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Por Guilherme Pavarin

Estudantes de medicina da Faculdade São Leopoldo Mandic, em Campinas (SP), cobram da direção providências contra colegas que, em grupos de WhatsApp, ameaçaram agredir eleitores do presidente Lula (PT).

Segundo prints obtidos pelo ICL Notícias, as mensagens foram trocadas depois do segundo turno das eleições, em 25 de outubro, e incluem a foto de um revólver e propostas de criar listas para identificar quem votou no presidente reeleito.

As intimidações circularam em vários grupos, incluindo o de um brechó da atlética, que reúne 750 alunos. Nele, um aluno ameaçou “chutar” quem fosse identificado como petista na faculdade. Já outro estudante compartilhou, no mesmo espaço, a imagem de um homem com camisa do PT amordaçado e com as mãos amarradas para trás em um matagal.

De acordo com relatos obtidos pela reportagem, o clima de intimidação levou alunos a se afastarem das aulas. Um dos estudantes afirmou ter deixado de comparecer a uma atividade acadêmica por medo de sofrer agressões fora das dependências da instituição.

Outro estudante decidiu trancar a matrícula depois do compartilhamento, no WhatsApp, de uma foto em que comemorava a vitória de Lula. Ele e outros colegas retratados passaram a ser hostilizados. A família teria procurado a instituição para cobrar providências, mas não recebido garantias suficientes de segurança para que a jovem permanecesse no curso.

Uma aluna também relatou a intenção de deixar a faculdade após episódios de discriminação que, segundo ela, se intensificaram durante as eleições. Ela afirmou ter sido ridicularizada por ser LGBTQIA+ e não pertencer ao mesmo grupo social dos colegas. “Mandic não é lugar para pobre”, afirmou ter ouvido de outros estudantes.

“Não achei suporte da faculdade nem associações de apoio. Tentamos falar com a instituição e nada foi feito. A insegurança se instalou e afetou a vida acadêmica”, relatou. “Eles acham que nada vai acontecer com eles, e nada acontece.”

Em 29 de outubro, quatro dias após o segundo turno, a faculdade anunciou a criação de uma comissão disciplinar para apurar os episódios. A medida, porém, não foi suficiente para tranquilizar os estudantes, que reclamam da falta de garantias de segurança e informações sobre as providências adotadas.

“A maior questão é a omissão e a falta de transparência da faculdade nessa última semana”, afirmou uma das estudantes que sofreu ameaças no grupo de WhatsApp.

Em resposta, a São Leopoldo Mandic declarou que não compactua com ameaças, intimidações ou discriminação por motivos políticos. Segundo a faculdade, um aluno foi afastado cautelarmente em razão da gravidade de uma manifestação. A medida é preventiva e não representa uma punição definitiva.

A instituição também informou ter enviado um comunicado aos estudantes, disponibilizado atendimento pelo Núcleo de Apoio Psicopedagógico (NAP) e orientado as coordenações a reforçar as regras de convivência em sala de aula. Segundo a Mandic, todos os alunos foram acolhidos, sem exceção, inclusive seus familiares.

A faculdade não informa quantos estudantes estão sendo investigados.

Preconceito contra bolsistas

A São Leopoldo Mandic é uma das instituições privadas de medicina mais caras do país. Sua mensalidade em Campinas é de R$ 14.578. A unidade passou a oferecer, no segundo semestre de 2025, bolsas integrais pelo ProUni, programa do governo federal voltado ao acesso de estudantes de baixa renda ao ensino superior. Em 2026, foram disponibilizadas 25 vagas para o curso.

Segundo estudantes ouvidos pelo ICL Notícias, a chegada dos bolsistas teria intensificado o preconceito social e a hostilidade política na faculdade. “São os que acabam mais intimidados”, afirmou uma das fontes, que pediu anonimato por receio de represálias.

Antes, de acordo com os alunos, as hostilidades se manifestavam de maneira mais velada, por meio de comentários em sala de aula e mensagens antipetistas nos grupos. Depois das eleições, os ataques se tornaram mais explícitos e se misturaram a ofensas contra pobres e nordestinos.

“Petista tem é que ir tudo ir para o nordeste e morar em uma cabana”, escreveu um estudante no WhatsApp, pouco depois do anúncio da vitória de Lula. Em outro grupo, um aluno sugeriu boicotar viagens à região: “Pessoal cancelem o Réveillon no Nordeste, esse bando de [emoji de burro], não merece nosso dinheiro”.

Tentativa de exposição de alunos e professores

Estudantes da Mandic afirmam que os colegas antipetistas elaboraram listas para identificar alunos e professores associados à esquerda. A reportagem não conseguiu confirmar a existência dos documentos, mas teve acesso a mensagens que incentivavam a exposição de eleitores de Lula.

“Divulguem os petistas da facul”, escreveu um participante de um dos grupos de WhatsApp de alunos da faculdade. “Puxa uma lista aí. Vai botando os nomes”, respondeu outro. Houve ainda quem afirmasse que começaria a marcar os “encubadinhos”, em referência a colegas que não declaravam publicamente suas preferências políticas.

Em uma conversa após a vitória de Lula, um aluno xingou docentes identificados com o PT. “Esses professores petistas”, escreveu, antes de acrescentar: “Nojento” e “Tenho nojo”. Segundo uma fonte ouvida pelo ICL, alguns professores também se sentiram intimidados. Nenhum deles se manifestou publicamente até então.

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