O BNDES negocia financiar um projeto bilionário de terras raras no sul de Minas Gerais que pretende instalar no Brasil etapas industriais de processamento desses minerais. A iniciativa pode ajudar o país a avançar em uma cadeia hoje dominada internacionalmente pela China, em vez de se limitar à extração e exportação do minério.
Segundo informações obtidas pela Folha de S.Paulo, o banco negocia a concessão de crédito ao Projeto Caldeira, desenvolvido pela australiana Meteoric Resources. Também está em discussão uma eventual entrada da BNDESPar, braço de participações do BNDES, como sócia minoritária do empreendimento.
As negociações ainda não foram concluídas e não há definição sobre quanto o banco poderia desembolsar. O estudo de viabilidade do projeto estima em US$ 498 milhões, aproximadamente R$ 2,6 bilhões, o investimento necessário para seu desenvolvimento.
Projeto pode criar polo de processamento no Brasil
O Projeto Caldeira está localizado na região de Poços de Caldas e abrange também áreas dos municípios de Andradas e Caldas.
A proposta vai além da retirada das terras raras do solo. O empreendimento prevê etapas de processamento no Brasil, permitindo que parte do beneficiamento seja realizada no país antes da comercialização dos produtos.
Essa etapa é estratégica porque a extração do minério representa apenas o início da cadeia produtiva.
Depois de retirado do solo, o material precisa passar por processos que permitem separar os diferentes elementos de terras raras e alcançar os níveis de pureza necessários para aplicações industriais.
Esses elementos são utilizados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa. Alguns são essenciais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho.
A intenção do governo brasileiro é justamente ampliar a participação do país nas etapas de maior valor agregado dessa cadeia, em vez de exportar o material para que o processamento seja realizado no exterior.
Empresa foi comprada pela Lynas por R$ 3,5 bilhões
As negociações com o BNDES começaram antes de uma importante mudança no controle do projeto.
A Meteoric Resources foi adquirida pela também australiana Lynas Rare Earths em uma operação avaliada em aproximadamente R$ 3,5 bilhões, anunciada no fim de setembro.
A Lynas já atua na mineração e no processamento de terras raras, com operações na Austrália e na Malásia.
Na transação, os acionistas da Meteoric receberão ações da Lynas e passarão a deter aproximadamente 5,9% da companhia resultante da combinação dos negócios.
A aquisição ainda depende do cumprimento das etapas necessárias para sua conclusão.
Segundo a Folha, representantes da Meteoric, da Lynas e do BNDES participaram de uma reunião no Rio de Janeiro em 17 de setembro, cerca de duas semanas antes do anúncio da operação.
O jornal também afirma que a possível aquisição já havia sido tratada com o banco antes de ser formalizada pelas empresas.
Procurado sobre as negociações, o BNDES afirmou que “não comenta operações não aprovadas”.
Crédito está mais avançado que entrada do BNDES como sócio
Segundo a Folha, entre as possibilidades discutidas, a concessão de financiamento pelo BNDES está em estágio mais avançado do que uma eventual participação acionária da BNDESPar.
Ainda não há, porém, valor definido para o empréstimo.
A chegada da Lynas também exige uma revisão da estrutura apresentada originalmente ao banco, já que houve uma mudança no controle da Meteoric.
Por outro lado, a nova controladora é uma companhia maior e já estabelecida no mercado internacional de terras raras.
Em nota, a Meteoric afirmou que mantém diálogo institucional com diferentes partes interessadas desde o início do Projeto Caldeira.
A empresa também informou que, após o anúncio da aquisição, a Lynas passou a avaliar diferentes alternativas para financiar o desenvolvimento do empreendimento, incluindo financiamento de projetos, financiamento estratégico e recursos próprios.
Projeto integra programa de R$ 45,8 bilhões
As negociações estão inseridas em uma iniciativa lançada pelo BNDES e pela Finep para estimular a transformação de minerais estratégicos no Brasil.
Em 2025, as duas instituições selecionaram 56 planos de negócios para avançar no programa. Juntos, os projetos apresentados pelas empresas somam R$ 45,8 bilhões em investimentos previstos.
O objetivo é apoiar iniciativas que não se limitem à mineração, mas avancem para etapas de transformação e industrialização dos minerais no país.
O Projeto Caldeira está entre os empreendimentos contemplados pela iniciativa.
A exploração comercial, no entanto, ainda não começou. O projeto precisa cumprir etapas de licenciamento e implantação antes de entrar em operação.
Caso o financiamento seja aprovado, o apoio do BNDES também não significa que o banco automaticamente se tornará sócio da Lynas na Austrália. Uma eventual participação da BNDESPar seria estruturada separadamente e seu formato ainda está em discussão.