Por Claudia Guadagnin*
Ouvi a arara antes de vê-la. Foi em uma tarde de outubro, em Curitiba. A vocalização vinha de um apartamento, alguns andares acima da rua. Ao olhar para o prédio, avistei a ave de plumagem azul e amarela junto a uma abertura protegida por tela. Mais ao fundo, havia outras aves, também confinadas.Uma agonia profunda me preencheu. A liberdade é um dos valores mais preciosos da minha vida: poder escolher caminhos, ir e vir, decidir onde ficar. Diante daquela tela, pensei no quanto esse valor também deveria orientar nossa relação com os outros animais.
Não conheço a origem daquela arara e das outras aves, seus responsáveis ou o espaço ao qual elas têm acesso. A fotografia que fiz não permite afirmar que exista crime ou maus-tratos. Ainda assim, continuei pensando nelas depois de seguir meu caminho. No céu sobre a cidade. Na tela diante daquela abertura. E no quanto ainda é comum vermospássaros em lugares dos quais eles não podem sair.
Como jornalista que trabalha com a defesa do meio ambientehá quase 20 anos, essa cena me mobiliza. Acredito que precisamos construir um futuro em que animais silvestres deixem de ser adquiridos como companhia, sem abandonar aqueles que já dependem de nós.
O que a compra não responde
No Brasil, determinados animais silvestres podem ser adquiridos legalmente de empreendimentos autorizados. A documentação importa: integra o controle de sua origem. Mas não demonstra, por si só, se a vida oferecida atende às necessidades daquela espécie.
A Constituição protege a fauna e proíbe a crueldade. A Lei de Crimes Ambientais pune a guarda irregular e os maus-tratos. Mas essas são questões distintas: a procedência regular não afasta a possibilidade de sofrimento.
E sofrimento nem sempre aparece como uma ferida. As necessidades comportamentais, psicológicas e ambientais fazem parte das referências técnicas para prevenir e identificar maus-tratos.
Sei que muitas dessas relações são construídas com afeto. Há pessoas que cuidam, conversam e reconhecem naquele animal uma companhia importante. Justamente por levar esse vínculo a sério, acredito que precisamos examiná-lo. Amar também exige aprender sobre aquilo de que o outro precisa, inclusive quando isso nos obriga a rever uma escolha.
Na Suíça, a manutenção particular de grandes araras exige autorização e comprovação de conhecimentos, além de condições de espaço e convivência social. A autoridade veterinária esclarece que a companhia humana não substitui o contato entre aves da própria espécie.
No Equador, o caso Estrellita trouxe outra dimensão. A macaca viveu 18 anos em uma residência e morreu após ser apreendida e encaminhada a um zoológico. Em 2022, a Corte Constitucional reconheceu os animais silvestres como sujeitos de direitos e protegeu seu comportamento natural. Também identificou falhas na intervenção estatal, sem estabelecer que elas tivessem comprovadamente causado a morte.
Essas experiências nos convidam a considerar a vida do animal tanto nas escolhas particulares quanto nas decisões de quem deve protegê-lo.
Mudar sem abandonar
Defendo que, no médio e longo prazo, o Brasil proíba e criminalize a aquisição e a manutenção de animais silvestres para companhia, alcançando também a reprodução e a comercialização destinadas a esse uso. Essa mudança deve preservar hipóteses autorizadas de resgate, reabilitação, acolhimento e conservação.
É uma proposta de mudança legislativa, com transição responsável, educação e fiscalização. Se efetiva, poderá reduzir a demanda e, ao longo do tempo, a necessidade de resgatar e acolher novos animais. Os interesses comerciais envolvidos precisam ser examinados à luz das necessidades dos animais e dos objetivos de conservação.
Para aqueles que já dependem de cuidados humanos, entretanto, a responsabilidade é imediata.
Os Centros de Triagem de Animais Silvestres, os Cetas, recebem, avaliam, tratam e encaminham animais apreendidos, resgatados ou entregues voluntariamente. O objetivo principal é devolvê-los à natureza. Quando isso não é possível, o cuidado pode durar décadas — muito depois de a apreensão deixar de ser notícia.
Precisamos investir nesses centros e nas instituições habilitadas que recebem animais sem condições de soltura. O Parque das Aves, no Paraná, a Associação Mata Ciliar, em São Paulo, e o Instituto NEX, em Goiás, são exemplos desse trabalho.
Reconheço as limitações de recursos e as graves carências que o país precisa enfrentar no atendimento à população. Por isso, essa política exige prioridades e continuidade. É necessário conhecer a demanda, as vagas e as dificuldades de cada região, financiar equipes e manutenção e acompanhar as condições de vida dos animais.
O apoio público às instituições deve respeitar sua natureza jurídica e suas autorizações, com prestação de contas e avaliação dos resultados. Empresas, universidades, organizações e cooperação internacional podem somar recursos e conhecimentos. A responsabilidade do Estado brasileiro permanece.
Aprender a conhecer sem possuir
A mudança também começa naquilo que ensinamos às crianças sobre um passarinho.
Nas escolas, a educação sobre o sofrimento físico e psíquico dos animais pode caminhar com a observação de aves, o reconhecimento de seus cantos e a descoberta das relações que sustentam a vida nas áreas naturais.
Para os adultos, campanhas permanentes devem explicar as diferenças entre animais domésticos e silvestres, as consequências da captura e da compra e os caminhos para resgate e entrega voluntária. Muitas pessoas reproduzem práticas aprendidas em família. Precisam encontrar informação e alternativas para revê-las.
Conhecer uma ave em liberdade pode ensinar uma forma de proximidade que dispensa a posse.
Essa liberdade, porém, exige condições para existir. Animais criados em domicílios não devem ser simplesmente soltos. Cada destinação precisa considerar o indivíduo e a capacidade real de quem o receberá. A reabilitação deve caminhar com a conservação dos habitats e o acompanhamento das solturas.
Volto à arara que vi da rua. Não conheço sua história nem posso presumir o resultado de uma fiscalização. Mas sei o futuro que gostaria de ajudar a construir.
Quero um país em que crianças aprendam a reconhecer o canto de uma ave olhando para as árvores. Em que o cuidado com um animal silvestre tenha como horizonte sua liberdade. E em que, quando isso já não for possível, exista uma rede preparada para lhe oferecer a melhor vida que ainda podemos assegurar.
Antes de perguntarmos quanto custa ter uma arara, deveríamos perguntar o que custa a ela viver conosco.
*Claudia Guadagnin é jornalista, pós-graduada em Antropologia e mestra em Direitos Humanos e Políticas Públicas.