A eleição que pode impor limites a Trump, e testar o federalismo americano

Democratas chegam às eleições de meio de mandato competitivos até em redutos conservadores
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Por Gisele Agnelli*

Apesar da vantagem republicana em dinheiro e mapas eleitorais, os democratas chegam às eleições de meio de mandato competitivos até em redutos conservadores. O desgaste da promessa econômica de Trump explica parte desse movimento. Sua reação a uma eventual derrota poderá revelar algo ainda mais importante sobre a democracia americana.

Há um paradoxo nas eleições legislativas americanas desta terça-feira. Os republicanos chegam às urnas controlando a Casa Branca e as duas Casas do Congresso, beneficiados por uma vantagem financeira expressiva entre os maiores doadores e por um redesenho de distritos eleitorais favorável ao partido. Ainda assim, as pesquisas apontam para a possibilidade de uma mudança de maioria na Câmara dos Representantes e colocam o controle do Senado em disputa, inclusive em estados onde Donald Trump venceu confortavelmente há apenas dois anos.

O fenômeno merece atenção para além da tradicional impopularidade presidencial nas eleições de meio de mandato. Se os democratas conseguirem transformar a insatisfação com Trump em ganhos legislativos expressivos, o resultado exporá os limites de uma coalizão eleitoral que parecia ter ampliado significativamente sua base social em 2024. Mais importante, poderá demonstrar que as vantagens institucionais e financeiras construídas pelos republicanos não foram suficientes para proteger o partido das consequências políticas do exercício do poder.

A pesquisa Reuters/Ipsos divulgada nesta segunda-feira registra apenas 32% de aprovação presidencial. Os democratas aparecem oito pontos à frente dos republicanos na preferência nacional para o Congresso, por 46% a 38%. Entre os independentes registrados, metade considera seu voto uma manifestação contra Trump, enquanto somente 13% o interpretam como apoio ao presidente. A mobilização também é desigual: 49% dos eleitores democratas declaram grande entusiasmo para votar, contra 33% dos republicanos.

Mas há uma ressalva decisiva. A rejeição a Trump não se converte automaticamente em entusiasmo pelo Partido Democrata. Os eleitores não estão, obrigatoriamente, escolhendo uma nova agenda. Estão julgando as consequências da agenda que escolheram em 2024, que não se concretizou.

Essa distinção é essencial porque o desgaste de Trump ocorre no terreno que sustentou sua vitória presidencial. Ele voltou à Casa Branca prometendo enfrentar o establishment, reduzir a inflação, recuperar o poder de compra dos trabalhadores, controlar a imigração e encerrar o envolvimento americano em conflitos internacionais. A narrativa do America First oferecia uma combinação de nacionalismo, proteção econômica e rejeição à elite política tradicional. Dois anos depois, algumas das principais fontes de insatisfação popular decorrem justamente das contradições entre essas promessas e as escolhas de seu governo.

Segundo a AP-NORC, apenas 17% dos americanos aprovam a maneira como Trump enfrenta o custo de vida, enquanto 65% atribuem às suas políticas responsabilidade importante pela persistência dos preços elevados. O dado é politicamente devastador porque atinge a principal promessa de sua campanha. A inflação, que havia recuado para 2,3% em abril de 2025, voltou a acelerar e alcançou 3,7% em setembro de 2026. No mesmo período de doze meses, o índice de preços da gasolina aumentou 34,2%, segundo o Bureau of Labor Statistics.

A guerra contra o Irã acrescentou uma dimensão particularmente contraditória à política econômica e externa do governo. Trump havia explorado eleitoralmente o desgaste americano com décadas de intervenções militares, apresentando-se como o presidente capaz de evitar novos conflitos. Agora, a guerra pressiona os preços da energia, amplia as incertezas econômicas e mantém os Estados Unidos envolvidos em uma operação militar rejeitada por 65% dos americanos, segundo o Pew Research Center. O impacto político do conflito não está restrito à política externa. Ele chega diariamente ao consumidor pelas bombas de gasolina.

A política tarifária também expõe uma contradição entre objetivos políticos e consequências econômicas. Medidas apresentadas como instrumentos de recuperação industrial e proteção do trabalhador americano elevaram custos de importação e criaram incertezas para empresas e consumidores. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho perdeu dinamismo: os Estados Unidos criaram aproximadamente 181 mil empregos em 2025, contra 2,2 milhões em 2024. A taxa de desemprego permanece relativamente baixa, mas a economia passou a apresentar o padrão conhecido como low-hire, low-fire, caracterizado por poucas contratações e poucas demissões.

A insatisfação, contudo, não pode ser atribuída exclusivamente ao segundo governo Trump. A desigualdade econômica americana é estrutural e atravessou sucessivas administrações republicanas e democratas. Joe Biden não conseguiu resolver a crise de acessibilidade à moradia, à saúde e à educação, tampouco eliminar a concentração patrimonial que restringe a mobilidade social. Trump herdou parte desses problemas, mas suas escolhas comerciais, fiscais e geopolíticas passaram a ser avaliadas pelos efeitos adicionais sobre uma população já pressionada.

A distância entre Wall Street e a economia cotidiana é particularmente reveladora. O avanço das ações, impulsionado pelos investimentos em inteligência artificial, beneficia de maneira desproporcional os americanos que já possuem patrimônio financeiro. Dados do Federal Reserve apresentados pela revista The Economist mostram que, entre o último trimestre de 2024 e o segundo trimestre de 2026, o 1% mais rico concentrou 52,5% do aumento da riqueza em ações e fundos mútuos. Os 9% seguintes receberam outros 36,6%, enquanto a metade mais pobre ficou com apenas 0,6% desses ganhos.

A distribuição refere-se especificamente à valorização desses ativos, não à totalidade da renda nacional. Ainda assim, sua implicação política é profunda: enquanto o governo celebra a valorização do mercado financeiro, milhões de americanos continuam enfrentando dificuldades para financiar a própria casa, pagar serviços de saúde ou acumular patrimônio. A economia se expande de maneira desigual, aprofundando a distância entre aqueles cuja riqueza cresce com os ativos financeiros e aqueles que dependem quase exclusivamente do salário. O sonho americano, promessa histórica de mobilidade social, aproxima-se perigosamente de um sonho reservado aos milionários.

A crescente volatilidade eleitoral sugere que essa contradição econômica está enfraquecendo lealdades partidárias. Segundo o Gallup, 45% dos americanos se identificaram como independentes em 2025, proporção recorde, enquanto democratas e republicanos registraram 27% cada. A polarização continua intensa, mas isso não significa que as coalizões eleitorais sejam imutáveis. Ao contrário, cresce o contingente de cidadãos que rejeitam o partido adversário sem necessariamente desenvolver uma identificação positiva com aquele que apoiam.

Uma pesquisa do Pew Research Center mostra que um quarto dos eleitores de Trump em 2024 passou a ter uma opinião desfavorável sobre o Partido Republicano. Entre eles, apenas 49% dizem que votarão em candidatos republicanos para a Câmara. O problema republicano não é apenas a possibilidade de perder votos para os democratas, mas a desmobilização de parcelas de sua própria coalizão.

Essa distinção ajuda a interpretar os números extraordinários do voto antecipado. Mais de 50 milhões de americanos já haviam votado até o fim de outubro. A mobilização democrata aparece especialmente intensa em vários estados competitivos. A diferença de mobilização é particularmente expressiva entre eleitores de participação irregular. No condado de Harris, no Texas, 70% dos democratas que haviam votado antecipadamente em 2024, mas não participaram das eleições legislativas de 2022, já haviam retornado às urnas neste ciclo. Entre republicanos com histórico equivalente, a proporção era de 57%. Os novos participantes também apresentam um perfil mais jovem, mais latino e menos republicano do que os novos eleitores de 2022.

É nesse contexto que a dimensão financeira da eleição se torna especialmente significativa. Segundo o Brennan Center for Justice, os 40 maiores doadores políticos americanos destinaram US$ 2,4 bilhões às eleições de 2026 até meados de outubro. Trata-se de um recorde para essa etapa do ciclo eleitoral desde a decisão Citizens United, de 2010. Entre os megadoadores que apoiam exclusivamente um dos partidos, os republicanos receberam mais de três vezes o volume destinado pelos financiadores exclusivamente democratas. Elon Musk se destaca entre os financiadores republicanos.

A concentração do financiamento não se limita à riqueza dos doadores conhecidos. O chamado dark money, dinheiro canalizado por organizações que não precisam divulgar publicamente todos os seus financiadores originais, tornou-se parte estrutural da competição política americana. O Brennan Center identificou que organizações dessa natureza representaram 29% das contribuições atribuídas aos 40 maiores financiadores neste ciclo. Comparado a 2014, o volume proveniente dessas entidades aumentou treze vezes.

O fenômeno estabelece uma assimetria relevante entre influência política e transparência democrática. A legislação americana permite que organizações independentes mobilizem recursos praticamente ilimitados em atividades eleitorais, desde que respeitadas as regras de não coordenação com candidatos. O resultado é uma competição em que a identidade de parte dos financiadores pode permanecer oculta do eleitorado, mesmo quando suas campanhas publicitárias alcançam milhões de pessoas.

O contraste com o Brasil é importante. Desde a proibição das doações empresariais diretas para campanhas, o financiamento eleitoral brasileiro opera sob regras mais restritivas, com exigências de identificação de doadores, limites e prestação de contas à Justiça Eleitoral. Isso não elimina a influência econômica ou práticas irregulares, mas estabelece um desenho institucional substancialmente diferente. Nos Estados Unidos, a capacidade de influenciar eleições por meio de organizações externas encontra proteção jurídica muito mais ampla.

Michigan oferece um exemplo particularmente expressivo das consequências políticas desse modelo. A disputa entre o democrata Abdul El-Sayed e o republicano Mike Rogers transformou-se em laboratório de campanhas negativas segmentadas por identidade religiosa e racial. El-Sayed, muçulmano e defensor de uma agenda econômica progressista, tornou-se alvo de anúncios que o associam ao extremismo islâmico. Organizações externas também financiaram publicidade dirigida à população negra de Detroit, buscando enfraquecer sua relação com a candidatura democrata.

Uma campanha de US$ 1,5 milhão, financiada por um comitê independente, explorou supostas divergências entre El-Sayed e a comunidade negra. A estratégia vai além da crítica programática: pretende fragmentar uma coalizão eleitoral por meio de mensagens diferentes para grupos sociais específicos. Ao mesmo tempo, acusações relacionadas à religião do candidato ampliam o peso das identidades culturais e dos preconceitos na disputa.

No Brasil, o impulsionamento pago de propaganda eleitoral negativa é proibido, e as regras de 2026 estabelecem restrições específicas a conteúdos manipulados por inteligência artificial, inclusive deepfakes. Nos Estados Unidos, a Primeira Emenda garante proteção muito mais abrangente ao discurso político, embora ameaças, determinadas falsidades e outras condutas possam encontrar limites legais. A diferença entre os dois países não está apenas no volume de dinheiro. Está na própria definição jurídica dos limites da propaganda política.

Texas representa outra dimensão do fenômeno. James Talarico, democrata que procura combinar discurso econômico, referências religiosas e uma linguagem menos confrontacional, disputa uma cadeira contra Ken Paxton, associado à ala mais conservadora do movimento MAGA. Segundo a Federal Election Commission, a campanha de Talarico havia arrecadado US$ 146,3 milhões até 14 de outubro, montante extraordinário para uma eleição ao Senado. Ao mesmo tempo, organizações externas ligadas ao campo republicano mobilizaram recursos adicionais em uma das disputas mais caras do ciclo.

A pesquisa final New York Times/Siena, divulgada em 1º de novembro, registrou Talarico com 50% das intenções de voto entre eleitores prováveis, contra 43% de Paxton. A pesquisa não garante uma vitória democrata em um estado historicamente republicano. Mas a competitividade de uma candidatura desse perfil, em território que não elege um democrata ao Senado desde 1988, revela o alcance potencial da insatisfação econômica e das controvérsias envolvendo o candidato republicano.

Os números são igualmente reveladores em outros estados. Em Kansas, o democrata Adam Hamilton aparece cinco pontos à frente de Roger Marshall na pesquisa Siena, desafiando a tradicional identificação republicana do eleitorado rural e religioso. Em Iowa, Josh Turek e Ashley Hinson estão praticamente empatados, em uma disputa marcada pelo impacto das tarifas, pelo custo dos combustíveis e pelas dificuldades da economia agrícola. Ohio oferece outro teste: Sherrod Brown tenta recuperar uma cadeira em um estado cada vez mais associado ao eleitorado trabalhador que sustentou Trump.

Maine e Alasca também apresentam características politicamente relevantes. Susan Collins, no Maine, enfrenta dificuldades para preservar uma identidade republicana moderada em um ambiente de forte nacionalização partidária. No Alasca, Mary Peltola tenta transformar sua identificação com questões locais em vantagem contra Dan Sullivan. Na Carolina do Norte, Roy Cooper disputa uma das cadeiras republicanas estratégicas para qualquer tentativa democrata de alterar a composição do Senado.

A última pesquisa Siena registrou candidatos democratas à frente em sete disputas senatoriais competitivas, incluindo Kansas, Iowa, Texas e Alasca. A margem de erro e o histórico de subestimação do voto republicano recomendam cautela. Ainda assim, o fato de tantas cadeiras em territórios favoráveis a Trump estarem efetivamente em disputa constitui, por si só, um indicador da amplitude geográfica do desgaste presidencial.

A comparação histórica mais próxima é 2006, quando a impopularidade de George W. Bush e a guerra do Iraque contribuíram para a conquista democrata das duas Casas do Congresso. Há, entretanto, uma diferença importante: em 2026, os democratas disputam simultaneamente estados onde Trump venceu por margens elevadas, enquanto o Partido Republicano dispõe de vantagens institucionais produzidas pelo redesenho de distritos eleitorais. O gerrymandering constitui outra tentativa de reduzir a vulnerabilidade republicana. O Texas e a Flórida estão entre os estados em que o redesenho dos mapas buscou ampliar o número de cadeiras favoráveis ao partido; a Califórnia respondeu com alterações que beneficiam os democratas. Segundo o Cook Political Report, o efeito líquido provável dessas mudanças seria de aproximadamente três cadeiras adicionais para os republicanos na Câmara dos Representantes.

O dado torna o cenário eleitoral particularmente interessante. Os republicanos construíram uma vantagem por meio de mapas mais favoráveis, dispõem de uma base de megadoadores superior à democrata e ocupam a Presidência. Mesmo assim, o Cook Political Report passou a identificar um ambiente nacional favorável à recuperação democrata da Câmara. A vantagem estrutural republicana existe, mas está sendo confrontada por uma mudança na disposição do eleitorado.

O dinheiro pode financiar campanhas, ampliar mensagens e construir barreiras de entrada para adversários. O redesenho dos distritos pode tornar algumas cadeiras mais seguras. Nenhum desses instrumentos, entretanto, consegue eliminar completamente o julgamento político de uma população insatisfeita com seu governo.

O resultado também poderá alterar profundamente a capacidade de Trump de governar sem fiscalização legislativa efetiva. Uma maioria democrata na Câmara dos Representantes assumiria o controle de suas comissões, ampliaria investigações, convocaria autoridades e poderia utilizar o orçamento para contestar prioridades presidenciais. No Senado, uma eventual mudança de maioria acrescentaria poder sobre nomeações, audiências e a agenda legislativa.

Uma vitória democrata nas duas Casas não significaria, evidentemente, a capacidade de revogar imediatamente todas as decisões presidenciais. Trump conservaria o poder de veto, e a legislação americana impõe obstáculos à aprovação de diversas medidas no Senado. Mas a diferença entre um Congresso alinhado e outro disposto a exercer fiscalização é substantiva. A capacidade de exigir documentos, expor decisões administrativas, investigar contratos e pressionar autoridades pode impor custos políticos ao Executivo antes mesmo da aprovação de qualquer nova lei.

A guerra contra o Irã seria uma das áreas mais sensíveis. Um Congresso democrata poderia ampliar o escrutínio sobre operações militares, gastos e objetivos estratégicos, além de discutir restrições orçamentárias e os limites constitucionais ao emprego da força. Também poderia investigar a atuação de autoridades da Defesa e operações militares controversas no Caribe. A extensão desses poderes dependeria da composição das duas Casas, dos procedimentos legislativos e da disposição de parlamentares republicanos para cooperar.

Para o Brasil, uma mudança de maioria em Washington teria consequências que ultrapassam a relação diplomática formal. Em 30 de outubro, 25 parlamentares democratas, liderados por Sydney Kamlager-Dove e Dina Titus, exigiram explicações do Departamento de Estado sobre as circunstâncias da entrada de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos, incluindo a eventual concessão de visto e possível assistência de autoridades americanas após restrições judiciais impostas no Brasil. Um Congresso democrata poderia aprofundar o escrutínio sobre a atuação de Marco Rubio, solicitar documentos, realizar audiências e investigar se instrumentos consulares ou diplomáticos foram empregados de maneira incompatível com as regras americanas ou com compromissos de cooperação jurídica internacional.

Donald Trump e Marco Rubio
O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, observa durante um evento em comemoração ao Mês da Herança Hispânica no Salão Leste da Casa Branca, em Washington, DC, em 30 de setembro de 2026. (Foto de Kent NISHIMURA / AFP) 

O mesmo raciocínio se aplica ao tarifaço contra o Brasil. O Congresso possui autoridade constitucional sobre comércio exterior, embora tenha delegado amplos poderes tarifários ao Executivo. Uma maioria democrata poderia ampliar a fiscalização, exigir justificativas e buscar restrições específicas a essas políticas.

Mas talvez o desafio institucional mais grave das eleições de 2026 está na possibilidade de o presidente questionar a legitimidade de resultados que reduzam seu poder.

Nos Estados Unidos, a administração eleitoral é descentralizada. Estados e autoridades locais organizam a votação, contam os votos e certificam os resultados segundo suas competências legais, submetidos à Constituição e à legislação federal. A Presidência não possui autoridade para simplesmente anular uma eleição legislativa desfavorável. Essa distribuição de poderes é parte essencial do federalismo americano.

O problema é que as tensões entre Washington e os estados já começaram antes mesmo da abertura das urnas nesta terça-feira. O Departamento de Justiça tentou afastar da apuração aproximadamente 20 mil votos pelo correio na Califórnia, sob alegações relacionadas à elegibilidade dos eleitores. No Alasca, o departamento solicitou judicialmente a suspensão da certificação de um eventual resultado apertado contra o senador republicano Dan Sullivan, em razão da presença de outro candidato com o mesmo nome. Os tribunais rejeitaram essas iniciativas até aqui, embora o governo tenha recorrido no caso do Alasca. O Departamento de Justiça sustenta que suas ações buscam garantir a integridade eleitoral. Críticos argumentam que a intervenção rompe com práticas destinadas a evitar a utilização partidária dos poderes federais de investigação.

A existência de controvérsias eleitorais não constitui, por si, uma violação institucional. A ruptura ocorreria se a administração utilizasse seus poderes para substituir indevidamente a competência dos estados, impedir certificações válidas ou desconsiderar resultados por razões partidárias.

É aqui que a eventual recusa de Trump em reconhecer uma derrota republicana assumiria significado constitucional particularmente grave. Diferentemente de uma disputa presidencial, o presidente não é candidato às cadeiras em julgamento. Sua resistência a resultados desfavoráveis poderia colocar o Poder Executivo federal em confronto direto com autoridades estaduais responsáveis pela organização e certificação das eleições.

Seria mais do que uma controvérsia sobre a composição do Congresso. Uma tentativa de subordinar a validade dos resultados estaduais à conveniência política da Presidência representaria um ataque ao equilíbrio federativo que sustenta a ordem constitucional americana.

A dimensão desse risco torna as eleições de 2026 diferentes de uma disputa legislativa convencional. A questão é se a reação a uma eventual derrota republicana respeitará a autonomia das instituições encarregadas de registrar e reconhecer a decisão dos eleitores.

O federalismo americano foi concebido, entre outras finalidades, para impedir a concentração excessiva de autoridade em um único centro político. Sua fragmentação pode produzir conflitos, desigualdades administrativas e disputas judiciais. Mas também estabelece barreiras à apropriação do processo eleitoral pelo Executivo nacional.

Trump venceu em 2024 apresentando-se como instrumento da insatisfação popular contra o establishment. Dois anos depois, enfrenta a possibilidade de que essa mesma insatisfação se volte contra seu governo. A contradição será ainda maior se o presidente que reivindicou falar em nome dos eleitores resistir ao julgamento eleitoral quando ele já não lhe for favorável. O teste decisivo de 2026 estará na disposição do governo de aceitar que a autoridade obtida nas urnas encontra limites nas próprias urnas, inclusive quando os resultados são desfavoráveis.

A democracia americana não será julgada somente pela alternância de poder que conseguir produzir, mas pela capacidade de suas instituições de fazer com que essa alternância seja respeitada.

*Gisele Agnelli é cientista política, socióloga, escritora e analista de assuntos públicos, formada pela PUC-SP, com pós-graduação pela ESPM e certificação profissional pela UC Berkeley. Com mais de 13 anos de experiência em pesquisa de mercado e estratégia, dedica-se à análise política comparada entre Brasil e Estados Unidos, com foco em democracia, relações institucionais e ambiente de negócios. É fundadora do movimento #VoteNelas, autora de Autocracia Made in USA, sócia fundadora da Agnelli&Bauer.

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