IBGE retira menção a drogas de nota sobre atualização do PIB

Instituto não confirma se fará estimativa de comercialização de entorpecentes; órgão trabalha na atualização das Contas Nacionais
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Por Leonardo Vieceli

(Folhapress) – Uma nota metodológica atualizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) retirou a menção a uma possível inclusão no PIB (Produto Interno Bruto) de uma estimativa de comercialização de drogas.

O órgão não confirma se essa contagem, recomendada por manuais internacionais e especialistas, entrará nos cálculos do indicador.

O PIB mede o desempenho da atividade econômica no país. Integra o Sistema de Contas Nacionais, cuja série está em atualização pelo IBGE. Essa revisão busca aperfeiçoar as estatísticas, captando as mudanças ocorridas na economia ao longo dos anos.

Na primeira nota metodológica sobre a atualização das Contas Nacionais, publicada em 8 de outubro de 2025, o instituto afirmava que a nova base traria mudanças como a estimativa da comercialização de drogas, entre outros pontos.

O comunicado, porém, ganhou uma segunda versão, que é mais enxuta. O novo texto, divulgado em 11 de setembro de 2026, quase um ano depois, não faz menção direta às drogas.

Especialistas

O tema é visto como secundário por especialistas, mas virou fonte de polêmica nas redes sociais a partir de setembro. Perfis contrários ao presidente Lula (PT) usaram o assunto para tentar atacar o governo na campanha eleitoral.

Especialistas afirmam que faz sentido estimar o quanto é movimentado pelas diferentes atividades, inclusive as ilícitas, como a venda de drogas.

Isso já ocorre no exterior, e a ampliação da base estatística poderia ser importante até para auxiliar na elaboração de políticas de combate a ilegalidades.

A discussão levou o IBGE a publicar no site de sua agência de notícias, em 18 de setembro, um texto que se propôs a esclarecer o assunto. O comunicado, porém, não confirma se haverá a inclusão das drogas no cálculo do PIB brasileiro.

Segundo o texto, manuais de Contas Nacionais indicam que toda atividade econômica deve ser medida para estimar a geração de renda e os demais componentes da economia de um país, mesmo se for informal ou ilegal.

O que diz o IBGE

Isso, afirmou o IBGE, está previsto em referências como o SNA (Sistema de Contas Nacionais), da ONU, e também é recomendado pelo Eurostat -órgão estatístico da União Europeia.

“A inclusão das drogas ilícitas no cálculo do PIB faz parte do Sistema Europeu de Contas (ESA 2010) e passou a ser obrigatória para os países da União Europeia no meio da década passada”, diz.

“A Inglaterra, por exemplo, inclui drogas ilícitas em suas Contas Nacionais desde 2014. A norma da União Europeia é seguida por França, Alemanha, Suécia, Hungria e por outros países do bloco.”

Em setembro, a Folha de S.Paulo perguntou ao IBGE se as drogas serão incluídas no PIB brasileiro, mas o instituto respondeu ao questionamento com o mesmo texto disponível no endereço eletrônico.

Ainda de acordo com esse comunicado, as discussões sobre o assunto no Brasil começaram em 2019 e, em 2021, ocorreu um teste inicial de metodologia.

“O IBGE esclarece, portanto, que a revisão na metodologia do Produto Interno Bruto seguirá em andamento até a divulgação dos primeiros resultados apenas em 2028.”

Na nota metodológica atualizada em setembro, o instituto afirma que a nova base pode envolver tanto recomendações internacionais ainda não implementadas quanto novas orientações, incluindo as do SNA. O material, porém, não detalha quais podem ser essas novidades.

A Folha de S.Paulo também questionou o IBGE, neste mês, sobre a retirada da menção a drogas da nota metodológica.

O órgão afirmou que, assim como em mudanças de série anteriores, materiais do tipo terão novas versões produzidas a partir de comentários enviados por usuários para o endereço de email que consta nas publicações (contas.nacionais@ibge.gov.br).

“Atualizações devem, então, ser feitas de forma rotineira, levando em conta comentários externos, atualizações de cronograma e questões metodológicas ou relacionadas às bases de dados adotadas ao longo do trabalho de estimativa da nova série”, disse o IBGE.

“Outras notas metodológicas serão produzidas nos próximos meses, detalhando itens específicos, como o tratamento dos dados de instituições sem fins lucrativos e das atividades financeiras na nova série de Contas Nacionais.”

O departamento de Contas Nacionais do IBGE teve mudança neste ano. A direção do instituto, presidido pelo economista Marcio Pochmann, exonerou a técnica Rebeca Palis do cargo de coordenadora da área no primeiro semestre.

À época, a medida provocou turbulência entre a direção e parte dos servidores. O técnico Ricardo Montes de Moraes assumiu a coordenação.

Até o momento, não está claro como uma eventual estimativa de comercialização de drogas poderia ser feita no PIB brasileiro. O IBGE promete realizar seminários para tratar das mudanças nas Contas Nacionais.

“Uma pesquisa desse tipo não é baseada só nas informações de um instituto estatístico. Tem registros administrativos, como da Polícia Federal, da Receita, de apreensão de drogas. Teria de misturar registros ou estatísticas de fontes diferenciadas para ter um bom resultado”, diz o ex-presidente do IBGE Roberto Olinto.

Segundo ele, as Contas Nacionais buscam ampliar o mapeamento de atividades econômicas, independentemente da natureza delas.

Para o economista Rodolpho Sartori, da consultoria Buysidebrazil, o tema pode assustar, mas é correto, do ponto de vista estatístico, tentar mensurar o tamanho das operações ilícitas.

“Não dá para só excluir essas atividades. Ilegalidade não é a mesma coisa que ausência de atividade econômica ou ausência de circulação [de recursos].”

Na visão de Sartori, o IBGE deveria ser mais claro na condução da atualização das Contas Nacionais a fim de evitar ruídos e incertezas. Ele também afirma que a atualização da série é necessária para captar as mudanças na economia.

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