Pós-eleição, Brasil vê mais espaço para investigação contra família Bolsonaro nos EUA

Mauro Vieira e Marco Rubio se encontrarão na próxima semana; Brasil espera normalização e pragmatismo na relação bilateral
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A derrota de Donald Trump nas eleições desta semana é também uma derrota para o espaço político da família Bolsonaro nos EUA. A avaliação de membros do governo brasileiro é de que, com a onda democrata no Congresso, um dos abalos pode ser o enfraquecimento da capacidade da extrema direita brasileira de conseguir apoios que sejam traduzidos em ações contra o país.

Com uma maioria de democratas na Câmara de Deputados e Senado, Eduardo Bolsonaro e outros interlocutores podem ter mais dificuldades para encontrar porta-vozes no Legislativo americano e que, ao longo dos últimos meses, foram considerados como “caixas de ressonância” das posições bolsonaristas.

Mesmo deputados republicanos da Flórida que conseguiram se manter em seus cargos tiveram dificuldades para serem reeleitos. A consequência pode ser a perda de espaço político para a extrema direita brasileira.

O protagonismo, na avaliação do governo brasileiro, muda de lado e com a oportunidade de que os democratas pressionem por investigações, inclusive sobre a família Bolsonaro.

Outro impacto foi a derrota dos republicanos no Texas, estado onde Eduardo Bolsonaro se fixou nos EUA. O governo Lula espera que haja maior disposição para uma potencial investigação sobre o destino do dinheiro usado supostamente para financiar o filme Dark Horse.

O Ministério da Justiça chegou a fazer um pedido de cooperação, que jamais foi respondida pelos EUA.

O governo brasileiro, porém, não vê espaço no curto prazo para uma retirada de vistos para a família Bolsonaro. A projeção é de que isso apenas poderia ocorrer depois da eleição presidencial em 2028 e no caso de uma vitória dos democratas.

Normalização possível?

O governo brasileiro ainda aguarda para entender impacto da derrota de Trump na política externa para a região. Um dos riscos, porém, pode ser uma retomada da ofensiva dos EUA na América Latina, inclusive contra Cuba.

Mas, na relação com o Brasil, a esperança é de que possa existir um espaço para uma normalização das relações bilaterais. Nos dias 9 e 10 de novembro, o chanceler Mauro Vieira se reunirá com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. O encontro ocorrerá em Paris, às margens do G7.

A tendência seria a normalização da relação e um pragmatismo. A avaliação do governo Lula é que a motivação para o assédio contra o Brasil vinha da possibilidade de influenciar o resultado da eleição no país. Com o voto superado e a vitória de Lula, a esperança é de que haja uma acomodação.

Primeiro teste: vistos e embaixadores

O primeiro teste para essa normalização seria a retomada do fluxo de funcionários, embaixadores e ministros de ambos os países. A previsão é de que, no encontro na semana que vem, um primeiro gesto seja a avaliação da aprovação do embaixador dos EUA no Brasil, Daniel Perez.

Para isso, porém, o governo brasileiro insiste que precisa haver um fim para a “Guerra Fria de vistos”. Ou seja: o fim de sanções contra a embaixadora brasileira em Washington e a retomada de vistos para ministros e autoridades nacionais nos EUA. A meta do Brasil é a de retomar o acesso desimpedido de funcionários e ministros.

Mas, para que haja essa normalização e a autorização do fluxo de embaixadores, o Brasil espera que Donald Trump deixe de questionar os resultados da eleição de Lula. Para Brasília, isso cria “ruído” no esforço de normalização.

O Brasil não espera que Trump faça uma retratação. Mas apenas que deixe de falar do assunto. Se isso ocorrer, o caminho está colocado para uma normalização.

Acordo comercial

Outro passo seria a retomada do acordo comercial com os EUA e uma redefinição de tarifas. O Brasil aguarda um rascunho de um pacto e a esperança é de que Trump suavize suas barreiras, diante do impacto que elas tiveram para o custo de vida dos americanos.

Na eleição nesta semana, os republicanos foram sancionados por conta justamente do custo de vida para milhões de americanos. Retirar as tarifas, portanto, pode ser um caminho.

O Brasil, porém, não aceitará qualquer acordo e vai insistir que precisa de um entendimento equilibrado. Para a diplomacia brasileira, se não houver espaço para uma negociação, não se descarta esperar dois anos até um eventual novo governo americano.

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