Está escrito nas leis que as polícias existem para proteger os cidadãos contra aqueles que cometem crimes. Em alguns recantos do Brasil, no entanto, as autoridades policiais cumprem o papel inverso à determinação legal: provocam a insegurança, o medo e a morte a quem não cometeu crime algum. As vítimas dessa distorção têm o perfil conhecido. Invariavelmete são pobres, em sua maioria são pretos.
Um exemplo dessa disfunção ocorreu nesta sexta-feira (24), no Complexo do Alemão. A pretexto de atacar quadrilhas que praticam roubos de veículos e de cargas, a polícia do Rio empreendeu a “Operação Torniquete”, com 500 policiais. A estratégia canhestra daqueles que deveriam ser as forças da lei não pareceu levar em conta a inteligência.
Tratou-se apenas de despejar uma chuva de tiros e granadas que não parece ter abalado os grupos criminosos que ocupam o local. Mas durante 15 horas os agentes transformaram em inferno o cotidiano da imensa maioria de cidadãos inocentes que moram na favela.
Casas de trabalhadores foram destruídas pelas explosões, paredes de residências ficaram perfuradas como peneiras pelos tiros, que perfuraram até mesmo os móveis e as paredes internas.
Como resultado, cinco pessoas foram mortas e ao menos nove ficaram feridas.
O jardineiro Carlos André Vasconcellos dos Santos foi morto por um tiro perto do BRT da Penha. Ele tinha 35 anos e estava tomando café quando foi ferido. Um menor de idade, de 16 anos que, também foi baleado e morto. Um idoso de 67 anos identificado como Geraldo Carlos Barbosa dos Reis, foi baleado, levado para a UPA do Alemão e não resistiu. Um homem de 53 anos, ainda não identificado e um homem de 21 anos, identificado como Ryan Muniz de Oliveira também morreram.
O policial militar Diogo Marinho Rodrigues Jordão, do Batalhão de Choque, foi baleado e levado para o Hospital Getúlio Vargas. Até o início da tarde, ele estava em estado gravíssimo.
Mais um dia de operações e caos no rio. Dessa vez (novamente) no complexo da penha e cpx do alemão…
Mas afinal, de que importa, né??
OLHA ESSA PRAIA
AQUI É A CIDADE MARAVILHOSA
🤪😜CHUPA SÃO PAULO🤪😜
pic.twitter.com/U0KO9SOPkkhttps://t.co/n1v7CgfuFw pic.twitter.com/k6jynh0ycE— Milionário Cirista (@PropostasCiro) January 24, 2025
Moradores filmaram o interior de becos da favela. Diversos projéteis deflagrados aparecem em um vídeo publicado nas redes sociais.
Outros feridos no tiroteio no RJ
Uma moradora que estava deitada com o filho na cama foi ferida na cabeça. Ela foi socorrida por vizinhos para o Hospital Getúlio Vargas e recebeu alta. Outro morador identificado como Wander, de 21 anos, foi atingido dentro de casa e está internado no Getúlio Vargas, com quadro de saúde estável. Uma moradora ferida no joelho foi atendida no HGV e tem quadro estável. Outra moradora identificada como Nathalicia foi atingida no braço perto do hospital, ao lado do filho. Ela tem quadro estável. Um homem de 61 anos, levado para a UPA do Alemão, foi atendido e liberado. Além desses, mais feridos foram levados para a UPA do Alemão.
Ver essa foto no Instagram
Em vídeo publicado pelo Voz das Comunidades, um morador relata que granadas foram lançadas na casa dele. Jeronimo Gomes da Silva, de 44 anos, disse que uma granada foi lançada por um drone dentro de sua residência. “Jogaram uma granada de um drone na minha varanda, acabou com minha casa. Quase morremos aqui, eu e a minha família”, conta.
🚨Além dos danos psicológicos, as operações também deixam marcas materiais.
No Complexo do Alemão, uma moradora relata que um tiro entrou no quarto e sua televisão foi queimada. pic.twitter.com/dWjYR6yezG
— Voz das Comunidades (@vozdacomunidade) January 24, 2025
Tiroteios e facções nas favelas
Os complexos do Alemão e da Penha são áreas grandes no Rio de Janeiro e bairros considerados “quartéis-generais” do Comando Vermelho (CV). As investigações apontam que as quadrilhas dos complexos agem em diferentes tipos de ações criminosas. O Alemão, por exemplo, teria mais força financeira, enquanto a Penha seria o local das tomadas de decisões.
Na Penha, o nome mais forte é Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, apontado como um dos principais chefes do CV e um dos bandidos mais procurados do Rio. Na hierarquia do tráfico, ele está apenas abaixo de Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, preso há mais de 30 anos.
pic.twitter.com/U0KO9SOPkkhttps://t.co/n1v7CgfuFw pic.twitter.com/k6jynh0ycE
— Milionário Cirista (@PropostasCiro) January 24, 2025
Para capturar os chefões do crime que estão aninhados no Alemão e criar mínima dificuldade para essas quadrilhas, somente um trabalho de inteligência pode trazer resultados positivos. Algo bem diferente do que foi feito nesta sexta-feira.
Houve apreensão de uma tonelada da droga, mas nenhum morador do Rio de Janeiro tem a ilusão de que neste sábado (25) a venda de enttorpecentes tenha sido interrompida.
A boca, certamente, voltará a funcionar.
Mas as vidas dos moradores inocentes que tiveram suas casas metralhadas, que ficaram feridos ou que tiveram parentes e amigos mortos nessa operação nunca mais voltarão a ser as mesmas.