Por Alice Maciel
Uma conta Apple, vinculada ao e-mail usado pelo deputado federal Mario Frias (PL/SP) nas negociações do filme Dark Horse, foi excluída após o site Intercept Brasil revelar que o banqueiro Daniel Vorcaro financiou a produção. Frias é roteirista e produtor-executivo do longa sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro e é investigado pela Polícia Federal (PF) no inquérito que apura o financiamento do filme.
Segundo registros reproduzidos em relatório da PF ao qual o núcleo investigativo do ICL Notícias teve acesso, a exclusão foi solicitada em 20 de maio de 2026, às 20h20, sete dias após a publicação da reportagem do Intercept Brasil.
A exclusão da conta apaga os dados do iCloud, serviço de armazenamento de dados na nuvem do iPhone, onde ficam guardadas fotos, mensagens e todo tipo de dados salvos no celular. Esse material poderia conter provas para o inquérito contra Frias.
A investigação da PF mostra que o deputado, que foi Secretário de Cultura do governo de Jair Bolsonaro, participa das decisões sobre distribuição, divulgação e patrocínio para o filme biográfico do ex-presidente. A conta excluída estava vinculada ao e-mail usado por Mario Frias em tratativas sobre o Dark Horse.
A confirmação da exclusão foi enviada em 29 de maio deste ano. Com o assunto “A sua Conta Apple foi apagada”, a mensagem atribuída ao suporte da Apple informava que os dados relacionados à conta do deputado haviam sido “permanentemente apagados dos sistemas ou modificados para deixar de identificar o usuário”.

A reportagem procurou Mario Frias, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem.
PF destaca proximidade entre exclusão e notícias sobre financiamento do filme
No relatório, a PF chama a atenção para o intervalo entre a publicação de reportagens sobre os recursos destinados a Dark Horse e o pedido de exclusão da conta Apple do deputado Mario Frias.
“O registro é relevante para a cronologia dos acontecimentos, especialmente por situar a solicitação de exclusão em período próximo à divulgação de informações públicas sobre o financiamento do filme Dark Horse”, ressaltou a PF no documento.
A cronologia começa em 13 de maio, quando o Intercept Brasil revelou mensagens trocadas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, pivô de um dos maiores escândalos de fraude financeira e corrupção da história do Brasil. Nas conversas, Flávio pediu R$ 134 milhões ao banqueiro para financiar o filme sobre o pai.
O Intercept também revelou a participação de Mario Frias nas negociações com o banqueiro. Em áudio enviado a Vorcaro, o deputado agradeceu o apoio ao projeto e afirmou que o filme “vai mexer com o coração de muita gente” e seria importante para o país. Na sequência, os dois conversaram por telefone.
A cronologia, destacada no relatório da PF, reúne ainda reportagens publicadas até 20 de maio, data do pedido de exclusão da conta, que registram manifestações de Frias sobre a origem dos recursos. Entre elas está a negativa do deputado, apresentada ao Supremo Tribunal Federal, de que suas emendas parlamentares tenham financiado a produção.
A PF investiga se parte dos R$ 2 milhões em emendas destinados por Frias ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) foi desviada para o longa. A entidade é presidida por Karina Gama, sócia da Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse.
Ex-consultor de Dark Horse afirmou ter conseguido asilo político para Karina Gama e familiares
Em troca de e-mails com Karina Gama, em junho de 2026, Dennis Rice, então consultor da GoUp Entertainment para o filme Dark Horse nos Estados Unidos, afirmou ter conseguido asilo político para a dona da produtora, seus filhos e sua mãe. As mensagens estão reproduzidas em relatório da Polícia Federal, que destacou que não há provas de que de fato houve essa articulação.
A alegação aparece em meio a divergências entre os dois sobre a condução do projeto. Segundo a PF, Rice manifestou desconforto em continuar usando sua influência e seu capital político sem alinhamento com a equipe do filme. Também mencionou a organização de exibições do longa em Las Vegas, Washington e Dallas.
Em 25 de junho, o consultor formalizou seu desligamento da produção, alegando que o ambiente de trabalho havia se tornado insustentável. Na mesma mensagem, informou que, a pedido de Mario Frias, encaminha uma fatura pelos serviços prestados, com pagamento devido no recebimento. Reportagem do ICL Notícias mostrou, no entanto, que ele não recebeu o pagamento até 28 de julho de 2026, conforme trocas de e-mail acessadas pela PF.
A reportagem procurou Karina Gama e Dennis Rice, mas não obteve resposta até a publicação.