Janela de renovação de cargos na Justiça abre espaço para ampliar presença feminina

STJ, que pode ganhar poder nos próximos anos, teve apenas nove mulheres entre seus ministros em 37 anos
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Por Felipe Gutierrez 

(Folhapress) – Cerca de 40% dos cargos de chefia vitalícios do sistema de Justiça brasileiro ficarão vagos na próxima década, com a aposentadoria compulsória de seus atuais ocupantes.

A renovação de 1.345 postos, segundo levantamento da plataforma Justa, do Fórum Justiça e da Themis, abre uma oportunidade para ampliar a presença de mulheres nos tribunais e no Ministério Público, onde elas ainda são minoria, sobretudo nas posições de maior poder.

Hoje, as mulheres ocupam 29% dos cargos de chefia vitalícios, como os de desembargadora, procuradora de Justiça e ministra de tribunal superior. Para as entidades, sem mudanças nas regras de escolha e promoção, a tendência é que o perfil atual dessas instituições se reproduza. Em alguns tribunais, até 72% dos ocupantes desses postos deverão se aposentar no período.

Segundo Luciana Zaffalon, diretora-executiva da Plataforma Justa, o volume de vagas decorre da história das instituições. Muitas foram estruturadas após a Constituição de 1988, e seus integrantes agora chegam à idade da aposentadoria compulsória, fixada em 75 anos.

Uma das cortes que passarão por mudanças é o STJ (Superior Tribunal de Justiça), que deverá preencher três vagas até o fim de 2026. Duas serão abertas por aposentadorias compulsórias; a terceira decorre da punição ao ministro Marco Buzzi, acusado de importunação e assédio sexual.

Hoje, seis dos 33 ministros do STJ são mulheres, o equivalente a 18%. As três vagas previstas são destinadas a magistrados oriundos dos Tribunais de Justiça estaduais.

“É a chance do STJ produzir uma lista só de mulheres, para começar a corrigir esse desequilíbrio histórico”, afirma Zaffalon. Para ela, uma mudança na composição da corte pode impulsionar a redução da desigualdade de gênero em outros tribunais.

A diretora-executiva também aponta que o STJ pode ganhar relevância nos próximos anos caso avance a proposta de transferir do STF (Supremo Tribunal Federal) para a corte a competência para julgar criminalmente autoridades com foro especial.

“A agenda de parte do mundo político com relação ao STF migrou. Deixou de ser a questão do impeachment dos ministros para ser a retirada da esfera criminal do STF, ou seja, na prática, haverá concentração de poder no STJ”, diz.

Troca de geração

O levantamento mostra que a presença feminina diminui à medida que aumenta o poder concentrado nos cargos. Nos Tribunais de Justiça estaduais, as mulheres representam 38% dos integrantes; nos Ministérios Públicos estaduais, 41%.

Nas posições eletivas de chefia, ocupadas por mandatos de dois anos, a participação é menor: 24,5%.

Apenas quatro dos 27 Tribunais de Justiça e três dos 27 Ministérios Públicos estaduais são presididos por mulheres. Na Defensoria Pública, instituição mais jovem do sistema, o desequilíbrio é menor: 11 das 27 unidades são comandadas por mulheres.

Nas instâncias federais, a desigualdade também é expressiva. As mulheres representam 29% dos procuradores da República. No STF, Cármen Lúcia é a única ministra.

Uma das medidas que as entidades apontam como exemplo de avanço é a resolução do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) que instituiu uma ação afirmativa de gênero nas promoções por merecimento para os tribunais de segunda instância.

Em vigor desde 2024, a regra foi acompanhada por um aumento de 14% no número de desembargadoras. A alta foi três vezes maior que a do número de juízas de primeiro grau e mais de quatro vezes superior à do número de desembargadores homens.

A medida, porém, alcança apenas as promoções por merecimento. Nos tribunais, também há acesso aos cargos de segunda instância por antiguidade e pelo quinto constitucional, mecanismo que reserva vagas a advogados e integrantes do Ministério Público. Nenhuma dessas modalidades está sujeita à mesma ação afirmativa.

Nos Ministérios Públicos, não há regra semelhante. O tema é objeto de ações judiciais acompanhadas pelas entidades.

Para Zaffalon, a mudança na composição das cúpulas também pode contribuir para recuperar a legitimidade do sistema de Justiça perante a sociedade.

“A Justiça brasileira nunca viveu uma crise de legitimidade tão grande”, diz. “A ocupação desses cargos por mulheres e por mulheres negras, sobretudo, é a chance que o Judiciário tem de se recolocar no debate democrático com uma legitimidade nova.”

Como os cargos são vitalícios, a composição definida durante essa janela de renovação pode ter efeitos por décadas. Sem mudanças nos critérios de acesso, afirmam as entidades, o sistema corre o risco de manter o mesmo perfil por mais 30 ou 35 anos.

 

 

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