Por André Uzêda
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Kassio Nunes Marques, curtiu o carnaval de 2024 em Salvador em cima de um trio elétrico que teve patrocínio do Banco Master e do Credcesta. Ambos faziam parte do ecossistema financeiro do banqueiro Daniel Vorcaro, preso por suspeita de fraude, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Em 9 de fevereiro de 2024, uma sexta-feira de carnaval, Nunes Marques foi fotografado vestindo um abadá durante o desfile do bloco Vumbora, comandado pelo cantor Bell Marques, ex-vocalista da banda Chiclete com Banana. O ministro acompanhou o desfile no tradicional circuito Barra-Ondina e chegou a falar com a imprensa na ocasião: “rapaz, esse Bell é porreta”.
Em janeiro daquele ano, o Vumbora, que é administrado por uma empresa do próprio Bell Marques, passou a publicar conteúdos sobre festas nas redes sociais com o patrocínio do Banco Master, ao lado de marcas como Ifood, Brahma e Casas Bahia.

Já durante o próprio carnaval, o banco de Daniel Vorcaro foi uma das empresas que apareceu com nome estampado no próprio abadá do bloco. O patrocínio ficou posicionado na parte de trás da vestimenta. Nas fotos em que o ministro Kássio Nunes Marques aparece, como ele está sempre de frente, não dá para ver se o abadá que ele usou tinha ou não o patrocínio do Banco Master.
Procurado pela reportagem, o ministro do STF disse, em nota, que foi convidado para o bloco diretamente por Bell Marques e “antes do show almoçou com o cantor e a família no apartamento dele”. O ministro disse ainda que não foi convidado “por nenhum patrocinador e também não conversou com ninguém que tenha patrocinado o bloco”. Nunes Marques, no entanto, não respondeu se recebeu algum abadá especial ou usou o mesmo dos demais foliões, com patrocínio do Banco Master na vestimenta. O bloco Vumbora não respondeu aos questionamentos antes do fechamento da reportagem.
Deputados na folia patrocinada pelo Banco Master
Em uma outra foto tirada naquele mesmo dia dentro do bloco de Bell Marques, o deputado Arthur Lira (PP-Alagoas), então presidente da Câmara dos Deputados, aparece ao lado do deputado baiano Elmar Nascimento (União Brasil), acompanhado de outros dois parlamentares estaduais da Bahia (Emerson Penalva e Marcinho Oliveira). Na imagem, dá para ver a marca do Banco Master em destaque na parte de trás do abadá de um folião.

O bloco Vumbora também teve, em 2024, o patrocínio do Credcesta – o cartão de benefício consignado associado ao Banco Master. Augusto Lima, empresário baiano dono do Credcesta e ex-sócio de Daniel Vorcaro, chegou a trabalhar com venda de abadás antes de entrar para o setor financeiro.
Já em 2025, o bloco Vumbora teve o apoio financeiro do Will Bank – banco digital adquirido pelo banco Master em fevereiro de 2024 e liquidado pelo Banco Central em janeiro deste ano.

Carnaval no Rio e em Salvador
A menção ao carnaval de Salvador do ano seguinte aparece associada a Nunes Marques em mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro.
A PF identificou que o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), pediu ao banqueiro, por meio de um operador de viagens, hospedagens com destino à capital baiana e também ao Rio de Janeiro. Os pedidos teriam sido feitos em nome de Nunes Marques e seus familiares. A inferência da PF se deve à menção nos diálogos à sigla “KN”.
Nas mensagens também foi identificado que a esposa de Newton Ramos, a advogada Camila Ramos, manteve um contrato com o Master para atuar em processos relacionados a precatórios no valor de até R$427 milhões. O desembargador e a esposa eram identificados como parte da “Turma KN” – uma referência às iniciais do ministro Kassio Nunes.

O gabinete do desembargador foi alvo nesta quinta-feira (dia 24) de uma operação de busca e apreensão de documentos autorizada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Em declarações anteriores, o ministro do STF afirmou que nunca esteve com Daniel Vorcaro, nem nunca pediu qualquer favor a ele.
Em outra conversa extraída do celular de Vorcaro, uma mulher identificada pelo nome de Rayanna cobra ao banqueiro o valor de um encontro em que mulheres estiveram com um homem de nome “Kassio”.
O encontro teria ocorrido em 28 de fevereiro de 2025, uma sexta-feira de carnaval. O local foi a Rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, no Itaim Bibi, área nobre de São Paulo. O ICL Notícias e o site Alma Preta obtiveram documentos que provam que, na época do suposto encontro, o apartamento pertencia à uma empresa ligada a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. Nunes Marques nega encontro com a mulher.