Há algo de muito bonito acontecendo no Brasil desde o primeiro turno das eleições. Uma onda de manifestações quase espontâneas tomou as ruas de cidades grandes, médias e pequenas. Gente que talvez nunca tenha participado de um ato político saiu de casa para dizer que não aceita entregar o país ao ódio.
Nesta semana, o escritor francês Édouard Louis publicou um artigo na Folha de S.Paulo dizendo que Flávio Bolsonaro quer destruir justamente aquilo que faz do Brasil um dos lugares mais maravilhosos do mundo. Ele fala do samba, da música, da liberdade, da mistura de gente, da alegria de viver. E tem razão.
Mas eu queria falar de outro Brasil. Um Brasil menos extraordinário, menos estereotipado, talvez até menos maravilhoso. E que, justamente por isso, é maravilhoso.
O Brasil de quem guarda feijão no pote de sorvete. De quem cresceu recebendo dinheiro escondido da avó. De quem pergunta se você já comeu antes de perguntar como você está.
O Brasil que inventou o Vampetaço, que responde às maiores autoridades do mundo com a quinta série mais criativa do planeta. Que faz meme da própria desgraça, dá apelido a todo mundo e encontra um jeito de rir mesmo quando não há absolutamente nada de engraçado acontecendo.
Não quero romantizar nossas contradições. Somos também o país do racismo, da violência, da desigualdade brutal, da fome e de uma elite que parece sentir prazer em humilhar os pobres. Mas somos muito mais do que isso.
E é por isso que me incomoda profundamente quando tentam transformar estados inteiros em territórios inimigos. Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio Grande do Sul e tantos outros lugares frequentemente tratados como redutos bolsonaristas são muito mais complexos do que qualquer mapa eleitoral consegue mostrar.
Há trabalhadores, estudantes, professores, artistas, movimentos populares, comunidades indígenas, famílias inteiras que resistem à extrema direita nesses lugares. Há gente que vota diferente do vizinho, que discorda dos próprios pais, que se organiza mesmo sabendo que está em minoria. Nenhum estado pertence a Bolsonaro. Nenhuma cidade tem dono. Nenhuma bandeira partidária pode sequestrar a identidade de milhões de brasileiros.
Talvez essa seja uma das coisas mais importantes das manifestações desta semana. Não necessariamente converter eleitores, embora isso também importe. Mas lembrar a cada pessoa que acordou depois do primeiro turno com medo do futuro que ela não está sozinha.
Há um efeito quase psicológico em encontrar milhares de pessoas nas ruas defendendo o mesmo país que você ama. É olhar ao redor e perceber que, qualquer que seja o resultado da eleição, haverá gente disposta a resistir.
O bolsonarismo passou anos tentando nos convencer de que o Brasil é deles. Apropriou-se da bandeira, da camisa da seleção, das cores nacionais, do patriotismo. Tentou transformar o amor ao país numa demonstração de obediência a uma família.
Mas o Brasil não cabe numa família. Não cabe numa igreja, num quartel, num condomínio de luxo ou num grupo de WhatsApp.
O Brasil é o país do churrasco improvisado, da piada sem sentido, do abraço demorado, da música alta na casa do vizinho. É também o país de quem enfrenta a injustiça, se organiza, protesta e se recusa a aceitar que a crueldade seja normalizada.
É esse Brasil que vejo reaparecer nas ruas. Não um país perfeito, mas um país vivo, contraditório, generoso e infinitamente maior do que aqueles que pretendem governá-lo pelo medo. O Brasil é bonito demais para ser o país do ódio. E é nosso demais para que alguém possa tomá-lo de nós.