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O Foro de São Paulo aparece com frequência em discursos políticos, campanhas eleitorais e acusações sobre uma suposta tentativa de controle da América Latina. Criada em 1990, a articulação reúne partidos e organizações de esquerda, mas sua atuação passou a ser associada a teorias sobre fraudes eleitorais, narcotráfico e expansão do comunismo.

Essas interpretações ganharam espaço no Brasil, especialmente por meio de Olavo de Carvalho e, posteriormente, foram abraçadas pelo bolsonarismo. Ao mesmo tempo, a participação de partidos ligados a governos acusados de autoritarismo alimenta questionamentos sobre as posições da organização.

Afinal, o que é o Foro de São Paulo, quem participa de suas reuniões e qual é sua influência? A resposta exige conhecer seus documentos, entender seu funcionamento e examinar as evidências por trás das acusações.

O que é o Foro de São Paulo?

O Foro de São Paulo é uma articulação de partidos e movimentos políticos de esquerda da América Latina e do Caribe, criada para promover debates, compartilhar experiências e desenvolver propostas de cooperação regional.

Sua origem está relacionada às transformações internacionais do final dos anos 1980. Enquanto a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução da União Soviética, em 1991, abalavam profundamente o ideal socialista, na América Latina, políticas de privatização, abertura comercial e ajuste fiscal ganhavam cada vez mais força.

Nesse cenário, o Partido dos Trabalhadores (PT), liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, e Fidel Castro, então presidente de Cuba, articularam a realização de um encontro entre organizações de esquerda.

A primeira reunião aconteceu em São Paulo, entre 2 e 4 de julho de 1990, com representantes de 48 partidos, organizações e frentes políticas, conforme registra a Declaração de São Paulo, feita no Encontro de Partidos e Organizações de Esquerda da América Latina e Caribe.

O documento defendia a renovação do pensamento socialista, a soberania nacional, a democracia e a integração latino-americana. Também criticava a política econômica dos Estados Unidos para a região.

A dimensão econômica dessas preocupações aparece nos números citados pelos participantes. Segundo a declaração, a dívida externa latino-americana ultrapassava US$ 430 bilhões, enquanto uma proposta norte-americana previa reduzir em US$ 7 bilhões a dívida oficial com os Estados Unidos.

Os partidos que integram o Foro de São Paulo

A circulação de lideranças políticas entre encontros regionais revela uma tradição de diálogo entre organizações latino-americanas que antecede a chegada de muitas delas ao poder. Foto: Ricardo Stuckert/PR 
A circulação de lideranças políticas entre encontros regionais revela uma tradição de diálogo entre organizações latino-americanas que antecede a chegada de muitas delas ao poder. Foto: Ricardo Stuckert/PR

O Foro de São Paulo reúne organizações com diferentes trajetórias e orientações políticas. Entre os participantes registrados ao longo de sua história estão o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o Partido Comunista de Cuba, a Frente Sandinista de Libertação Nacional, da Nicarágua, e a Frente Ampla, do Uruguai.

Também participaram de encontros o Movimento ao Socialismo (MAS), da Bolívia, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e a Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), de El Salvador. A composição varia ao longo dos anos. Por isso, a presença de uma organização em determinado encontro não significa necessariamente que ela continue participando atualmente.

As diferenças entre esses grupos aparecem em suas trajetórias. O PT surgiu em 1980, reunindo sindicalistas, movimentos sociais e setores da esquerda brasileira. A Frente Sandinista chegou ao poder na Nicarágua após a revolução de 1979, enquanto a FMLN participou da guerra civil salvadorenha antes de se transformar em partido político, após os acordos de paz de 1992. Já o MAS, sob a liderança de Evo Morales, chegou à Presidência boliviana em 2006, com uma trajetória ligada a movimentos indígenas e sindicais.

No Uruguai, José “Pepe” Mujica representa outra dessas experiências. Ex-integrante do movimento guerrilheiro Tupamaros, passou cerca de 13 anos preso durante o período de repressão política e ditadura. Após a redemocratização, participou da criação do Movimento de Participação Popular (MPP), integrado à Frente Ampla. Foi senador, ministro da Agricultura e presidente do Uruguai entre 2010 e 2015. Durante seu governo, o país aprovou medidas como a descriminalização do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a regulamentação estatal da maconha.

Mujica também participou do Foro de São Paulo, assim como outros representantes de organizações com experiências eleitorais, sindicais e revolucionárias. A composição ajuda a compreender a diversidade interna do encontro e as diferenças entre os projetos políticos de seus integrantes, que mantêm estruturas partidárias e estratégias próprias em seus respectivos países.

Veja mais: Nem santo, nem herói: viva Mujica, o militante socialista!

Como o Foro de São Paulo organiza suas decisões?

O Foro realiza encontros nos quais os participantes discutem conjunturas políticas, propostas e documentos conjuntos.

Em 1992, durante o terceiro encontro, foi estruturado o Grupo de Trabalho, responsável pela organização das reuniões. No encontro seguinte, em Havana, foram aprovadas regras para o ingresso de novos membros.As declarações finais registram posições negociadas entre as organizações. Sua aprovação representa um compromisso político, mas não transforma o Foro em uma instituição com autoridade legal sobre os governos.

O fato é que as resoluções não possuem força de lei nos países participantes. Cada país continua sujeito às instituições e à legislação nacional. Não há, portanto, um comando supranacional capaz de impor políticas públicas a governos.

Isso não impede a articulação de estratégias comuns, característica de organizações partidárias internacionais.

A chegada da esquerda ao poder na América Latina

A partir dos anos 2000, partidos e lideranças de esquerda conquistaram governos em países como Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador e Uruguai.

Lula assumiu a Presidência brasileira em 2003, enquanto Hugo Chávez governava a Venezuela desde 1999. Posteriormente, Evo Morales chegou ao poder na Bolívia, Rafael Correa no Equador e José Mujica no Uruguai.

A aproximação entre essas lideranças favoreceu discussões sobre integração econômica, relações comerciais e autonomia regional, mas isso não significou um alinhamento automático ou a inexistência de interesses distintos. Um exemplo foi a nacionalização dos ativos da Petrobras na Bolívia, durante o governo Morales. Outro envolveu a renegociação das condições de Itaipu entre Brasil e Paraguai, sob as presidências de Lula e Fernando Lugo, líder paraguaio do espectro progressista que governou o país entre 2008 e 2012.

Esses conflitos demonstram que a proximidade partidária convivia com disputas econômicas e interesses nacionais distintos.

Olavo de Carvalho e a narrativa da ameaça comunista

A influência de Olavo de Carvalho ultrapassou seus livros e cursos, alcançando militantes, influenciadores digitais e integrantes do governo de Jair Bolsonaro. Foto: FolhaPress
A influência de Olavo de Carvalho ultrapassou seus livros e cursos, alcançando militantes, influenciadores digitais e integrantes do governo de Jair Bolsonaro. Foto: FolhaPress

O Foro de São Paulo ganhou projeção no discurso conservador brasileiro por influência do astrólogo e ideólogo da extrema direita, Olavo de Carvalho. O escritor apresentava a organização como parte de uma estratégia comunista para conquistar influência sobre governos, instituições, meios de comunicação e espaços culturais da América Latina.

Essa interpretação ganhou força com a ascensão do bolsonarismo, especialmente a partir de 2018. A participação do PT na fundação do Foro passou a alimentar acusações de que o partido integraria um projeto de dominação continental, associando governos de esquerda com trajetórias e políticas distintas.

A narrativa também alcançou setores militares. Em 2020, o capitão Diego Pereira Salgado defendeu, em um trabalho apresentado à Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército (EsAO), uma intervenção militar contra o PT, apontando partidos ligados ao Foro como ameaça à segurança nacional. A posição não representava uma orientação oficial do Exército.

As acusações circulam em comunidades influenciadas pelo pensamento de Olavo, incluindo ambientes da extrema direita. Embora o Foro mantenha articulações políticas documentadas entre seus integrantes, não há evidências que sustentem as alegações de um comando clandestino sobre governos e instituições.

As acusações de conspiração contra o Foro de São Paulo

Entre as alegações recorrentes estão a existência de uma organização clandestina, o controle de governos latino-americanos e supostas relações com o narcotráfico. É possível examinar essas afirmações separadamente.

A existência do Foro está registrada em documentos desde 1990

Uma das teorias que aparecem frequentemente no debate sobre o Foro de São Paulo é a de que a existência da organização só teria sido de fato comprovada em 2008. No entanto, essa ideia contrasta com os documentos históricos.

A própria declaração inaugural, datada de 4 de julho de 1990, identifica as 48 organizações presentes e anuncia a realização de outro encontro no México. Esse registro comprova que a organização produziu documentação identificável desde sua fundação.

Os limites da influência do Foro sobre governos e eleições

O Foro promove articulação entre partidos que disputam o poder político. Essa atividade está documentada em suas declarações.

Entretanto, a organização não tem autoridade para determinar resultados eleitorais, substituir instituições nacionais ou obrigar governos a cumprir suas decisões.

A existência de relações partidárias e de objetivos políticos compartilhados não comprova, por si só, a execução de um plano clandestino de controle continental.

Das Farc guerrilheiras à participação partidária no Foro

A transformação das Farc em partido político colocou antigos integrantes da guerrilha diante de um novo desafio: conquistar apoio eleitoral em uma sociedade ainda marcada pelas consequências de décadas de conflito armado. Foto: Luiz Acosta / AFP
A transformação das Farc em partido político colocou antigos integrantes da guerrilha diante de um novo desafio: conquistar apoio eleitoral em uma sociedade ainda marcada pelas consequências de décadas de conflito armado. Foto: Luiz Acosta / AFP

A relação entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Foro de São Paulo envolve diferentes momentos da história política colombiana. Durante décadas, a guerrilha participou de um conflito armado marcado por sequestros, violência contra civis e violações dos direitos humanos atribuídas tanto à guerrilha quanto ao próprio Estado colombiano, além de vínculos com atividades relacionadas ao narcotráfico.

A organização chegou a tentar participar de encontros do Foro de São Paulo, mas foi vetada. Um dos casos se deu em 2008, quando o Partido dos Trabalhadores, que à época exercia a presidência da articulação, impediu a participação da Farc.

No entanto, após o acordo de paz selado entre o Estado colombiano e a guerrilha em 2016, parte da antiga organização abandonou a luta armada e ingressou na política institucional. Desse movimento, surgiu a Força Alternativa Revolucionária do Comum, partido político legalizado que, posteriormente, participou de encontros do Foro de São Paulo.

Controvérsias do Foro de São Paulo e o pânico moral

A defesa da democracia presente nos documentos do Foro convive com controvérsias envolvendo governos de partidos participantes.

Na Venezuela, o Relatório Mundial 2026 da Human Rights Watch registrou 24 mortes durante a repressão aos protestos posteriores às eleições de julho de 2024, além de detenções arbitrárias e perseguição a opositores. A partir de episódios como esse, setores de oposição ao Foro de São Paulo questionam a coerência entre os princípios declarados e as posições assumidas publicamente por seus membros.

No entanto, o Foro também pode ser visto como uma frente heterogênea de cooperação política e integração regional, sem comando centralizado ou influência sobre a soberania e a autodeterminação dos países membros.

O Foro de São Paulo e o pânico moral promovido pela extrema direita

Em julho de 2026, durante a convenção do Partido Liberal (PL) que lançou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, o presidente argentino Javier Milei pediu apoio ao senador para combater o que chamou de “máquina socialista”. Em seu discurso, associou o Foro de São Paulo ao chamado “socialismo do século XXI” e apresentou a eleição brasileira como uma disputa entre liberdade e submissão.

Em setembro do mesmo ano, Ernesto Araújo, que ocupou o Ministério das Relações Exteriores durante o governo de Jair Bolsonaro, afirmou que o apoio de Donald Trump havia fortalecido a candidatura de Flávio. Ele também defendeu uma aproximação militar com os Estados Unidos, por meio do chamado Escudo das Américas, para combater o que descreveu como um esquema “criminal-socialista” do Foro de São Paulo, supostamente aliado à China.

Em janeiro de 2026, Flávio Bolsonaro publicou uma mensagem associando o então candidato à reeleição à Presidência da República,  Luiz Inácio Lula da Silva, e o Foro de São Paulo ao tráfico internacional de drogas e armas, à lavagem de dinheiro e ao apoio a organizações terroristas. Em junho, a Polícia Federal concluiu que o senador havia cometido calúnia ao atribuir falsamente esses crimes ao presidente. O relatório foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, e a conclusão policial não representa uma condenação judicial.

O futuro do Foro de São Paulo na América Latina

Desde sua criação, em 1990, o Foro de São Paulo acompanha as transformações políticas da América Latina. Ao reunir partidos com diferentes trajetórias, a organização se tornou um espaço de discussão sobre desigualdade, democracia, soberania e integração regional. Ao longo dessas décadas, seus integrantes chegaram ao poder, enfrentaram derrotas eleitorais e protagonizaram disputas que continuam influenciando os rumos do continente.

Essa história também mostra como a cooperação entre partidos convive com divergências políticas e interesses nacionais. As controvérsias envolvendo governos e organizações participantes exigem análise, assim como as acusações que atribuem ao Foro poderes e responsabilidades sem apresentar evidências suficientes.

Para os próximos anos, os desafios permanecem. A concentração de renda, a crise climática, as disputas comerciais e as pressões sobre as instituições democráticas atravessam fronteiras e exigem respostas que considerem as particularidades de cada país. Nesse cenário, iniciativas de articulação regional continuarão participando dos debates sobre os caminhos possíveis para a América Latina.

O conhecimento sobre o Foro de São Paulo contribui para um debate público em que propostas sejam avaliadas por seus resultados, governos respondam por suas decisões e diferentes projetos de sociedade encontrem espaço para discussão. O futuro da América Latina depende também dessa capacidade de reconhecer divergências, examinar responsabilidades e construir caminhos políticos que respondam às necessidades de suas populações.

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