O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai usar seu discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU, na próxima semana, para insistir sobre o fato de que seu governo está comprometido com o combate ao narcotráfico e cartéis que ameaçam a segurança de cidades. A inclusão do tema servirá para rebater as críticas por parte de Donald Trump.
O Brasil também espera “expôr” a manobra da Casa Branca para usar o combate ao crime organizado para justificar intervenções na América Latina.
Conforme o ICL Notícias antecipou na quarta-feira, o governo Trump criticou o Brasil por “fracassar” em lidar com o crime organizado. Num documentos oficial, a referência ao país foi citada e acendeu o alerta máximo no governo brasileiro.
A declaração do presidente americano que foi enviada ao Congresso dos EUA aponta a insatisfação da Casa Branca com a situação no Brasil e foi recebida como um sinal de que alguma medida poderá ser anunciada contra o país nos próximos dias.
“Essas organizações terroristas brasileiras representam uma ameaça crescente à paz e à segurança mundial, e o governo brasileiro precisa, com urgência, adotar medidas enérgicas para enfrentá-las e derrotá-las antes que se expandam e se fortaleçam”, alertou o documento assinado por Trump.
Para o governo, trata-se de um possível prenúncio de uma eventual ingerência às vésperas da eleição. O ato de Trump ainda coincide com a ida de Eduardo Bolsonaro para Washington, pedindo novas sanções contra autoridades nacionais.
A decisão de Brasília, portanto, foi a de reagir de forma institucional, mas também se preparar para uma gestão internacional.
Em nota emitida na noite de quarta-feira, o Ministério da Justiça criticou a referência feita por Trump ao Brasil, disse que não há nenhum novo motivo para a queixa e lamenta que as propostas do governo Lula de parceria com os EUA para lutar contra o crime jamais foram respondidas pela Casa Branca.
O que surpreende o governo brasileiro é que, oficialmente, o governo norte-americano não incluiu o Brasil nos países que produzem ou que são rotas importantes do tráfico. Esse era o foco do documento. Mesmo assim, sem explicações, Trump dedicou um trecho de seus ataques ao Brasil.
“A alusão registrada no texto não corresponde à categoria jurídica de descumprimento formal prevista na legislação norte-americana que rege esse mecanismo anual. Trata-se, portanto, de manifestação circunstancial inserida na parte narrativa do documento, sem respaldo em sua parte dispositiva”, diz o comunicado do Brasil.
“O governo brasileiro refuta quaisquer alegações de que existam falhas ou omissões no enfrentamento ao crime organizado transnacional”, insistiu.
O governo considera que “a posição estampada na referida nota desconsideraria, se acolhida em todos os seus termos, os esforços do Governo Federal no enfrentamento ao crime organizado, como a Lei Antifacção, sancionada em março de 2026, que prevê penas mais severas para líderes de facções e cria mecanismos que asfixiam suas operações”.
“Também não levaria em consideração as dezenas de milhares de operações de combate ao crime por forças federais, com bilhões de reais de prejuízo aos criminosos, bem como as múltiplas ações implementadas em 2026 no âmbito do Programa Brasil contra o Crime Organizado, lançado em maio último, que sufoca economicamente as facções, fortalece o sistema prisional, qualifica a investigação de homicídios e enfrenta o tráfico de armas”, insistiu.
O texto ainda concluiu que o governo brasileiro “seguirá atuando de forma soberana e coordenada no enfrentamento às organizações criminosas, como demonstram os resultados obtidos nos últimos anos”.
Lula, porém, também usará o palco internacional para fazer o alerta. O evento das Nações Unidas começa na próxima terça-feira, em Nova York, e Lula fará uma “viagem relâmpago”. O presidente não quer dar a impressão de que está se distanciando da campanha eleitoral. Mas considera que o palco da ONU é um espaço privilegiado para mandar mensagens, tanto ao mundo quanto à opinião pública brasileira.
Conforme o ICL Notícias revelou com exclusividade, Lula levará uma mensagem forte sobre soberania, democracia e a defesa do multilateralismo.
Agora, a decisão de incluir o tema do combate ao narcotráfico no discurso foi estratégica. De um lado, Lula se antecipa ao presidente dos EUA, que será o segundo chefe de estado a discursar na ONU, depois do brasileiro. O governo considera citar os investimentos de R$ 11 bilhões no combate ao crime, assim como a proliferação de operações da Polícia Federal.
Mas há também um aspecto doméstico na decisão de Lula de incluir o tema na agenda. Flávio Bolsonaro já anunciou que, se vencer a eleição, vai aderir às alianças militares de Trump na região, supostamente para lutar contra o crime organizado. Além disso, anunciou que vai classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, exatamente como havia solicitado Trump.
Lula, ao falar do tema, tentará mostrar que o combate ao crime já está sendo tratado pelo atual governo e que Brasília tem uma estratégia.