Por Iago Filgueiras
Uma mesa cheia de processos, um copo de café e uma rotina que parece ultrapassar as 24 horas do dia. Na arte e na mídia, é assim que os advogados costumam ser representados. Fora das telas, a vida muitas vezes imita a arte: entre prazos, pesquisas e atendimento a clientes, encontrar tempo para dar conta de tudo é um desafio.
Quem tem a lei como instrumento de trabalho faz parte de uma profissão com uma longa história. Há autores que associam suas origens à defesa de terceiros na Suméria, no terceiro milênio antes de Cristo. De lá para cá, muita coisa mudou. A era digital, porém, acelerou transformações que mudaram totalmente a pesquisa, a escrita e a própria relação com os clientes. Por isso, falar sobre inteligência artificial para advogados se tornou indispensável.
Como a tecnologia pode ajudar sem criar novos problemas? Entender suas aplicações, reconhecer os riscos e saber o que exigir de uma ferramenta são passos para ganhar tempo com segurança.
O tempo da Justiça e o tempo do advogado
Quem já precisou acompanhar um processo sabe que o tempo da Justiça nem sempre corresponde à urgência de quem espera uma resposta. Muitos anos podem se passar entre o início de uma disputa e a conclusão de um processo. Fatores como o tipo de ação, o tribunal, as partes envolvidas e a etapa em que um processo se encontra influenciam muito nesse processo.
Um caso extremo, mas curioso, mostra bem como o tempo da instituição não necessariamente condiz com o tempo da vida comum. Em 2020, o Supremo Tribunal Federal (STF) manteve o entendimento que negava à antiga família imperial a posse do Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro. O que chama atenção é que a ação havia sido apresentada pela princesa Isabel e seu marido, o conde d’Eu, em 1895. Isso mesmo: entre o início da disputa e esse desfecho, passaram-se 125 anos.
É claro que se trata de um exemplo extremo e de uma duração muito distante da habitual. Ainda assim, chama atenção para uma diferença que faz parte do cotidiano da advocacia: enquanto o processo segue seu percurso, a vida de quem depende dele continua. Contas vencem, conflitos familiares persistem e clientes procuram seus advogados para saber quando terão uma solução.
Somado ao tempo de tramitação, há outro fator: novas ações chegam ao Judiciário todos os dias. O Brasil começou 2026 com cerca de 75,5 milhões de processos em tramitação, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Para quem advoga, esperar uma atualização em um caso não significa deixar o trabalho parado. O máximo que acontece é incorporar mais um número à lista de processos que precisam de acompanhamento. Enquanto isso, há documentos a examinar, prazos a cumprir, manifestações a preparar e clientes a atender.
Advocacia autônoma e responsabilidades simultâneas
Se a rotina já parece puxada, tem um detalhe a mais. Segundo o estudo Perfil ADV, publicado em 2024 pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), 72% dos advogados brasileiros trabalham de forma autônoma.
Isso significa que, enquanto se lida com diversos processos, ainda é preciso organizar a contabilidade do próprio escritório, separar o dinheiro para custear a locação da sala, responder às mensagens dos clientes, marcar reuniões e uma infinidade de outras demandas.
O levantamento também mostrou que 26% exerciam outra atividade profissional além da advocacia. Para essa parcela, a agenda precisa acomodar mais de uma ocupação — além das responsabilidades pessoais que continuam existindo quando o expediente termina.
As 24 horas do dia parecem insuficientes para lidar com a carga de trabalho, e é aí que a falta de tempo aparece. Pesquisar, interpretar e construir uma estratégia exigem concentração, mas disputam espaço com tarefas operacionais igualmente necessárias. Nos últimos anos, as plataformas de inteligência artificial passaram a servir como apoio para aliviar parte dessa rotina e abrir espaço para o trabalho que depende mais diretamente da análise do advogado.

Como a inteligência artificial pode ajudar advogados?
A IA é mais uma etapa da relação entre a advocacia e a tecnologia. Ao longo dos últimos anos, a popularização dos celulares e computadores e a digitalização de processos facilitaram — e muito — a vida do advogado. A fila no fórum para consultar um processo deu lugar à ferramentas eletrônicas. E os profissionais do direito que atuam no interior do país passaram a conseguir acessar materiais sem precisar, necessariamente, se deslocar para um cartório na cidade vizinha.
O impacto é tão evidente que, segundo a pesquisa Perfil ADV, 95% dos advogados avaliaram que o uso de tecnologia facilitava ou facilitava muito sua atuação. O dado não faz distinção entre o tipo de ferramenta empregada, mas deixa claro que procurar por recursos que tornem a rotina menos trabalhosa é um fato na vida do advogado.
Recentemente, a inteligência artificial se tornou mais uma ferramenta que pode facilitar a atuação profissional. Não só na carreira individual, mas no próprio funcionamento do Judiciário. País afora, diversos tribunais já incorporaram o uso de IA para tarefas como sumarização de documentos, geração e melhoria de textos, triagem de processos e combate à litigância predatória.
Além dos tribunais, muitos advogados já também incorporaram o uso da ferramenta no cotidiano, poupando tempo na organização de documentos, no resumo de informações, na busca por fundamentos e até mesmo na redação de versões preliminares de um texto.
Mas a questão é: o ganho depende do uso e da qualidade do resultado. Um resumo que deixa de fora um fato importante não está completo. Uma pesquisa que apresenta referências corretas e acessíveis facilita o trabalho. Por isso, é preciso entender as possibilidades concretas que essas novas ferramentas podem proporcionar.
Organização de documentos e informações
Imagine receber um conjunto de contratos, mensagens e comprovantes relacionados a uma disputa judicial. A primeira tarefa, antes de pensar na estratégia, é conseguir entender o que aconteceu, qual a sequência dos eventos e quais documentos sustentam a versão apresentada pelo cliente.
Com os comandos certos e sem terceirizar o trabalho todo para ela, uma ferramenta de IA pode ajudar bastante:
- Organizar os acontecimentos em uma linha do tempo
- Separar assuntos em diferentes categorias
- Produzir resumos para orientar a leitura
Esses são só alguns dos usos possíveis. Mas é preciso cuidado para evitar erros. Datas podem ser interpretadas de forma incorreta, trechos podem perder o contexto e detalhes importantes podem acabar ficando de fora. Por isso, o resumo deve apoiar a leitura, facilitando a organização, e sua utilidade depende de permitir a conferência do que foi apresentado.
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Pesquisa de legislação, jurisprudência e doutrina
A pesquisa precisa ir além de encontrar um texto que mencione o assunto desejado. O atalho “Ctrl + F” no computador ajuda a localizar a ocorrência de uma palavra ou trecho específico em um documento, mas não entrega a vigência da norma, o alcance da decisão nem avalia a relação entre os fundamentos encontrados e o caso em análise.
Uma inteligência artificial para advogados pode ajudar nessa etapa, pois permite consultar um acervo jurídico identificado, localizar documentos e reunir referências. Uma pergunta formulada em linguagem comum, por exemplo, pode ajudar a explorar uma questão jurídica complexa.
Para que esse apoio tenha algum valor, o profissional precisa conseguir chegar à fonte. Quem disse o quê? Qual tribunal decidiu? Qual dispositivo legal sustenta a resposta? Se o resultado aparece em segundos, mas confirmar se ele é verdadeiro depende de horas de trabalho, a busca por eficiência pode acabar se tornando mais um fator de estresse.
Elaboração e revisão de textos
Uma página em branco costuma assustar, e ficar olhando para ela, infelizmente, não faz com que as palavras surjam sozinhas. Por isso, quando a escrita trava, a IA pode ajudar a organizar a estrutura de uma peça, preparar uma versão preliminar ou sugerir ajustes de clareza em um texto já escrito.
O advogado pode aproveitar esse apoio para poupar tempo e desenvolver mais as ideias da redação. Mas é preciso atenção para revisar fatos, pedidos e fundamentos. Uma IA não sabe o que sabe; ela se baseia em estatística e conteúdos prévios para gerar uma resposta. Por isso, tão importante quanto escolher uma boa ferramenta é saber de onde vem o “conhecimento” que ela alega ter.
Quando a rapidez da IA gera a lentidão do retrabalho

Uma resposta bem organizada, com linguagem técnica e referências, pode transmitir confiança, mas um texto que só parece bonito não se sustenta quando é confrontado por juízes ou pelos advogados da parte contrária.
Assim como pode poupar o tempo, a IA é plenamente capaz de produzir informações incorretas, redigir um texto com base em decisões inexistentes, inventar citações e produzir interpretações que não fazem sentido algum. Isso é um fenômeno bem documentado entre aqueles que estudam esse tipo de tecnologia e é comumente conhecido como alucinação.
O debate sobre alucinação em respostas de ferramentas de IA costuma aparecer quando falamos sobre plataformas gratuitas e de livre acesso, como ChatGPT ou Gemini, por exemplo. Mas uma pesquisa divulgada em 2024 pelo RegLab (Laboratório de Regulação, Avaliação e Governança, na sigla em português), vinculado à Universidade de Stanford, identificou que, mesmo em plataformas voltadas especificamente para a área do Direito, o risco é real.
Segundo o estudo, na Lexis+ AI, ferramenta mantida pela LexisNexis, multinacional líder global que fornece serviços de dados, análises, pesquisa jurídica e soluções de gerenciamento de riscos, e nas plataformas Westlaw AI-Assisted Research e Ask Practical Law AI, ofertadas pela multinacional de tecnologia e informação Thomson Reuters, cada uma alucina entre 17% e 33% do tempo. Embora a análise se refira ao mercado estadunidense, ela demonstra que o acesso a uma base jurídica não elimina, por si só, o problema.
Pode parecer verdade, mas nem sempre é
Uma ferramenta de inteligência artificial para advogados pode localizar um julgamento real e, ainda assim, atribuir a ele um entendimento que não foi adotado. Assim como também pode chegar a uma conclusão sem explicar como. Ou seja, se a IA escreveu determinada coisa, pode ser que você não tenha muitas opções além de aceitar a resposta ou gastar horas navegando pela internet para entender se o que foi dito realmente confere.
Pense em uma decisão que tenha sido favorável ao consumidor. Encontrá-la não significa que ela é uma verdade universal e pode ser aplicada a qualquer conflito que envolva consumo. Os fatos, as provas avaliadas, as condições em que foram analisadas e até o tribunal que tomou tal decisão fazem muita diferença.
Se o advogado precisa fazer uma espécie de engenharia reversa para entender de onde veio a resposta, a economia de tempo já foi por água abaixo. E, se o erro passa despercebido, a defesa dos interesses do cliente e a própria credibilidade do profissional ficam comprometidas.
O cuidado com os dados pessoais e o sigilo profissional
Existe um outro ponto que se torna indispensável quando se fala no uso de uma inteligência artificial para advogados: quando se envia um documento para a plataforma, o que acontece com ele?
Um processo pode conter dados financeiros de um cliente, informações sobre saúde, o endereço das partes envolvidas ou relatos íntimos muito sensíveis. Se esse material é enviado para a IA, é preciso considerar o que as diretrizes da ferramenta dizem sobre o uso de informações de terceiros para treinamento de modelos ou, até mesmo, se esses materiais podem ser compartilhados com outras empresas.
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O que diz a OAB sobre o uso da IA?
O crescente uso da inteligência artificial entre os advogados levou o Observatório Nacional de Cibersegurança, Inteligência Artificial e Proteção de Dados da entidade a publicar, em 2024, uma recomendação: o documento reconhece as possibilidades da tecnologia, mas lembra que seu uso precisa respeitar os deveres que já fazem parte da profissão.
A orientação está organizada em quatro pontos:
- Legislação aplicável: usar IA não muda as regras da advocacia. É preciso respeitar o Estatuto da Advocacia, o Código de Ética da OAB, a LGPD, o Código de Processo Civil e a propriedade intelectual.
- Confidencialidade e privacidade: o advogado deve preservar o sigilo, verificar a proteção e o compartilhamento dos dados e garantir a possibilidade de impedir seu uso para treinamento.
- Prática jurídica ética: a análise profissional continua indispensável. O documento recomenda revisar integralmente os resultados antes de apresentá-los em processos judiciais, conferir doutrina e jurisprudência e conhecer as limitações da ferramenta.
- Comunicação sobre o uso da IA generativa: o uso deve ser previamente informado por escrito ao cliente, explicando finalidade, benefícios, limitações, riscos e medidas de segurança. O documento prevê consentimento explícito mediante assinatura e respeito à recusa. O cliente também deve poder solicitar atendimento humano.
O que avaliar em uma plataforma de IA jurídica?
Assim como guarda uma série de possibilidades, o uso de uma inteligência artificial para advogados também expõe a profissão e a sociedade a alguns riscos. Por isso, é importante o cuidado na escolha de uma plataforma. No fundo, é preciso olhar para o trabalho que ela ajuda a fazer, mas também para as condições em que as respostas são dadas.
A promessa de rapidez pode até chamar a atenção, mas, antes de bater o martelo, é preciso analisar de forma mais profunda. Afinal, a plataforma escolhida é fácil de usar? As fontes estão disponíveis? A informação está atualizada? É possível conferir os fundamentos? Qual doutrina foi adotada?

Facilidade de uso, inclusive na hora da checagem
Uma ferramenta precisa ser compreensível e responder bem ao uso de linguagem comum. Se, para obter o esboço de uma peça jurídica, o profissional precisa escrever um documento rebuscado, é mais fácil esquecer a IA e o fazer com as próprias mãos, não?
Formular perguntas, consultar documentos e aprofundar respostas devem ser tarefas acessíveis. Conferir o resultado também. Pouco adianta receber uma resposta rápida e, mesmo assim, precisar percorrer várias telas para descobrir sua fonte.
Respostas com fundamentos verificáveis
Uma resposta verificável apresenta referências que podem ser localizadas e examinadas. Na jurisprudência, isso inclui tribunal, data e número do processo.
Além de citar o julgamento, a plataforma deve indicar o trecho que sustenta a afirmação. Disponibilizar um link ajuda, mas, quando o documento tem centenas de páginas, é preciso mais do que isso.
Legislação e jurisprudência de fontes oficiais
A ferramenta precisa se apoiar em fontes oficiais e identificar os documentos consultados. Essas fontes estão aos montes na internet, mas a IA constrói a resposta com informações dispersas em dezenas de sites ou com documentos de origem conhecida?
Também é preciso considerar a atualização: a norma foi alterada? O entendimento foi superado por um julgamento posterior? A plataforma deve deixar claro o alcance de seu acervo e reconhecer quando não tem elementos para responder. O “não sei” também precisa caber na conversa.
Doutrina com autoria e referência identificadas
Quem pesquisa uma questão jurídica precisa compreender os conceitos e as interpretações que ajudam a fundamentar um argumento. É aí que entra a doutrina, com diferentes leituras sobre um mesmo tema.
A IA pode ajudar a localizar essas contribuições, mas precisa mostrar de quem é a interpretação e em qual obra aparece. Autoria, título, edição e página, quando disponível, permitem conferir a referência e a fidelidade ao argumento.
Revisão e decisão nas mãos do advogado
Uma plataforma útil permite questionar respostas, corrigir informações e aprofundar pesquisas. As recomendações da OAB destacam a supervisão humana e a revisão dos resultados apresentados em juízo.
A ferramenta apoia a construção do trabalho, mas aproveitar suas respostas exige avaliar o caso, os documentos e a estratégia. O martelo continua nas mãos do profissional.
Ganhar tempo para cuidar do que exige atenção
A mesa pode continuar cheia, e o café provavelmente continuará fazendo parte da rotina. Mas talvez seja possível terminar uma pesquisa sem levar o trabalho para a madrugada, ouvir um cliente sem pensar no próximo compromisso ou fechar o computador a tempo de jantar com a família.
É claro que uma ferramenta não resolve sozinha a sobrecarga da profissão. A pressão por produtividade, a necessidade de garantir renda e as jornadas prolongadas fazem parte de uma dinâmica de trabalho que exige produzir cada vez mais. Organizar melhor a agenda tem seus limites quando as condições de trabalho continuam empurrando novas demandas para dentro dela.
O uso de uma inteligência artificial para advogados também se insere nas disputas contemporâneas. Ela pode reduzir o esforço para algumas tarefas, desde que ofereça respostas verificáveis e preserve o controle profissional. Mas é preciso cuidado para que ela não se converta em mais uma ferramenta a impulsionar a precarização da vida. Tempo para estudar, atender com atenção e descansar precisam caber nessa conta.
A tecnologia pode até ajudar a diminuir o tamanho das pilhas de processos em cima da mesa, mas vale cuidar para que esse alívio também alcance quem está sentado diante da tela. Quem trabalha com os conflitos dos outros também precisa de espaço para cuidar da própria vida.