Desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou o pacote batizado de “tarifas recíprocas”, em 2 de abril, naquele que ele chamou de “grande dia!”, a entrada de alguns produtos chineses no Brasil, como eletrônicos, saltou 40%, segundo relatos de algumas empresas a reportagem do jornal O Globo.
Isso porque a China foi o país mais atingido pelo pacote tarifário, com alíquotas que chegavam a 145%. Em resposta, o governo chinês anunciou sobretaxas de 125% a produtos importados dos EUA.
Em meio à guerra deflagrada por Trump, o gigante asiático buscou outros parceiros comerciais para aonde escoar sua produção, e o Brasil está entre eles. A China é o maior parceiro comercial do Brasil.
Pressionado por empresários e por uma taxa de popularidade em queda, Trump decidiu negociar com os chineses. No fim de semana (10 e 11), representantes dos dois governos se sentaram para negociar em Genebra, na Suíça. Na segunda-feira (12), anunciaram que ficou acordada uma trégua de 90 dias entre ambos e uma redução de 115% nas alíquotas. A partir daí, produtos chineses comprados dos EUA terão uma alíquota de 10%, enquanto a China pagará 30%.
Contudo, enquanto não conversavam, os 30 dias da guerra comercial entre os dois maiores PIBs do mundo desorganizou as cadeias globais. No caso brasileiro, empresas de logística e importadores contaram à reportagem de O Globo terem notado crescimento no volume de envios da China para o Brasil nesse período, com ofertas mais atraentes e vendedores chineses mais interessados no mercado brasileiro.
Entre as empresas entrevistadas pela reportagem está a Anjun Express, transportadora chinesa que atende desde pequenos vendedores até as gigantes do do comércio eletrônico Shein e Temu. Nessa empresa, o volume de remessas aumentou de 17% a 20% em abril, na comparação com março. Porém, em alguns produtos, como eletrônicos, o transporte saltou 40% no período.
Representantes de empresas entrevistados pela reportagem perceberam o interesse crescente na América Latina e, mais especificamente, no Brasil, depois do tarifaço.
Secretária de Comércio Exterior vê como positivo acordo do governo Trump
A secretária de Comércio Exterior do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Tatiana Prazeres, disse ao O Globo que o acordo entre China e Estados Unidos é positivo para o Brasil, para que não ocorra desvio de comércio chinês para o país, o que prejudicaria as indústrias brasileiras.
“O entendimento entre Estados Unidos e China é algo positivo para a economia global, para o comércio internacional e para o Brasil. Do ponto de vista do Brasil, em particular, o entendimento entre os dois mitiga o risco de desvio de comércio do Brasil”, disse.
Na avaliação dela, a fórmula encontrada deve reduzir a pressão por desvio de comércio, o que não era possível com as tarifas anteriores ao acordo.
Setores como os de calçados e confecções estão preocupados com invasão de produtos chineses no Brasil.
“Na nossa visão, os ganhos associados a um entendimento entre China e Estados Unidos, é um arrefecimento dessas tensões comerciais. É mais positivo do que negativo para o Brasil, sem dúvida alguma”, afirmou.
Para o economista e fundador do ICL (Instituto Conhecimento Liberta), Eduardo Moreira, o acordo não resolve a tensão. “Ninguém pode fazer um planejamento de longo prazo com uma incerteza desse tamanho na mesa”, afirmou Moreira, durante participação na edição da segunda-feira (12) do ICL Notícias 1ª edição.
Ontem, o presidente em exercício, Geraldo Alckmin, também comemorou o acordo. “É muito bom que haja um entendimento entre Estados Unidos e China, os dois maiores PIBs do mundo, economias importantíssimas. O governo do presidente Lula defende o multilateralismo e o livre comércio. O comércio exterior é emprego e renda, e quem ganha é a população”, afirmou.
Acordo Brasil-EUA
Ao O Globo, Tatiana Prazeres comentou que as negociações entre Brasil e EUA transcorrem paralelamente aos acordos firmados pelos americanos com o Reino Unido e a China.
As exportações brasileiras de aço e alumínio receberam uma tarifa de 25% dos EUA e os demais produtos estão com uma sobretaxa de 10%.
“É importante que não haja prejuízo para o Brasil em decorrência de acordos que venham a ser firmados”, disse.
Assista ao comentário de Eduardo Moreira sobre o acordo EUA-China no vídeo abaixo: