O discurso da servidão

A linguagem arrogante da nova administração norte-americana corrompe as regras mínimas de cordialidade, próprias da diplomacia e do respeito mútuo entre os povos
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Sermões, padres e bíblias. E um chefe de Estado salvo por Deus para restituir à América a grandeza perdida. Subitamente, sentimo-nos regressados ao mundo encantado da teologia política, deitando para fora da história a separação entre religião e Estado, entre política e fé, princípio que há muito carateriza a nossa civilização ocidental.

Os dirigentes europeus, desorientados, fingem que não percebem o que aconteceu naquela tomada de posse. É preciso cabeça fria, dizem. É preciso racionalizar, é preciso saber exatamente o que pretende o novo presidente, é preciso pôr de lado a retórica e aguardar a ação concreta — e aqui reside a parte grotesca de todo o espetáculo: a Europa tenta levar a sério o ridículo.

O discurso do novo presidente afirma a nova política externa americana na sua nudez absoluta — a leviana exibição da potência imperial: poder e força, nada mais. Nada que se possa assemelhar a uma qualquer condição de direito ou de justiça nas relações internacionais. Nada, só interesse e cobiça.

As tarifas são anunciadas como se fossem uma espécie de tributo imperial. Como se o resto do mundo devesse pagar o excepcionalismo americano, que veio ao mundo para nos indicar o caminho da salvação — a “city upon a hill”. Os primeiros alvos são os mais fáceis e os mais despreparados — os próprios aliados. A Europa não pode ter um excedente comercial com os Estados Unidos nem as suas empresas podem ser mais competitivas do que as americanas.

O livre comércio e as regras comerciais, que era suposto regularem o jogo econômico mundial, são válidas apenas para os súditos, não para os mestres do mundo. O consumidor europeu deve escolher de acordo com as relações de poder entre estados, não de acordo com as suas preferências sobre o que é melhor ou o que é mais barato.

Que diz a Europa? Olhem para isto: a senhora presidente do Banco Central Europeu diz que as tarifas de Trump representam “uma abordagem muito inteligente”. Sinceramente, não sei o que é pior: se as palavras de Trump, se a reação servil da Europa às palavras de Trump.

A linguagem arrogante da nova administração norte-americana corrompe as regras mínimas de cordialidade, próprias da diplomacia e do respeito mútuo entre os povos. Já nada conta, senão a exibição pueril da força, da brutalidade e do poder.

Elon Musk, futuro membro do governo americano, afirma que só a extrema direita pode resolver o problema da Alemanha e que o governo de esquerda inglês é cúmplice de violadores, sendo “a guerra civil inevitável em Inglaterra”. Perante isto, a senhora presidente da Comissão Europeia diz que “deseja negociar e colaborar”.

Para quem não quer ser tomado por idiota, há um aspecto que não passa desapercebido — Elon Musk está apenas a dizer em voz alta o que os americanos pensam de nós. Ele, simplesmente, verbaliza o desprezo que os americanos sentem pela nossa atitude de servidão.

O assunto da Groenlândia é obsceno. Não há outra forma de o classificar senão como indigno. E, no entanto, o presidente americano insiste no tema e reivindica para o seu país um território que é europeu. O presidente do Conselho Europeu que, antes da posse, começou por dizer que “devemos ouvir o que Trump tem a dizer”, termina agora a dizer que os “Estados Unidos são amigos e aliados da Europa”.

Eis, portanto, a inacreditável situação política — a potência hegemônica mundial quer colocar sob sua
soberania um território que pertence a um país amigo e aliado. Não, não é a Rússia que ameaça a conquista de um espaço europeu, mas os Estados Unidos.

Confesso que me vai faltando a paciência para ouvir o discurso da sujeição europeia e para assistir a
um fingimento que já foi longe demais — esta atitude americana tem um impacto completamente destrutivo nos mecanismos de confiança da aliança militar da OTAN.

Que confiança podemos ter no artigo 5º, e na defesa mútua assegurada em caso de agressão, se a liderança militar da aliança se comporta desta forma com um aliado, a Dinamarca? Até quando vamos ignorar o que está à vista de todos? A Europa já foi o parceiro júnior dos Estados Unidos. Já foi o soft power do Ocidente. Já foi o ator político em que quem o mundo podia confiar na defesa da paz, do diálogo, do direito internacional.

Agora, chegamos a isto — a potência hegemônica mundial deseja ocupar um território que pertence a um aliado europeu, enquanto nos dá importantes conselhos de como devemos votar e de como nos devemos comportar. Quem haveria de dizer que as palavras-chave para o futuro europeu seriam a independência e a
autonomia estratégica? Quem haveria de dizer que a Europa precisaria de defender a sua soberania?

A América Latina, a cujos cidadãos se destina este texto, olhará certamente para os europeus com o sorriso histórico de condescendência — conhecemos esse sentimento, mas, por favor, portem-se com dignidade. Por favor, não rastejem.

P.S.: Acabo de ver a imagem dos deportados brasileiros algemados de pés e mãos. A nova imagem deste novo ano, deste novo mundo. Que horror.

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