Vigorava entre os iorubás tradicionais a crença de que a mãe de gêmeos que não tinha em seguida um novo filho poderia perder o senso. Para evitar isso, o filho que nascia depois dos gêmeos era chamado sempre de Idowu.
Idowu, virado em Doum no Brasil, passou a ser o irmãozinho mais novo de Damião e Cosme. O encontro entre Ibeji, o orixá iorubano que guarda os gêmeos, e os santos médicos cristãos, resultou numa mistura encruzilhada pelas invenções bonitas da vida.
O mestre Vivaldo da Costa Lima, Obá de Xangô, sugere que o nome vem de Owú; ciúme, em iorubá (Cosme e Damião: O culto aos santos gêmeos no Brasil e na África). Idowu seria o caçula com ciúmes dos irmãos mais velhos.
Sou réu confesso. Me fascina a presença desse pequeno intruso entre os gêmeos. Doum nos terreiros de umbanda passeia no cavalo de Ogum e nas estátuas dos santos vendidas no Mercadão de Madureira aparece entre os mais velhos, vestidinho como eles.
Doum é o crime da diáspora virado em invenção do mundo. Ele transgride o precário em arte e festa. É o menino de um Brasil das ruas que certo Brasil oficial, pensado como um projeto de desencantamento da vida pela domesticação dos corpos, quer matar.
Doum não existe na história dos santos gêmeos. É a criança inventada. Exatamente por isso, é a criança de um Brasil possível: a subversão do vazio, o arrepiado do encanto nas bordas do real, a cambalhota no destino, o giro do pião, a síntese entre um lado – Cosme – e outro – Damião.
É pra Doum que canto e consagro os doces: aquele que existe não porque viveu; mas porque é a nossa maneira bonita de inventar o menino passeador.
Doum, meu menino, é o país que ainda brinca na amplidão formosa do que pode ser o mundo.