Banco paraguaio simulou venda de carteira de US$ 74 milhões com recursos próprios

MP aponta operação financeira simulada para ocultar situação patrimonial do Ueno Bank; crise levou à prisão de dirigentes e atingiu jogadores da seleção paraguaia
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Por Fernando Narazaki e Douglas Gravas

(Folhapress) – O Ministério Público do Paraguai afirmou que o Ueno Bank simulou a venda de uma carteira de créditos de empresas ligadas à instituição financeira por mais de US$ 74,4 milhões com dinheiro vindo do próprio banco.

Segundo o jornal paraguaio Última Hora, o banco decidiu se desfazer das empresas MOWI, Grupo Hendy, Grupo M, Tuiu, Franede e Aime após ser investigada pela Procuradoria e sofrer pressão da Superintendência dos Bancos. As empresas eram vinculadas ao Ueno e são investigadas por conceder créditos irregulares.

O Ministério Público afirmou que o banco optou por forjar a venda de uma carteira que era composta por créditos que o Ueno Bank havia concedido para o Grupo Hendy, Grupo M e MOWI, e que aguardava o pagamento. A carteira somava um total de US$ 74,4 milhões, de acordo com o Banco Central do Paraguai.

A carteira foi adquirida pela Vinanzas SA, empresa que posteriormente o MP apurou que também pertencia ao Ueno Bank, em 15 de junho deste ano. Porém, segundo a investigação feita pelo MP e pelo Banco Central, o Vinanzas tinha apenas US$ 93,8 mil de saldo um dia antes de realizar a operação milionária.

Para viabilizar a compra da carteira de crédito junto ao Ueno Bank, o Vinanzas recebeu um aporte de US$ 76,06 milhões em 15 de junho. Horas depois, a empresa adquiriu a carteira de US$ 74,4 milhões do Ueno Bank.

De acordo com o jornal Última Hora, os créditos vieram de empresas que receberam financiamento do próprio Ueno entre 11 e 15 de junho. No dia 11, o banco repassou US$ 10 milhões para a Technoma e outros US$ 10 milhões para a La Tropa Fletes. Quatro dias depois, foram liberados US$ 35 milhões para a HD Invest, US$ 20 milhões para a Satec e US$ 6,8 milhões para a Factopar.

De acordo com as informações publicadas pelo Última Hora, o dinheiro da HD Invest e da Satec foi encaminhado diretamente para a Vinanzas. Já as outras empresas, que seriam “laranjas”, repassaram o dinheiro para outras companhias, incluindo o Grupo Vázquez (sócio majoritário do Ueno Bank), que por sua vez transferiram as quantias para a Vinanzas, que pôde assim juntar o montante para adquirir a carteira vendida pelo Ueno.

“Essa situação impediria conhecer o estado real de sua situação patrimonial, uma vez que sua carteira teria sido adquirida pela própria instituição financeira”, afirmou o MP.

O escândalo levou o Banco Central a determinar o fechamento das agências do Ueno Bank. O Banco Central do Paraguai informou que garantirá depósitos de até o equivalente a cerca de US$ 38 mil (R$ 208,48 mil) por cliente.

Segundo o Último Hora, o Banco Central informou na noite de quarta-feira que os clientes receberão um pagamento antecipado do Fundo Garantidor de Depósitos. Os valores começarão a ser depositados nesta quinta-feira e devem ser concluídos em até cinco dias úteis. Anteriormente, a autarquia havia estabelecido um prazo de até 15 dias úteis.

A equipe de intervenção do Banco Central também afirmou que os funcionários do Ueno Bank receberão o pagamento das verbas rescisórias, mas não divulgou prazo.

Decisão sobre oito presos

Oito pessoas ligadas ao Ueno Bank foram presas sob suspeita de envolvimento na fraude e mais 19 pessoas de outras empresas citadas no esquema são investigadas. Segundo o jornal ABC Color, o Juizado Penal de Garantias Especializadas em Delitos Econômicos devem ser ouvidas em audiência nesta quinta, que deve determinar se os oito presos continuarão detidos.

Entre as pessoas presas estão o presidente do banco, Juan Manuel Gustale Cardoni, o fundador e primeiro vice-presidente, Federico Miguel Vázquez Villasanti, e a segunda vice-presidente, Diana Leticia Mongelós González.

Foram presos ainda Julio Daniel Rey Fernández (ex-segundo vice-presidente), Diego Fernando Duarte Schussmuller (ex-integrante do conselho de administração do Banco Central do Paraguai), Alejandro Gómez Abente (diretor principal do Ueno Bank), Mariana Torres (ex-diretora-geral do Ueno Bank) e Miguel Ángel Almada Frutos (presidente do Grupo Vázquez).

Eles são acusados de conduta indevida em situações de crise, abuso de confiança, tentativa de fraude e por violar a exigência de manter livros contábeis.

Em entrevista coletiva, o advogado do presidente do banco, José Fernández Zacur, afirmou que seu cliente desconhecia as supostas operações irregulares. “Não sei se vítima é a palavra certa, mas posso afirmar que ele desconhecia completamente a natureza independente das empresas. O presidente não é responsável por definir ou determinar quem é o beneficiário dos empréstimos”, disse.

Protestos com bomba no Paraguai

Houve registros de protestos na noite de quarta nas ruas de Assunção por causa do escândalo do Ueno Bank. Os manifestantes pediram o impeachment do presidente do Paraguai, Santiago Peña, que foi investidor da holding do Ueno Bank até março de 2025.

Segundo o jornal ABC Color, a Polícia Nacional usou spray de pimenta e balas de borracha para conter os protestos. Os policiais também usaram jatos de água para dispersar a multidão. Não há informação de detidos ou feridos.

Banco teve rápido crescimento

Fundado como fintech em 2021, o Ueno obteve rapidamente uma licença bancária e afirmava ter conquistado mais de 60% dos adultos paraguaios como clientes, mais que qualquer outro banco. Abriu dezenas de agências luxuosas e fez uma campanha de marketing onipresente, que incluiu o patrocínio da seleção nacional de futebol.

Controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, o banco tem cerca de 3 milhões de clientes. Cresceu de uma fintech local de nicho para um banco de médio porte, em trajetória semelhante à de fintechs como Monzo e Nubank.

O governo de Peña também supervisionou um aumento do dinheiro público depositado no Ueno, que chegou a mais de US$ 850 milhões (R$ 4,66 bilhões), equivalente a quase um terço dos depósitos do banco. O presidente havia minimizado repetidamente as preocupações com o banco.

Nos últimos meses, o Ueno enfrentou o escrutínio de reguladores e da imprensa por supostos empréstimos excessivos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, o que preocupou investidores e pesou sobre os títulos do banco com vencimento em 2031 e sobre os títulos soberanos do Paraguai.

Segundo o Financial Times, o banco realizou em março a maior emissão de títulos corporativos da história do país, mas as ações caíram bruscamente desde então. No mês passado, a agência Fitch revisou para negativa a perspectiva da nota de crédito de longo prazo do Ueno, citando “crescimento acelerado do balanço e altos ativos intangíveis”.

Jogadores da seleção do Paraguai também foram afetados pela crise

A crise do Ueno Bank também atingiu jogadores da seleção paraguaia de futebol. Em carta divulgada nesta quarta-feira (4), os atletas afirmaram estar entre os prejudicados pela intervenção na instituição financeira e cobraram providências do governo e da Justiça para responsabilizar os envolvidos.

O documento foi compartilhado nas redes sociais por Gustavo Gómez, capitão do Palmeiras e da seleção paraguaia, além de outros atletas que atuam no futebol brasileiro, como Maurício e Ramón Sosa, do Palmeiras, Fabián Balbuena, do Grêmio, Damián Bobadilla, do São Paulo, e Isidro Pitta, do Red Bull Bragantino.

Apesar de também terem sido afetados, os jogadores afirmaram que a prioridade deve ser a proteção das famílias de menor renda que mantinham suas economias no banco. Segundo o jornal paraguaio ABC Color, dez atletas da seleção estudam apresentar uma ação coletiva contra a instituição.

Na carta, os jogadores exigem uma resposta imediata das autoridades e afirmam que poderão recorrer individualmente à Justiça para recuperar eventuais prejuízos.

Leia a íntegra da carta divulgada pelos jogadores da seleção paraguaia:

“Somos jogadores da seleção paraguaia de futebol, mas acima de tudo, somos paraguaios. Filhos dessa terra que amamos.

E hoje, como paraguaios, antes de sermos jogadores de futebol, sentimos a necessidade de falar de coração aberto e sem rodeios, ante a crise financeira que está castigando o nosso país.

Isso nos causa profunda dor. Dói ver milhares de famílias atravessando angústia, incerteza e preocupação. Ver o nosso povo preocupado em chegar ao fim do mês, com seu trabalho, com o futuro de seus filhos. Atrás de cada número há pessoas, famílias, sonhos e toda uma vida de esforço que merece respeito.

Queremos que saibam com clareza: nós também fomos vítimas desta situação, assim como muitas famílias paraguaias. Compartilhamos a mesma indignação, a mesma preocupação e a mesma dor que hoje afeta tantos compatriotas.

Mas neste momento, a maior preocupação não é conosco.

Nossa prioridade absoluta deve ser o povo trabalhador. Aqueles que tinham as economias de toda uma vida investidas lá. As pessoas com menos recursos que hoje estão em total vulnerabilidade. São elas que precisam de mais apoio e que devem estar em primeiro lugar ante qualquer medida que seja tomada.

Por isso, hoje não falamos de futebol, falamos como povo.

Exigimos firmemente que o governo e a Justiça atuem de forma imediata, transparente e sem distinção. Necessitamos de uma resposta contundente. Não se pode titubear quando está em jogo o esforço de tanta gente decente.

Por meio do esporte, nós saímos de campo todo dia para mostrar ao mundo nossos valores, garra e identidade paraguaia. Trabalhamos duro para deixar no lugar mais alto a bandeira do nosso país e honrar o nosso povo. Não é justo, nem vamos permitir, que ações de poucas pessoas indefensáveis manchem a reputação de todo o Paraguai.

A Justiça deve atuar com força, punir os responsáveis. O povo paraguaio é solidário, honesto e trabalhador, merece que suas instituições estejam à altura.

Quanto à nossa situação pessoal, dizemos com clareza: cada um de nós vai avaliar de maneira individual as ações legais correspondentes, caso tenhamos sido afetados. Não vamos olhar para o outro lado, vamos defender o que é nosso, como é de direito, baseados na lei.

Ser paraguaio não é apenas vestir a camisa da seleção, é não abandonar o seu povo quando ele mais precisa.

Força para todos aqueles que foram prejudicados, estamos com vocês.

O Paraguai já se reergueu muitas vezes e também vai se reerguer desta vez, unido, com trabalho, com dignidade e de cabeça erguida.”

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