Empresas de setores tradicionais ainda enfrentam dificuldades para incorporar os riscos provocados pelas mudanças climáticas às decisões de investimento e à avaliação de seus ativos, segundo análise da Climate Ventures, organização que atua no direcionamento de capital para iniciativas sustentáveis.
Um dos principais desafios está no uso de séries históricas para calcular riscos futuros. Dados que abrangem períodos de várias décadas podem diluir transformações mais recentes e aceleradas no comportamento do clima, aumentando a necessidade de considerar também projeções para os próximos anos.
O cenário ganha importância diante de fenômenos como o El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas do oceano Pacífico e associado a alterações nos regimes de chuva e temperatura. Para empresas diretamente dependentes das condições ambientais, essas mudanças podem afetar custos, receitas e operações.
Pressão sobre empresas pode aumentar
A cobrança de investidores e instituições financeiras por informações sobre a exposição das companhias aos riscos climáticos pode ampliar a atenção dada ao tema. No Brasil, porém, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) retirou, em maio, a obrigatoriedade de publicação de relatórios de sustentabilidade.
Outro obstáculo é a disponibilidade de dados climáticos detalhados, organizados e confiáveis que permitam antecipar os impactos sobre diferentes atividades econômicas.
Os efeitos das mudanças climáticas também tornam cada vez mais difícil separar questões ambientais dos resultados financeiros das companhias. Secas, enchentes, ondas de calor e outras ocorrências extremas podem elevar custos operacionais, prejudicar a produção e provocar perda de receitas.
Projetos sustentáveis encontram barreiras ao crédito
Enquanto empresas tradicionais precisam adaptar seus modelos de avaliação de risco, negócios criados para atuar na economia sustentável enfrentam dificuldades diferentes. Por terem histórico mais curto, alguns desses projetos encontram obstáculos para atender aos critérios de bancos e seguradoras.
A falta de parâmetros para avaliar atividades ainda pouco difundidas pode resultar na exigência de garantias e seguros maiores, encarecendo o financiamento. Viveiros destinados a projetos de reflorestamento estão entre os exemplos de atividades que enfrentam dificuldades no acesso a seguros.
A Climate Ventures desenvolve, por meio do Nature Investment Lab, mecanismos de garantia destinados a ampliar o acesso desses negócios aos recursos do Fundo Clima. Uma das ferramentas está em processo de regulamentação e tem expectativa de destravar cerca de R$ 10 bilhões. O desenho do mecanismo contou com colaboração de especialistas e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Empresas apoiadas pela iniciativa também vêm adaptando suas operações às condições climáticas. A Inocas, que cultiva a palmeira macaúba para recuperação de pastagens, revisou sua janela de plantio para períodos de maior segurança hídrica e passou a utilizar mudas mais resistentes.
A Caaporã, que atua na pecuária, ampliou a produção de plantas destinadas à alimentação animal durante a estação chuvosa e aumentou os estoques de milho e sorgo como preparação para períodos de seca e para os efeitos do El Niño.