Democracia avançou sob Lula e Brasil vai na contramão de onda autoritária, diz estudo global

Levantamento mais completo sobre a saúde da democracia no mundo elogia caso brasileiro, critica Bolsonaro e alerta que EUA vivem pior momento em 50 anos
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O fim do governo de Jair Bolsonaro, em 2022, permitiu que o Brasil realizasse uma guinada democrática, com medidas que acabaram colocando o país numa rota mais favorável que a dos EUA, Argentina e outros governos.

A constatação faz parte do relatório anual do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (International IDEA), sediado em Estocolmo. O informe alerta para a crise democrática no planeta e o fato de os EUA viverem seu pior momento em 50 anos.

Em todo o mundo, a independência do Judiciário, a credibilidade das eleições, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e o acesso à justiça estão em seus níveis mais baixos em pelo menos 30 anos.

O relatório Estado Global da Democracia) é considerado o mais abrangente do gênero, abrange 174 países e mede o desempenho democrático desde 1975.

O International IDEA afirmou que o declínio nos EUA foi particularmente acentuado, mas faz parte de uma tendência global. O ano de 2025 marca o 11º ano consecutivo em que mais países registraram retrocessos do que avanços democráticos.

Mas uma das poucas exceções é o caso brasileiro. De acordo com o informe, em sete países, o ambiente para a sociedade civil melhorou entre 2020 e 2025. “Esses países incluem aqueles com desempenho intermediário — Sri Lanka, Síria e Zâmbia — e aqueles com alto desempenho — Austrália, Brasil, Fiji e Polônia”, disse.

“No Brasil, os avanços têm sido evidentes desde 2023. Entre os desenvolvimentos notáveis, destacam-se o restabelecimento de conselhos participativos que integram a sociedade civil à formulação de políticas públicas, a redução de barreiras ao financiamento filantrópico e a oferta de benefícios fiscais para a sociedade civil, além de uma nova legislação que facilita parcerias formais com a sociedade civil em contextos de desastres e questões climáticas”, afirmou o levantamento.

O Brasil ainda aparece como tendo registrado “um dos mais acentuados” avanços nos critérios que medem a saúde da democracia.

“Muitas das melhorias no Brasil podem ser atribuídas a mudanças nas políticas ocorridas desde que o ex-presidente Jair Bolsonaro deixou o poder”, disse. “A atual administração tem enfatizado questões relacionadas a direitos e espaço cívico — como acesso à justiça, liberdades civis, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e sociedade civil —, inclusive por meio da restauração de medidas para lidar com crimes históricos, ao passo que condenações de grande repercussão ajudam a explicar o progresso no acesso à justiça”, elogia o levantamento.

Avanços no ranking

Desde o fim do governo de Jair Bolsonaro, o maior ganho ocorreu no Brasil no critério que mede os direitos da população. O país ocupa hoje a 50a posição, doze postos acima de 2024. Entre 2023 e 2024, o Brasil já havia subido 17 posições.

No critério de representatividade, o Brasil aparece na 41a posição, um posto acima de 2024 e seis a mais que em 2023, quando Lula assumiu.

No que se refere à participação da sociedade civil, o país subiu 29 posições entre 2023 e 2024 e passou a ocupar o quarto lugar no mundo. Em 2025, tradicionais democracias avançaram nesse aspecto e o Brasil acabou terminando o ano em 13a posição. Ainda assim, acima de mais de uma dezena de países ricos.

No critério sobre o Estado de Direito, o Brasil subiu 38 posições no ranking entre o primeiro e o segundo ano do governo Lula, chegando ao 53o posto.

O mesmo informe destaca como a administração Trump incentivou líderes autoritários pelo mundo a embarcar em ataques contra a democracia.

“Indiretamente, ao abandonar certos valores democráticos, os EUA encorajaram líderes autoritários desde o primeiro mandato de Trump”, disse.

“A tentativa do ex-presidente Jair Bolsonaro de permanecer no poder no Brasil após perder a eleição de 2022, bem como a invasão de prédios governamentais por seus apoiadores em 8 de janeiro de 2023, ecoaram os desdobramentos da eleição de 2020 nos EUA”, disse.

Na Sérvia, autoridades citaram as alegações de Trump sobre má gestão na USAID para justificar operações contra organizações da sociedade civil. O presidente argentino Javier Milei também recorreu a decretos do Executivo para reverter avanços em áreas como proteção ambiental e direitos LGBTQ+.

Mesmo na questão de Integridade e Segurança Pessoal, o estudo indica que os avanços superaram os retrocessos nas Américas. Fora três avanços — no Brasil, Chile e Suriname — contra um retrocesso, no Equador. “No entanto, esses avanços não devem ser interpretados como uma melhoria geral na situação de segurança”, ponderou.

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