Agente da PF ligado à fraude no INSS aderiu à estratégia eleitoral de Bolsonaro em 2022

Investigado por envolvimento no esquema bilionário de fraudes, policial federal doou valor simbólico durante mobilização bolsonarista por Pix em 2022
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Por Cleber Lourenço

O agente da Polícia Federal Philipe Roters Coutinho, afastado do cargo por suspeita de envolvimento no esquema bilionário de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), aparece como doador da campanha de Jair Bolsonaro em 2022, segundo registros oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A descoberta adiciona uma nova camada de complexidade ao caso que envolve o uso indevido de estruturas do Estado e o desvio massivo de recursos de aposentadorias e pensões e indica que o agente também possa ter alguma identificação ideológica com o governo anterior.

A doação, no valor simbólico de R$ 1, foi realizada por meio de transferência via Pix em 12 de setembro de 2022. À época, bolsonaristas promoviam nas redes sociais uma mobilização por “doações patrióticas”, incentivando eleitores a enviarem valores mínimos como forma de engajamento político e também como parte de uma estratégia tresloucada de contagem de votos.

Na ocasião diversas mensagens circularam nas redes sociais pedindo que os apoiadores do ex-presidente fizessem doações como forma de auditoria do processo eleitoral. O movimento chegou até mesmo a ser objeto de uma nota do próprio TSE que desmentiu e negou que as transações pudessem ser utilizadas como método de fiscalização do sistema eleitoral.

Coutinho, então lotado no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, foi flagrado com US$ 200 mil em espécie durante operação da própria Polícia Federal, que investiga um suposto favorecimento a investigados envolvidos no esquema de fraudes contra beneficiários do INSS. A suspeita é de que ele teria atuado para facilitar o acesso de figuras centrais da organização criminosa a áreas restritas e a recursos logísticos da corporação.

INSS

Durante o cumprimento de mandados, além da apreensão do dinheiro vivo, foram recolhidos o celular e o computador do agente. Em imagens registradas por câmeras internas, Coutinho aparece conduzindo, por áreas de acesso exclusivo do aeroporto, o ex-procurador do INSS Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira e o empresário Danilo Bernt Trento, este último investigado pela CPI da Pandemia por sua participação em contratos públicos suspeitos de irregularidade.

As imagens também revelam que os três embarcaram em uma viatura da Polícia Federal, de uso reservado a operações oficiais. As circunstâncias da carona e o destino do deslocamento ainda são alvo de apuração. Segundo fontes com acesso à investigação, há indícios de que o transporte teria como objetivo evitar fiscalizações convencionais e garantir discrição às movimentações dos investigados.

O nome de Coutinho soma-se a outros ligados diretamente ao núcleo operacional do esquema, como o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, apelidado de “Careca do INSS”. Apontado como operador financeiro da rede de corrupção, Antunes também aparece como doador de R$ 1 à campanha de Bolsonaro, também no mês de setembro de 2022. De acordo com a Polícia Federal, ele é acusado de repassar R$ 9,3 milhões a servidores do INSS por meio de uma rede de empresas ligadas a entidades associativas com atuação suspeita.

O esquema, segundo os investigadores, consistia na filiação indevida de aposentados a essas entidades, com uso de assinaturas falsificadas. As associações então efetuavam descontos mensais diretamente nos benefícios, em muitos casos sem que os beneficiários sequer tivessem conhecimento da cobrança. As cifras envolvidas podem ultrapassar R$ 6 bilhões, movimentados entre 2019 e 2024.

A operação, batizada de “Sem Desconto”, já levou ao afastamento de diversos servidores públicos, incluindo o então presidente do INSS, além de prisões temporárias e bloqueio de bens.

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