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Por Bianca Zambetta

As bets começaram a sair do ar nesta terça-feira (6), após a entrada em vigor das medidas previstas na Medida Provisória 1.394/2026, que determina o encerramento das plataformas de apostas de quota fixa no Brasil. A mudança também atinge o mercado de publicidade digital e expõe uma divisão entre influenciadores que fizeram das bets uma fonte de renda e aqueles que nunca aceitaram promover as plataformas.

Nas redes sociais, criadores que não fizeram publicidade para casas de apostas passaram a ironizar os influenciadores que promoviam o setor. “Agora eles têm que trabalhar” virou uma das provocações que circulam entre os dois grupos.

A MP assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) proíbe a operação, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa. A medida começou a produzir efeitos após o fim do prazo para retirada voluntária das plataformas, na segunda-feira (5).

Não é apenas o dinheiro dos apostadores que deixa de circular. A medida também atinge diretamente um dos principais canais usados pelas empresas para conquistar clientes: a publicidade feita por influenciadores.

Milhões em ofertas

A diferença entre os influenciadores que aceitaram contratos de publicidade com bets e aqueles que recusaram esse tipo de parceria expõe uma disputa pelo mercado publicitário. De um lado, estão criadores que passaram anos promovendo plataformas de apostas, muitas vezes associando o jogo à ideia de renda extra, ganhos fáceis e um estilo de vida de luxo.

De outro, estão influenciadores que optaram por não vincular sua imagem às bets e construíram suas carreiras em parceria com marcas de outros setores, como beleza, moda, alimentação e tecnologia.

Liz Macedo, Patrícia Ramos e Matheus Costa estão entre os influenciadores que relataram ter recebido propostas milionárias para divulgar bets, mas não aceitaram os contratos.

As bets transformaram influenciadores em importantes canais de divulgação das plataformas e de atração de novos apostadores. Esses criadores eram remunerados para promover um estilo de vida de luxo enquanto divulgavam sites de apostas, associados à promessa de dinheiro fácil e, até mesmo, a “segunda renda”.

As ofertas recusadas ajudam a dimensionar o dinheiro que circulava nesse mercado.

Liz Macedo, influenciadora de conteúdo sobre autocuidado, estilo de vida, moda e beleza, afirmou ter recebido uma oferta de até R$ 500 mil por mês.

Liz Macedo, influenciadora de conteúdo sobre autocuidado, moda e beleza. Foto: Reprodução

Patrícia Ramos, influenciadora, apresentadora e criadora de conteúdo focada em lifestyle, humor, rotina e bem-estar, revelou, em 2024, ter recusado uma proposta de R$ 5 milhões por ano.

Patrícia Ramos, influenciadora, apresentadora e criadora de conteúdo. Foto: Reprodução

Já Matheus Costa, conhecido pelos vídeos de humor familiar e pelas pegadinhas, recebeu uma oferta de R$ 10 milhões por um contrato de seis meses.

Matheus Costa, influenciador conhecido por vídeos de humor e pegadinhas. Foto: Reprodução

As propostas milionárias, porém, não eram o único modelo de remuneração oferecido pelas plataformas. Em alguns casos, os contratos também previam participação nas perdas dos apostadores, ou seja, quanto mais os usuários perdiam, maior poderia ser o ganho do influenciador.

Quem entrou no negócio

Reportagem do Intercept Brasil documentou um contrato de Felipe Prior — que ficou conhecido nacionalmente após participar do Big Brother Brasil 20 — que previa 15% sobre as perdas dos apostadores indicados por ele. A publicação também ouviu um especialista que afirmou que contratos desse tipo poderiam variar entre 15% e 30%.

Na prática, quanto mais o público apostava e perdia, maior poderia ser o ganho do influenciador. O prejuízo dos próprios seguidores era fonte direta de renda para quem fazia a divulgação.

A relação com as bets, porém, também passou a aparecer no discurso político de parte desses influenciadores após a decisão do governo. Alguns passaram a defender publicamente o voto em Flávio Bolsonaro, a pedir que seus seguidores não votem no presidente Lula e até a afirmar que deixariam o Brasil.

Um dos casos que chama atenção é o da influenciadora Merianne Silva, conhecida nas redes sociais como “Diva do CRAS”. Ela ganhou notoriedade ao publicar vídeos sobre o Bolsa Família, benefício que foi suspenso após ela exibir a compra de um carro de luxo e um iPhone novo.

Após a decisão do governo de proibir as bets, Merianne reagiu nas redes sociais e criticou Lula. Em uma das publicações, afirmou que o presidente teria “mexido onde não devia” e que deveria cuidar da própria eleição e “deixar as bets para os influenciadores”. Ela também disse que estava organizando uma mobilização para que seus seguidores não votassem em Lula.

O movimento não ficou restrito a ela. Outra influenciadora, conhecida como Nay Menininha, passou a criticar publicamente o fim das apostas e convocou seus seguidores a apoiarem Flávio Bolsonaro. Em um dos seus vídeos, ela disse: “Quem votar no Bolsonaro tira foto e me manda que eu sigo de volta”. O influenciador Rico Melquiades afirmou que “deixaria o Brasil e iria morar em Portugal”.

Em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, Lula comentou a possibilidade de pessoas ligadas às bets continuarem atuando a partir do exterior. “Agora mesmo, nós tomamos essa medida e alguns estão querendo ir para Portugal para transmitir de lá. Nós vamos para cima”, afirmou.

Na mesma entrevista, o presidente voltou a defender o fim das apostas e disse que não permitiria que brasileiros gastassem dinheiro destinado à alimentação das famílias com jogos.

O fim das bets encerra uma das fontes de publicidade que mais cresceram nas redes sociais nos últimos anos. Para os influenciadores que fizeram desse mercado uma fonte de renda, o desafio agora é encontrar novas formas de monetizar a audiência. Para os que recusaram as propostas, as ofertas milionárias ajudam a dimensionar o dinheiro que esteve em jogo.

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