PL apaga propaganda de Flávio Bolsonaro semelhante à de Mussolini

Partido nega referência ao fascismo e atribui semelhança a coincidência; historiador vê possível estratégia para desviar debate eleitoral
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Por Felipe Rabioglio

O Partido Liberal (PL) apagou, na manhã deste sábado (10), uma propaganda de Flávio Bolsonaro que apresentava semelhanças com uma peça utilizada pelo ditador fascista italiano, Benito Mussolini, em 1934. A publicação foi divulgada no canal oficial do partido no WhatsApp. Procurado pelo ICL Notícias, o PL negou qualquer referência ao fascismo e pediu desculpas pelo que classificou como um equívoco.

A montagem mostrava o rosto do senador em preto e branco, cercado pela expressão “Tropa do Flávio”, repetida diversas vezes. O formato lembra uma propaganda exibida na fachada do Palazzo Braschi, em Roma, na qual a imagem de Mussolini aparecia rodeada pela palavra italiana “SÌ”, que significa “sim”.

Em nota enviada ao ICL Notícias, o partido afirmou que o material foi produzido pelo Partido Liberal Jovem (PLJ) e inspirado em peças gráficas da antiguidade. A legenda negou que houvesse intenção de fazer alusão à propaganda italiana e informou que o conteúdo foi retirado do ar.

A semelhança foi analisada por Odilon Caldeira, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenador do Observatório da Extrema Direita. Para ele, a publicação pode ter sido utilizada como uma estratégia para provocar reações de adversários políticos e influenciar o debate eleitoral.

Propaganda de Mussolini foi utilizada em 1934

A fotografia histórica que serve de comparação foi registrada em março de 1934, durante o regime fascista italiano. Na ocasião, a fachada do Palazzo Braschi, que abrigava a federação fascista de Roma, foi coberta por uma enorme composição com o rosto de Mussolini e a repetição da palavra “SÌ”.

A propaganda estava relacionada ao plebiscito realizado naquele ano, quando os italianos foram convocados a aprovar ou rejeitar uma lista única de candidatos previamente selecionados pelo regime. A votação ocorreu em um contexto de repressão política e ausência de competição eleitoral democrática.

A imagem buscava associar a figura de Mussolini à aprovação popular do regime. A fotografia se tornou um dos registros mais conhecidos da propaganda política produzida durante a ditadura italiana.

“É evidente que isso é uma referência ao fascismo”, afirmou Caldeira ao ICL Notícias. O historiador relaciona a composição visual ao espírito de obediência e dominação característico da estética totalitária.

Historiador vê possível tentativa de desviar debate eleitoral

Apesar da avaliação sobre a referência histórica, Caldeira considera que a publicação não deve ser interpretada necessariamente como uma tentativa de conquistar o apoio de grupos neofascistas.

Na avaliação do pesquisador, a peça pode representar uma estratégia para estimular críticas ao bolsonarismo como fascista e deslocar a discussão eleitoral para um terreno menos favorável à conquista de votos.

O historiador argumenta que o uso do termo “fascista” em discussões políticas cotidianas tende a provocar reações defensivas entre eleitores identificados com o bolsonarismo. Isso, segundo ele, pode dificultar o diálogo com pessoas indecisas ou descontentes com a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Nesse cenário, Caldeira avalia que a controvérsia poderia levar adversários do senador a dedicar tempo e energia a uma disputa sobre classificações ideológicas, deixando em segundo plano questões com maior potencial de influenciar a decisão dos eleitores.

A interpretação sobre uma possível estratégia de comunicação é uma hipótese apresentada pelo historiador. O PL, por sua vez, negou que a publicação tivesse qualquer relação intencional com a propaganda de Mussolini.

Confira a íntegra da nota do PL

“O Partido Liberal Jovem (PLJ) fez uma publicação inspirada em peças gráficas da antiguidade e não teve qualquer intenção de fazer alusão à imagem referida. Ainda assim, o conteúdo já foi retirado do ar. O partido pede desculpas pelo equívoco e por qualquer interpretação decorrente dessa coincidência.”

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