Pesquisas mostram eleição aberta, mas não sustentam catastrofismo sobre Lula

Atlas, Quaest e Datafolha apontam estabilidade de Lula, avanço de Flávio e segundo turno ainda equilibrado
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Por Cleber Lourenço

A divulgação de três pesquisas nacionais em poucos dias produziu uma enxurrada de interpretações sobre a eleição presidencial. Algumas delas parecem ter decidido antecipar até o resultado de outubro. Os números, porém, recomendam menos ansiedade e mais atenção às séries históricas.

AtlasIntel, Quaest e Datafolha mostram uma eleição competitiva e ainda aberta. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) avançou numericamente no primeiro turno nas três pesquisas mais recentes e reduziu a distância para Lula (PT). É um movimento relevante e não deve ser desprezado. Mas os mesmos levantamentos também mostram que Lula não sofreu, até agora, uma queda equivalente.

Essa diferença é fundamental. No Datafolha, Lula tinha 39% na rodada anterior e continua com 39%. Flávio passou de 35% para 36%. Na Quaest, Lula permaneceu em 36%, enquanto Flávio foi de 29% para 31%. Na Atlas, Lula oscilou de 43% para 44,1%, enquanto Flávio avançou de 37,4% para 41,7%.

Portanto, o que as três pesquisas captaram não foi uma debandada do eleitorado lulista em direção a Flávio. O movimento comum foi outro: Lula permaneceu relativamente estável enquanto seu principal adversário cresceu numericamente.

Naturalmente, oscilações dentro da margem de erro não podem ser tratadas isoladamente como crescimento ou queda comprovados. Mas quando três institutos, com metodologias diferentes, registram uma aproximação na mesma direção, o sinal merece atenção.

E é exatamente isso: um sinal de aproximação. Não uma sentença eleitoral.

Lula continua na frente no primeiro turno

Há outra convergência importante entre os três levantamentos: Lula aparece numericamente à frente de Flávio em todos os cenários estimulados de primeiro turno.

Na Atlas, são 44,1% para Lula e 41,7% para Flávio. No Datafolha, 39% a 36%. Na Quaest, 36% a 31%.

Os números absolutos são diferentes porque os institutos utilizam metodologias distintas. A Atlas realiza recrutamento digital; Quaest e Datafolha fazem entrevistas presenciais. Também existem diferenças na captura de indecisos e na composição das amostras. Por isso, não faz sentido perguntar se o “verdadeiro” Lula tem 36%, 39% ou 44,1%.

O que importa é observar cada instituto contra ele mesmo e procurar convergências entre eles. E há duas.

A primeira é que Lula continua numericamente à frente no primeiro turno.

A segunda é que essa distância diminuiu nas três séries.

Na Atlas, a diferença caiu de 5,6 para 2,4 pontos. Na Quaest, de sete para cinco. No Datafolha, de quatro para três.

Esse é provavelmente o dado que mais merece atenção da campanha de Lula neste momento. Não há desabamento, mas houve aproximação.

O segundo turno explica por que não há espaço para acomodação

Se o primeiro turno ainda oferece alguma vantagem a Lula, o segundo apresenta uma eleição muito mais apertada.

A Atlas registra Flávio com 47,2% e Lula com 46,8%. A Quaest aponta 42% para Flávio e 40% para Lula. O Datafolha encontra o inverso: Lula com 46% e Flávio com 44%.

Nos três casos, a diferença está dentro da margem de erro.

Isso significa algo bastante simples: as pesquisas disponíveis não oferecem base estatística para afirmar hoje que um dos dois esteja claramente à frente do outro em um eventual segundo turno.

Também não existe, porém, uma tendência inequívoca de deterioração de Lula nesse confronto.

No Datafolha, o placar anterior era 46% a 44% para Lula. Continua exatamente 46% a 44%. Na Atlas, o levantamento anterior já mostrava praticamente um empate, 46,4% para Flávio e 46,2% para Lula. Agora são 47,2% e 46,8%. Na Quaest, o 41% a 41% passou para 42% a 40% para Flávio, ainda dentro da margem.

É difícil encontrar nesses números evidência de uma eleição decidida. O que existe é evidência de uma eleição equilibrada.

A estabilidade é a notícia escondida nos números

Talvez esse seja o aspecto menos chamativo e mais importante das pesquisas.

A política brasileira atravessa semanas de acontecimentos intensos, crises institucionais, operações policiais, disputas no STF, notícias sobre o Banco Master e uma campanha eleitoral cada vez mais agressiva. Mesmo assim, a estrutura fundamental da corrida presidencial demonstra resistência.

Lula permanece aproximadamente no mesmo lugar.

Flávio avançou e reduziu a diferença.

Os candidatos do segundo pelotão continuam muito distantes dos dois primeiros.

E o segundo turno permanece praticamente dividido ao meio.

Há movimentação dentro da fotografia, portanto, mas ainda não houve mudança da fotografia.

Essa estabilidade ajuda a colocar em perspectiva interpretações feitas a partir de uma única rodada. Pesquisa eleitoral é muito mais útil quando observada como filme do que como fotografia. Um ponto para cima ou para baixo pode significar mudança real, variação amostral ou uma combinação das duas coisas. Uma sequência de pesquisas é que permite identificar movimentos mais consistentes.

A eleição continua socialmente dividida

Os estratos também ajudam a entender por que o equilíbrio nacional é tão resistente.

No Datafolha, Lula registra 46% entre eleitores com renda de até dois salários mínimos, contra 29% de Flávio. Na faixa entre dois e cinco salários, a relação se inverte: Flávio tem 41% e Lula, 33%. Acima de cinco salários, são 44% a 28% para Flávio.

A Quaest encontra desenho semelhante no segundo turno. Entre quem recebe até dois salários mínimos, Lula marca 51% contra 32% de Flávio. De dois a cinco salários, Flávio tem 46% contra 36%. Acima de cinco, 47% a 34%.

A divisão religiosa é igualmente evidente. No Datafolha, Lula tem 43% entre católicos, contra 32% de Flávio. Entre evangélicos, Flávio chega a 48%, e Lula fica com 26%.

Geograficamente, a polarização também é profunda. O Datafolha encontra Lula com 56% no Nordeste, contra 26% de Flávio. No Sul, Flávio registra 45% contra 27% de Lula. A Quaest também mostra enorme vantagem de Lula no Nordeste e de Flávio no Sul e no Sudeste.

Não estamos diante, portanto, de um eleitorado caminhando conjuntamente numa única direção. São blocos sociais, religiosos e regionais diferentes sustentando os dois polos.

É justamente dessa divisão que nasce o empate nacional.

Lula tem uma tarefa para a reta final

Reconhecer que não existe desastre eleitoral não significa dizer que a situação seja confortável para Lula.

Não é.

As três pesquisas mostram que Flávio conseguiu reduzir numericamente a diferença no primeiro turno. E mostram, sobretudo, que a vantagem de Lula desaparece quando os demais candidatos são retirados da disputa.

Isso coloca uma questão importante para a reta final da campanha.

Mais do que simplesmente terminar o primeiro turno na liderança, Lula teria interesse político em chegar ao segundo com uma diferença mais clara sobre Flávio. Uma vantagem na casa de cinco pontos, por exemplo, não garantiria matematicamente nada — eleições não funcionam dessa maneira —, mas representaria um colchão político maior do que uma chegada praticamente empatada.

Hoje, esse colchão não aparece de maneira consistente.

A Quaest encontra exatamente cinco pontos de diferença. O Datafolha encontra três. A Atlas, 2,4.

Portanto, se há uma mensagem de alerta para a campanha lulista nas pesquisas desta semana, ela está aí: é preciso interromper a aproximação de Flávio e tentar ampliar novamente a distância durante a reta final.

Isso envolve disputar indecisos, eleitores dos candidatos menores e segmentos nos quais Lula ainda tem espaço para crescer ou recuperar terreno. Os números mostram que a eleição não está perdida. Mostram também que ela não está ganha.

Nem euforia, nem catastrofismo

Há uma tentação recorrente em período eleitoral de transformar cada pesquisa numa profecia.

Se um candidato oscila dois pontos para cima, “virou”. Se oscila dois para baixo, “desabou”. Se aparece numericamente atrás num empate técnico, “perdeu a liderança”. Uma semana depois, outra pesquisa frequentemente produz a manchete oposta.

A série atual recomenda justamente o contrário.

Lula continua liderando numericamente o primeiro turno nos três principais levantamentos divulgados nesta semana. Seu percentual permaneceu praticamente estável em relação às pesquisas anteriores. Flávio avançou nos três institutos e reduziu a distância. E o segundo turno permanece tecnicamente empatado em Atlas, Quaest e Datafolha.

São essas três informações que precisam ser lidas juntas.

Ignorar o avanço de Flávio seria cometer um erro de diagnóstico. Transformá-lo em prova de que Lula já perdeu a eleição seria cometer outro.

A fotografia disponível hoje é muito menos dramática e muito mais interessante: há estabilidade numa eleição ainda indefinida.

Lula preserva uma base eleitoral robusta, mas precisa ampliar sua vantagem. Flávio consolidou terreno, mas ainda não estabeleceu uma liderança estatisticamente clara no confronto direto. Os terceiros candidatos continuam longe, mas seus eleitores podem adquirir importância decisiva num segundo turno.

A reta final, portanto, importa muito.

Não porque Lula precise operar algum milagre para ressuscitar uma candidatura derrotada — os números simplesmente não mostram uma candidatura derrotada. Mas porque uma disputa que permanece equilibrada há várias rodadas pode ser decidida justamente pelos movimentos que ainda não aconteceram.

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