Por Ana Gabriela Oliveira Lima
(Folhapress) – Mulher mais votada entre os deputados federais eleitos em 2026, e a terceira no ranking geral, Erika Hilton afirma que seu partido, o PSOL, cometeu erro estratégico que contribuiu para que a legenda não superasse a cláusula de barreira.
Em entrevista à Folha, ela critica a não federação com o PT, a redistribuição do fundo partidário e a desvalorização de algumas candidaturas, além de admitir a possibilidade de ir para o partido do presidente Lula em 2027.
A deputada faz um balanço do primeiro turno das eleições e diz que a campanha de Lula deixou a desejar na comunicação, mas que está fazendo novo esforço para virar votos e impedir a eleição de Flávio Bolsonaro (PL).
Hilton também comenta o papel das redes sociais no pleito e reflete sobre o que pode haver em comum entre ela, Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), os três deputados federais mais bem votados.
Nikolas e Pavanato são conhecidos por ataques transfóbicos contra a parlamentar. “Me dá uma certa ojeriza, um certo horror, imaginar que eu possa ter algo em comum com duas figuras tão desprezíveis da política brasileira”.
A deputada também comenta o avanço da direita no Congresso, a perspectiva de aprovação do fim da escala 6×1 e a ameaça de morte recebida por e-mail no dia do primeiro turno. “São muitas e muitas ameaças constantes”, diz. “Vivo sob um regime de extrema proteção”.
A sra. é a mulher mais votada entre deputados federais eleitos em 2026 e a terceira no ranking geral. A que credita esse resultado?
Credito às minhas inúmeras pautas, que foram essenciais para que nós alcançássemos esse resultado. Nós debatemos os temas centrais do povo brasileiro, desde o fim da escala 6×1, até a pesquisa “Mulheres na Ciência” e meio ambiente. Sou autora de projetos como “Cidades Resilientes” e refugiados climáticos.
Discutimos o direito de crianças e adolescentes, lutamos contra a violência contra a mulher, debatemos o tema da segurança pública, temas que são centrais ao povo brasileiro, em especial ao povo do estado de São Paulo, e isso criou uma capilaridade. Obviamente que também o domínio nas redes sociais foi muito importante para que nós déssemos essa capilaridade.
Os dois deputados federais com as maiores votações, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, são de espectro político oposto ao da sra. Por que acha que eles foram os primeiros colocados?
Porque, primeiro, a política segue ainda sendo um lugar extremamente masculino, branco, e essas figuras carregam esses símbolos.
Mas não só por isso. O ódio segue mobilizando, e a falta de discussão sobre projetos segue elegendo e representa essas eleições. Esses candidatos não discutiram ideias, eles não discutiram projetos, eles não discutiram propostas para o Brasil. Eles usaram a dor de minorias sociais, o ódio a minorias sociais como plataforma política.
O que a sra., Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato têm em comum?
Não sei, acho que nada, acho que não tenho nada em comum com essas figuras. Talvez haja algo em comum, mas eu não consigo identificar de pronto. Até me dá uma certa ojeriza, um certo horror, imaginar que eu possa ter algo em comum com duas figuras tão desprezíveis da política brasileira.
O domínio das redes sociais poderia ser o que há de comum entre a sra., Nikolas e Pavanato?
O domínio das redes sociais pode ser sim uma semelhança entre [mim], o Lucas Pavanato e Nikolas Ferreira. Eu acho que nós temos uma capacidade de domínio das redes sociais, uns para o bem, outros para o mal. Mas, se a gente insistir em buscar uma semelhança entre nós, talvez isso possa ser algo que tenhamos parecido.
Há algo que o presidente Lula poderia fazer de diferente para usar as redes sociais de maneira mais favorável na campanha?
O presidente já começou um primeiro passo, que é fazer os vídeos selfie, que são muito importantes. A rede social pede esse contato, e o presidente começou a fazer esse movimento, que em números já mostrou resultado muito positivo.
Mas eu acho também que é preciso que as redes do presidente denunciem mais. Alerte mais o que nós estamos vivendo, os perigos da eleição de Flávio Bolsonaro. Que o presidente apareça mais, que o presidente fale mais com o seu eleitor.
A campanha até o 1º turno do presidente deixou algo a desejar na comunicação?
Eu acho. A campanha poderia ter explorado mais a imagem do presidente Lula. Ter comunicado um pouco mais os feitos do presidente Lula. Mas houve pontos acertados: a demonstração da grandiosidade do presidente nas agendas que fez, os programas, as entregas.
Campanha é isso. A gente está ali nos 49 dias tentando acertar o máximo que a gente pode, mas a minha campanha, todas as campanhas tiveram erros, porque faz parte da loucura do processo de campanha eleitoral. No segundo turno nós temos a possibilidade de corrigir e focar naquilo que pode mudar esse cenário.
Antes das eleições, a sra. criticou o PSOL pela divisão do fundo eleitoral. Passado o 1º turno, como avalia a atuação do partido?
Nós tivemos um baixo financiamento, por exemplo, da campanha da minha candidata a deputada estadual aqui em São Paulo [Sofia Favero], que recebeu um valor superbaixo. Precisamos fazer todos os movimentos necessários para que ela conseguisse carregar e tocar a sua campanha, com todas as dificuldades que teve e, mesmo assim, os resultados foram muito positivos.
Eu acho que o PSOL erra na estratégia que ele usa, inclusive deixando de cobrir estados e lideranças importantes que nos ajudariam a superar a cláusula de barreira. O PSOL passou, inclusive, a financiar candidaturas com recursos muito alto, com baixo potencial eleitoral, quando deixou de cobrir outras candidaturas que tinham potencial eleitoral. A minha avaliação permanece a mesma. Eu acho que foi um erro estratégico que gerou inclusive resultados muito ruins agora para nós do PSOL.
Durante o ano falou-se muito de um racha no PSOL. Como a sra. avalia a sigla neste momento?
Na verdade não houve um racha. Houve uma avaliação e uma interpretação diferente de nós, que acreditávamos e seguimos acreditando que uma federação com o PT nos fortaleceria e nos ajudaria inclusive a ampliar a nossa presença em estados dominados pela direita e extrema direita. Também nos ajudaria com mais tranquilidade a superarmos a cláusula de barreira, a fortalecermos o nosso partido, a fortalecermos o campo da esquerda, a criarmos um campo mais sólido, mais coeso contra a extrema direita, que tem se unido cada vez mais.
Então naquele momento nós tínhamos essa avaliação e defendemos essa avaliação para defendermos a federação. E havia outro campo que, de maneira legítima, tinha uma outra interpretação da qual nós não concordamos, mas que foram vitoriosos. E nós aceitamos a vitória. Não houve nenhum racha. Agora o cenário é ainda mais delicado. O partido não atinge a cláusula de barreira e precisa se fortalecer para continuar a fazer o trabalho brilhante que sempre fez enquanto partido. Para isso, a gente precisa sentar e conversar. Mas eu acho que houve sim muitos erros por parte do nosso partido e que nós sejamos capazes de consertar esses erros para seguir adiante.
A sra. pode elencar alguns desses erros?
Os erros que eu elenco são a não federação com o PT naquele momento, a redistribuição do fundo partidário, a não valorização de algumas candidaturas que tinham potenciais gigantes de votações expressivas no estado de São Paulo e em outros estados do país.
O baixo financiamento dessas candidaturas, de quadros importantes do nosso partido que poderiam nos ajudar e nos fortalecer enquanto campo político, enquanto partido político: esses são para mim os erros que elenco como sendo os mais sensíveis, no meu ponto de vista.
A sra. mudaria de partido?
Sim, acho que mudaria de partido se necessário fosse. Não comecei essa conversa ainda, já fui procurada por alguns partidos, mas acho que sim, acho que mudaria de partido se houver a necessidade, se não conseguir ter uma conversa tranquila, boa com o PSOL para entendermos os próximos passos. Eu acho que é uma possibilidade.
Que partido procurou a sra.?
Eu já conversei com alguns partidos. Já conversei com o próprio PT. Eu vou me reservar a dizer que tenho tido diálogo com o PT.
Isso pode acontecer em 2027?
Eu acho que pode acontecer em 2027, mas eu não sei se acontecerá por conta de que ainda não fiz nenhuma conversa com o PSOL nem avancei as minhas conversas com o próprio PT, mas acho que isso pode acontecer sim.
Como avalia o resultado das eleições de 2026 considerando o Legislativo? Classificação da Folha ponta 59% de parlamentares de direita na Câmara, além do avanço no Senado.
Primeiramente é importante dizer que nós não estamos falando de uma direita. Nós estamos falando de uma extrema direita que inclusive esmaga e suga a direita tradicional que nós conhecemos e é muito importante que as pessoas saibam disso.
O resultado da eleição presidencial vai ser muito importante, porque vai nos ajudar inclusive a entender para qual direção nós vamos conseguir puxar mais o Congresso Nacional. Porque a parte do centro, ela se comporta e dança conforme a música. E é preciso entender qual é a música que estará tocando naquele momento. Mas a avaliação que eu faço é que nós teremos um Congresso muito difícil, ainda mais difícil do que foi na legislatura passada.
Qual é a expectativa da sra. com relação ao fim da escala 6×1?
Se nós conseguirmos manter a tramitação como ela está agora e levarmos essa discussão ainda no segundo turno para o plenário do Senado, eu acho que há uma possibilidade muito grande de nós avançarmos com essa matéria.
Eu acho que temos chances reais de avançarmos com o fim da escala 6×1, mesmo com essa nova composição [eleita no Congresso]. Agora, se isso ficar para depois, aí o cenário fica mais difícil. O presidente [do Senado] Davi Alcolumbre já deu uma declaração de que vai manter a votação e nós seguimos fazendo as pressões necessárias para que senadores tenham compromisso com o trabalhador brasileiro.
A sra. foi ameaçada de morte no dia das eleições. Já contabilizou quantas ameaças recebeu nesses anos na política?
Eu não tenho a condição de contabilizar a quantidade de ameaças de morte que eu já recebi. São muitas. Há períodos que são quase que diárias, quase que semanais, quase que mensais, mas nunca houve um momento tranquilo. São muitas e muitas ameaças constantes.
Eu ando escoltada 24 horas, eu ando de carro blindado, eu não vejo a portaria do meu prédio, eu não recebo encomendas, eu vivo sob um regime de extrema proteção. Já precisei mudar de endereço, enfim, são muitas ameaças.
Raio-X
Mulher mais votada para deputada federal nas eleições de 2026, ficou em terceiro lugar no ranking geral, com 1,5 milhão de votos. Lidera a discussão sobre o fim da escala 6×1, em tramitação no Congresso. Foi eleita deputada federal em 2022 e, em 2020, foi a vereadora mais votada na cidade de São Paulo.