‘Método Janones’ como arma contra a extrema direita mundial pode funcionar?

Estratégia oferece lições ao campo progressista, mas enfrenta limites nos próprios sistemas eleitorais e nos algoritmos
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Por Lucas Estanislau, Maria Teresa Cruz e Monyse Ravena – Brasil de Fato

A vitoriosa estratégia de mobilização digital da esquerda brasileira, que garantiu uma virada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições, colocou a extrema direita ao redor do mundo de joelhos. Galvanizada pelo Exército do Lula, canal criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), a vitória do campo democrático brasileiro desafiou a ingerência do governo Donald Trump, a ação direta de big techs como a Meta e até da Justiça Eleitoral, presidida por um aliado do bolsonarismo, que tomou decisões controversas que afetaram a organização digital da campanha.

Em participação no podcast de política internacional do Brasil de Fato, O Estrangeiro, o analista geopolítico e pesquisador Marco Fernandes afirma que a esquerda “venceu a batalha no campo adversário com juiz adversário, com algoritmo adversário”.

Segundo Fernandes, o sucesso do método digital de Janones foi “transformar as redes sociais num instrumento organizativo”, conseguindo viralizar as mensagens por meio de missões diárias e conectar o engajamento digital à mobilização nas ruas. “Nossos dois grandes orgulhos, durante muito tempo, eram o futebol e as novelas. A gente tem agora um outro orgulho para vender, que é a nossa capacidade de derrotar a extrema direita nas redes e nas ruas”, afirma.

O pesquisador lembra que o canal de Janones terminou o primeiro turno com pouco mais de 50 mil seguidores, alcançando a incrível marca de mais de 10 milhões em menos de três semanas. “As interações ligadas ao Lula cresceram nessas três semanas 400%, mais de 400%. Foi um tsunami”, resume.

Questionado sobre a viabilidade de replicar essa experiência em outros países, como Argentina, Espanha e México, Fernandes pondera que a fórmula funciona “em parte sim, em parte talvez não”, muito em virtude de realidades locais muito particulares.

Ele explica que a lógica binária favorecida pelos algoritmos encontra obstáculos, por exemplo, na Espanha, onde não há segundo turno. “A Espanha, por exemplo, não tem segundo turno. Você vai voltar para o parlamento e é uma votação só”, conta. Já na França, Marco Fernandes acredita que só se houver dois turnos a tática de Janones pode funcionar. “Se o Mélenchon passar para segundo turno, você vai ter de novo dois campos em disputa”, avalia.

“Se eu fosse o Janones, eu centraria fogo na América Latina, porque aqui nós estamos precisando e aqui é que nós vamos ganhar essa batalha de fato da extrema direita”, defende, lembrando das dinâmicas sociais semelhantes.

Fernandes alerta para os riscos de travar a disputa política em espaços controlados por corporações estrangeiras, observando que as big techs aprendem rapidamente com essas táticas e tendem a criar mecanismos para reter novos contornos nos algoritmos. “Nós estamos falando de uma plataforma de transmissão de ideias, de debates, que tem mecanismos que são fechados, que a gente não sabe como é que funcionam. Ora, isso é absolutamente contraditório com a democracia”, critica.

Para ele, assim como o Sul Global discute a desdolarização, “é urgente promover uma ‘desyoutubização’”, em referência ao YouTube, ao criticar a dependência das plataformas como espaço e meio de informação, enfrentando assim a concentração do setor tecnológico.

Marco Fernandes traça um paralelo entre a dependência do dólar e a concentração de poder por meio do controle da informação que tem as big techs. “As reservas mundiais de moeda estrangeira, 57% são em dólar, ou seja, ainda é a maioria absoluta. As três maiores companhias de nuvens, que são a Meta, a Google e a Microsoft, têm 63% das nuvens. E a Meta, a Google e a Amazon têm mais de 60% da publicidade. Ou seja, a concentração nas plataformas de redes sociais é maior do que a concentração do dólar na economia mundial. E a gente precisa tomar uma providência em relação a isso”, alerta.

Como alternativa para superar o domínio das multinacionais de tecnologia no Brasil, Fernandes defendeu o uso de ferramentas públicas existentes. “O Pix pode ser a base, a tecnologia do Pix pode ser a base para uma plataforma, um chat brasileiro”, sugere, ao lembrar que mais de 80% da população brasileira utiliza o Pix.

“O Pix tem a nossa digital eletrônica, quem somos nós, identificação e tal. O Pix, que é público, estatal, poderia ser a base para fazer a mesma coisa que WeChat faz na China, que é, além de chat, também você compra coisas, você pega táxi, você aluga um hotel, tudo isso você faz no chat. É um hub de serviço também. O Pix poderia se transformar nisso”, argumenta.

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