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Os brasileiros me desculpem, mas ontem ganhou o mundo. A vitória de Lula da Silva travou a vaga da extrema-direita na política mundial, o multilateralismo ganhou um novo fôlego, os BRICS não ficaram coxos e o Sul Global conserva uma liderança empenhada e reconhecida. Há eleições assim, cujo significado ultrapassa largamente as fronteiras do país onde se realizam. Ontem, o mundo contava com o Brasil. E quem conta com o Brasil encontra sempre mais do que a conta. Que noite histórica. Que alegria. Saravá!

É talvez cedo — e talvez maçador, para quem ainda está a acordar — entrar em profundas análises de sociologia eleitoral. Nada me puxa agora para esse exercício. O meu sentimento desta manhã, o sentimento de quem acompanhou de longe, mas com muita, muita atenção, é que a vitória eleitoral de ontem pertence, antes de mais, à sociedade civil brasileira. Nada sei sobre estratégias de campanha ou estratégias nas redes sociais. O que sei, o que senti, foi a reação das ruas do Brasil. Foram as ruas que construíram a vitória. O segredo do êxito esteve na mobilização popular em defesa da tolerância, do pluralismo, da liberdade e do Estado de direito. Foi a mobilização de uma sociedade que recusou aceitar como inevitáveis a violência verbal, a intolerância e a desvalorização das instituições democráticas.

A beleza da campanha foi o protagonismo politicão dos jovens, dos intelectuais, dos artistas, das universidades e de tantos cidadãos que decidiram sair à rua e mudar o rumo da eleição. Também ali vi o resto do mundo atento e com responsabilidade percebendo exatamente oi que estava em causa. Ali vi Mark Ruffalo, Javier Bardem, Sónia Braga e Wagner Moura e senti-me imediatamente entre os meus, que o meu Brasil também se escreve com S. No final, a verdade essencial: a democracia pertence ao povo, e se pertence ao povo é também ao povo que compete defendê-la. Ontem, o povo brasileiro defendeu a sua democracia.

Finalmente, a dimensão pessoal desta vitória. Quem havia de dizer que Lula da Silva acrescentaria ainda um capítulo tão invulgar à sua já extraordinária biografia? O carisma do combatente político regressou com tudo o que dele seria legítimo esperar. Nada lhe foi oferecido na vida. Tudo teve de conquistar. Venceu a pobreza familiar, fez-se operário metalúrgico, dirigente sindical, fundador de um partido, presidente da República. Conheceu a prisão injusta e de lá saiu diretamente para a Presidência. Ontem, voltou ao palco mundial para protagonizar uma reviravolta política em que poucos acreditavam. Este personagem é extraordinário.

A democracia brasileira enfrentará, naturalmente, desafios imensos. A História não está escrita antecipadamente e a incerteza sempre foi uma das características mais fascinantes da política. Mas o que me fica no espírito, depois de ter vivido a noite de ontem, é o sentimento que os brasileiros compreenderam que o legado democrático “é uma coisa bela, preciosa, frágil e perecível”. E decidiram defendê-lo. Contra todas as evidências em contrário, a alegria (do poema “A velocidade da luz”, de Manuel Gusmão).

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