Esta reportagem é fruto de uma parceria da newsletter Noites Húngaras com o núcleo investigativo do ICL Notícias, publicada simultaneamente pelos dois veículos.
A deputada estadual Lucinha (PSD-RJ), ré em inquérito que investiga seu envolvimento com uma milícia da Zona Oeste do Rio de Janeiro, fez campanha para Flávio Bolsonaro (PL) durante uma ação de distribuição de presentes a crianças, nas comemorações do Dia das Crianças.
A parlamentar, que não havia declarado publicamente seu apoio ao candidato à Presidência da República, participou da atividade usando um adesivo eleitoral com o número 22 e o nome de Flávio.
Imagens obtidas pela newsletter Noites Húngaras, em parceria com o núcleo investigativo do ICL Notícias, mostram Lucinha entregando presentes a crianças com o adesivo verde e amarelo estampado na manga direita de sua camiseta.
A propaganda eleitoral, porém, não aparece no vídeo divulgado pela própria deputada nas redes sociais, cuja legenda também não faz qualquer menção ao apoio a Flávio Bolsonaro.
A manifestação de apoio ao candidato presidencial do PL, até então não explicitada em suas redes sociais, foi omitida de uma publicação feita pela própria deputada no Instagram.
No vídeo divulgado aos seguidores, Lucinha aparece distribuindo doces e presentes em diferentes comunidades da Zona Oeste carioca, mas as imagens não mostram o adesivo de campanha presidencial que ela utilizava durante a atividade.
Na legenda, a parlamentar afirma que percorreu o Lameirão, a Praça do 70, em Antares, e a Praça da Sorveteria, também em Antares, para celebrar o Dia das Crianças.
“Quem me conhece sabe o carinho enorme que tenho pelas crianças. Cada sorriso, cada abraço e cada olhar de felicidade fazem tudo valer a pena!”, escreveu a deputada, sem qualquer referência ao candidato apoiado.
As fotografias obtidas pela reportagem, no entanto, revelam a dimensão eleitoral da atividade. Em uma delas, Lucinha aparece com uma caixa de presentes nas mãos, cercada por crianças. O adesivo de Flávio Bolsonaro está claramente visível em seu braço direito. Ao fundo, um homem veste uma camiseta amarela da seleção brasileira.

Lucinha não disputou a reeleição para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) em 2026. A parlamentar alegou que decidiu ficar fora da disputa eleitoral para se dedicar ao tratamento de um câncer.
Seu filho, o vereador Junior da Lucinha, tentou conquistar uma cadeira na Alerj, mas não foi eleito, ficando na suplência. Apesar de não ter concorrido a um novo mandato, Lucinha segue politicamente ativa na Zona Oeste do Rio, onde agora aparece fazendo campanha presidencial para Flávio Bolsonaro durante uma atividade de distribuição de presentes a crianças.
Apontada como braço político de milícia
Lucinha foi indiciada pela Polícia Federal em maio de 2024, após investigações que apontaram sua atuação em benefício da milícia comandada por Luís Antônio da Silva Braga, conhecido como Zinho, um dos principais chefes de grupos paramilitares do Rio de Janeiro.
Segundo as investigações da PF e do Ministério Público do Rio de Janeiro, a parlamentar atuava como uma espécie de lobista da organização criminosa, articulando interesses dos milicianos junto a órgãos públicos.
Investigadores chegaram a descrevê-la como o “braço político” da milícia de Zinho. Entre os integrantes do grupo, ela seria conhecida como “madrinha”, em referência aos favores e às facilidades que supostamente oferecia à organização.
Em dezembro de 2023, Lucinha foi alvo da Operação Batismo, deflagrada pela Polícia Federal, que cumpriu mandados de busca e apreensão em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e em outros endereços. A parlamentar chegou a ser afastada do mandato.
A investigação foi um desdobramento da Operação Dinastia, deflagrada em 2022 para desarticular a organização criminosa. Zinho, apontado como chefe da milícia, entregou-se à Polícia Federal em dezembro de 2023, dias depois da operação contra a deputada. Na ocasião, havia 12 mandados de prisão em aberto contra ele.