Por André Lucena – Brasil de Fato
Xi Jinping deixou Washington nesta sexta-feira (25) mostrando que o relacionamento com os Estados Unidos, como reiteradamente frisado pelo presidente Donald Trump, guarda alguma normalidade nestes tempos de incerteza geopolítica. Na capital estadunidense, deixou claro que quer que as empresas chinesas sejam tratadas “de forma justa”, foi recebido à altura de uma visita de Estado e conseguiu emplacar uma renovação da trégua comercial entre as duas maiores potências econômicas do mundo. À primeira vista, o líder chinês não saiu do encontro (o segundo entre ele e Trump em 2026) tendo feito qualquer concessão.
O resultado mais concreto foi fechado antes mesmo de que Xi e Trump sentassem à mesa. Na quarta-feira (23), o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, teve uma reunião com o vice-premiê chinês Hê Lifeng e anunciou que a trégua firmada na Coreia do Sul, em outubro do ano passado, vai valer até 10 de janeiro. O acordo, que reduz tarifas recíprocas e suspende os controles chineses sobre a exportação de terras raras, seria encerrado em 10 de novembro.
Trump apostou na cerimônia. Foi pessoalmente à base aérea de Andrews receber o visitante, gesto que Xi não fez quando o republicano desembarcou em Pequim, em maio. Houve revista militar, sobrevoo e um jantar de gala com os pesos-pesados do setor de tecnologia: Elon Musk (Tesla), Jensen Huang (Nvidia), Sam Altman (OpenAI) e Tim Cook (Apple), entre outros nomes. China e EUA têm proposto visões crucialmente distintas sobre o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA), e a questão passa por saber qual o nível de controle humano ideal e necessário nos modelos atuais e vindouros.
Nenhum anúncio concreto sobre o tema foi feito, mas os dois acertaram em criar uma linha direta para riscos e emergências ligados à tecnologia. Trump, às voltas com os produtores estadunidenses, defendeu que a questão da IA (agora, chamada por ele de “Superinteligência”) fique “exatamente como está”. O entendimento vai ao encontro do que pensa Pequim sobre a temática.
A dimensão simbólica seduz Trump, mas o líder chinês manteve o tom controlado e a aversão a qualquer tipo de improviso. Mesmo ocorrida na Casa Branca, a cerimônia passou longe de se assemelhar àquelas em que o republicano chama lideranças internacionais e, em conversa informal, dispensa o script, o que, não raro, rende constrangimentos como os sentidos, no ano passado, pelo presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.
Xi e Trump não ignoraram as tensões bélicas atuais, e houve avanço sobre a guerra no Oriente Médio. Segundo informações da agência Xinhua, Xi Jinping sinalizou ao mandatário estadunidense que apoia a volta de EUA e Irã à mesa de negociação, para que possam materializar o acordo que suspende as agressões no país persa, celebrado no primeiro semestre e rapidamente desrespeitado por Washington. Como efeito, o chanceler iraniano Abbas Araghchi, propôs reabrir o estreito de Ormuz em sete dias e retomar as negociações nucleares.
Taiwan também esteve nos holofotes, com Xi propondo que o governo Trump deixe de apenas “não apoiar” a independência taiwanesa, para passar a se opor à ideia. Em comunicado, o governo chinês pediu “extrema cautela” no trato da questão. Trump, até agora, não sinalizou mudança. Um pacote de US$ 14 bilhões em armas já foi aprovado pelo Congresso dos EUA, mas segue parado.