Não é somente o apoio político que aproxima Flávio Bolsonaro do presidente da Argentina, Javier Milei. O candidato a presidente do PL quer usar a estratégia econômica de Milei como modelo a ser replicado no Brasil, caso vença as eleições. O curioso é que o país vizinho vive uma crise econômica aguda, com alta no desemprego e no fechamento de empresas, o que faz com que 60% dos argentinos desaprovem o desempenho de seu presidente.
Em evento do grupo Esfera, realizado na segunda-feira (14), Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio, disse que a política econômica do governo argentino é um “bom exemplo” a ser seguido por aqui.
O próprio candidato já tinha demonstrado essa admiração. Inspirado nas medidas de Milei, Flávio já disse que planeja implementar um “revogaço” de mais de mil normas infralegais no Brasil, além de um amplo plano de privatizações (incluindo estatais como os Correios) e um forte corte de gastos públicos, apelidado de “tesouraço” (emulando a “motosserra” do presidente argentino).
Em junho, o candidato afirmou em discursos que os brasileiros têm a “esperança de terminar como a Argentina está hoje”.
A análise do quadro econômico no país dos hermanos, no entanto, mostra uma realidade bem diferente da elogiada por Flávio.
O plano de austeridade fiscal, apelidado por Milei como o “modelo da motosserra”, alcançou marcas históricas celebradas pelo mercado financeiro: a inflação mensal desabou para 1,7% em agosto, fixando o acumulado interanual na casa dos 33,5% — uma queda drástica para um país que herdou um índice superior a 200% ao ano. No entanto, por trás do sucesso macroeconômico, a economia real sangra sob uma recessão severa e o fantasma do desemprego.
A desaceleração dos preços, longe de ser um reflexo de maior poder de compra, é explicada por empresários locais de forma direta: “Não há inflação porque não há compras”.
O esmagamento do consumo interno — que registrou recuos até na venda de itens básicos de higiene — transformou a falta de dinheiro no bolso e a perda de postos de trabalho nas principais angústias dos argentinos, superando o antigo medo da hiperinflação.
O preço da desregulamentação
A política de forte abertura comercial e corte de subsídios asfixiou o parque industrial nacional. Sem barreiras protetivas e enfrentando uma drástica queda na demanda doméstica, fábricas tradicionais operam com turnos ociosos ou fecham as portas definitivamente. Desde o início do ciclo de ajustes, mais de 240 mil vagas com carteira assinada foram destruídas no setor privado, atingindo fortemente a indústria manufatureira.
O Palácio do Governo adota uma linha inflexível. De acordo com a equipe econômica liderada por Luis Caputo, a manutenção do superávit fiscal não é negociável.
A narrativa oficial defende que proteger indústrias ineficientes custa caro à sociedade e que o sacrifício atual pavimentará uma economia saudável a longo prazo.
Abismo social e pressão nas ruas
Apesar de flutuações nas métricas oficiais ao longo do ano, dados do primeiro semestre apontam que cerca de um terço da população urbana permanece na pobreza, com quase 1 milhão de pessoas empurradas para a indigência devido ao reajuste tarifário de serviços públicos como luz, água e transporte. O próprio Milei chegou a classificar o panorama social recente como “horrível”, embora garanta que a tendência estrutural continua sendo de recuperação.
O desgaste começa a cobrar seu preço político. Pesquisas de opinião locais indicam que a desaprovação ao formato do governo atinge a marca dos 60%, impulsionada pelo sentimento de privação que se alastra pela classe trabalhadora.
Com as eleições parlamentares de 2027 no horizonte próximo, o relógio corre contra o experimento libertário na Casa Rosada: a grande questão é se a estabilização financeira chegará à mesa dos argentinos antes que a paciência social se esgote por completo.