Trump poderia dizer: O Brasil já me deu régua e compasso

Imigrantes sul-africanos brancos nos Estados Unidos
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Era uma vez um grande país todo construído com mão de obra de pessoas consideradas inferiores pela elite dominante. Uma massa tão grande e movedora da economia, que passou a assombrar este grupo que se via etnicamente superior, pois este contingente populacional começou a dar contornos “indesejáveis” àquele povo.

Então, uma ideia surgiu nas cabeças dirigentes: Que tal facilitar a entrada de imigrantes com o perfil que desejamos? Que tal substituir a mão de obra? Relegando o grupo indesejado ao degredo, à pobreza e/ou ao esquecimento, em menos de um século mudamos o país.

Os parágrafos acima são um resumo do Brasil do século 19, nos anos finais da escravização e início do trabalho assalariado. Um Estado que adotou um modelo eugenista (teoria que busca produzir uma seleção nas coletividades humanas, baseada em leis genéticas) de embranquecimento tão planejado que, segundo o antropólogo João Batista de Lacerda, representante brasileiro no Primeiro Congresso Universal das Raças, em 1911, a população negra seria praticamente inexistente no Brasil.

Este é um capítulo longo, pouco ou nada estudado nas escolas, desconhecido da maioria e vergonhoso, embora explicador e orientador de muitas das mazelas vividas pela população brasileira até hoje, pois o passado guarda quase todas as respostas para o que é vivido no presente. Nesta linha, guardadas as devidas proporções, a solução que “melhora” a população pela importação de pessoas com a “genética adequada” é algo que está em curso em pleno 2025, aqui no país vizinho.

A mídia está evitando ao máximo dar o nome de ditadura a um governo que persegue minorias, expulsa cidadãos, constrói prisões de segurança máxima para opositores, trata estrangeiros como criminosos perigosos, censura conteúdos, bane livros e palavras do vocabulário oficial, persegue qualquer expressão que exalte o pensamento e o estudo, fecha fronteiras. Qualquer país latino-americano com estes procedimentos já estaria relacionado a regimes ditatoriais.

No entanto, se para tão evidentes sinais da ausência de liberdade não se quer dar o nome correto, quanto mais para uma cínica, mal disfarçada e óbvia orientação racial na política sobre quem fica e quem sai daquele país. Medidas conectadas a um pensamento supremacista branco em atos e omissões. A palavra “racista” pesa toneladas e por isso nem todo mundo tem coragem de jogá-la nas costas de quem é poderoso, mas precisa carregá-la.

Os Estados Unidos da América já são um país majoritariamente branco, mas o serviço pesado, aquele que fere as mãos, os pés e o nariz, muitos de seus “arianos” cidadão não o fazem mais. A força imigrante ou estrangeira (Made in China, India, etc) é um fato e ele não dá “match” com as teorias de superioridade da branquitude na qual seus chefes não só acreditam, como militam ardentemente para verem implantadas dentro e fora de suas fronteiras.

A África, este continente conflagrado há 800 anos por conta da corrida que deu origem ao capitalismo, é complexa. Suas guerras e disputas internas são sobre disputa por suas incontáveis riquezas, mas principalmente sobre direito a própria história. A África do Sul teve um líder icônico — Nelson Mandela — por conta da luta contra um passado recentíssimo de torturas, mortes, prisões e chacinas dentro de um regime de apartheid, sistema de segregação que dava tudo aos descendentes de colonizadores — os africânders ou boêres— e nada aos seus cidadãos negros.

Uma história trágica e dolorosa com rancores ainda pulsantes e que não se conciliam por mágica. Um ambiente muito favorável para se cooptar pessoas dispostas a mudar de cenário, sinalizando ao mundo que há espaço para qualquer um que deseje recomeçar a vida na “terra da liberdade”. Qualquer um que não seja negro, latino, não branco. Qualquer um que se enxergue como o padrão a ser imitado e desejado pelo mundo.

Que o diga o Brasil dos anos 1800, que aboliu 380 anos de escravidão com uma lei de dois parágrafos e 14 palavras, esquecendo os herdeiros desta indignidade como se fossem lixo, na tentativa de substituí-los por mão de obra europeia. Este Brasil já sabia que o discurso de país das oportunidades e da meritocracia cola e dura o suficiente para que se atualize outra, outra e mais uma vez.

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