artificial seja guiada pela ética, pelo respeito à soberania e, acima de tudo, por uma abordagem humanista, que também pressupõe o cuidado com o meio ambiente”, disse.
Para ele, as reservas brasileiras de minerais críticos e estratégicos, incluindo terras raras, oferecem-nos a oportunidade de promover um desenvolvimento autônomo em tecnologias de ponta.
“Mas não basta explorar esses recursos. Devemos utilizá-los para impulsionar um processo de industrialização compatível com as demandas do nosso tempo. Em suma, precisamos avançar do minério bruto para a bateria — e resistir à ganância internacional”, defendeu.
Sua avaliação é de que Brasil e a Índia estão em condições de participar deste momento histórico “não apenas como observadores, mas como participantes ativos”.
“Um dos principais desafios para o Sul Global hoje é garantir que a inteligência artificial não se torne um instrumento de dominação e discriminação entre países”, alertou.
O diplomata ainda apontou como o Brasil irá defende uma estrutura multipolar do mundo e contra qualquer “nova divisão do mundo em esferas de influência”.
“Para evitar esse risco, é essencial reconstruir um mundo regido por regras acordadas multilateralmente. Para tanto, devemos reconhecer que o multilateralismo permanece como uma promessa ainda não plenamente cumprida”, admitiu.
“A principal tarefa da política externa brasileira hoje é assegurar uma posição independente e soberana para o Brasil no novo equilíbrio global”, afirmou.
Amorim também rejeitou qualquer ação que possa significar a retomada da América Latina por uma superpotência.
“A inserção internacional do Brasil envolve, necessariamente, a integração regional com a América Latina e, especialmente, com a América do Sul. Rejeitamos categoricamente a ideia de que a América Latina possa ser tratada como uma área de dominação por qualquer superpotência”, afirmou.
Amorim ainda concluiu com um reconhecimento da transformação da ordem global. “O sistema multilateral como o conhecíamos não retornará. Devemos reconhecer que uma renegociação das normas internacionais será inevitável. Nesse contexto, é essencial garantir que o Brasil e a Índia estejam presentes e atuem em conjunto quando forem definidas as regras da próxima ordem mundial, na qual o Sul Global esteja representado”, defendeu.