Por Cleber Lourenço e Lucas Allabi
O centro de São Paulo vive uma reconfiguração urbana que começou com o desaparecimento abrupto das cenas de uso da cracolândia e agora avança sobre imóveis, comércios e espaços culturais consolidados. O sumiço da concentração de usuários nas regiões da Luz, Santa Ifigênia e Campos Elíseos não foi acompanhado de uma política pública estruturada, tampouco de alternativas de cuidado. Ao contrário, houve repressão, internações forçadas e desmontes de redes de apoio como serviços de saúde mental, centros de acolhimento e projetos sociais. A dispersão da população vulnerável marcou o início de uma nova etapa: a remoção acelerada de tudo que remete à presença de pobreza nesses territórios.
É nesse contexto que foi publicada, em 9 de abril de 2025, a Portaria SUB/SÊ nº 23, da Subprefeitura da Sé. O texto estabelece diretrizes específicas para a fiscalização de imóveis em quadras estratégicas da região central — 008, 009, 010, 016 e 017 — autorizando lacres, interdições e remoções administrativas sem necessidade de decisão judicial. A norma tem sido usada para fechar comércios, despejar moradores e iniciar reintegrações como a que ameaça o Teatro de Contêiner. Urbanistas e lideranças sociais apontam que a medida institucionaliza um regime de exceção que favorece a especulação imobiliária e a exclusão social.
A medida também consolida uma mudança na forma de gestão do espaço urbano. Em vez de diálogo e processos participativos, o que se vê é a intensificação de instrumentos administrativos e o enfraquecimento de garantias legais. Em entrevista à reportagem, Giordano Magri descreveu o contexto da portaria como parte de uma política urbana mais ampla, que teve início com a chamada Operação Caronte em 2022. No trecho em que fala sobre a mudança de orientação da Prefeitura, ele afirma que a portaria é “um instrumento que reforça uma política de desocupação territorial baseada na gestão técnica e na intervenção emergencial, sem mediação com a comunidade local”.

O vereador Nabil Bonduki afirmou que as ações de remoção na região central não são recentes, mas vêm sendo aprofundadas com o projeto de mudança da sede do governo estadual para a região da Luz e Campos Elíseos. “Há bastante tempo, a prefeitura e o governo do Estado estão tomando iniciativas para fazer uma espécie de limpeza nessa região”, disse. Ele destacou que parte significativa dos imóveis já foi adquirida por empresas quando a região estava deteriorada e que há expectativa de intensa valorização imobiliária: “Quem comprou antes vai ganhar muito dinheiro com essas mudanças.”
Gentrificação na região da Cracolândia
Bonduki também mencionou a demolição de dois quarteirões inteiros, o fechamento de cerca de 70 hotéis em 2024 e a repressão à Favela do Moinho, além de alertar para a expulsão da população de baixa renda: “A valorização vai tornar inviável a permanência de quem vive hoje na região.” Para o vereador, a retirada do Teatro de Contêiner, instalado desde 2016 e construído integralmente com recursos do coletivo que o gere, é mais um capítulo desse processo. “Não vejo motivo para a remoção do Teatro de Contêiner. O terreno é relativamente pequeno, não vai ser produzido ali muitas habitações.”

Bonduki recordou o episódio da demolição do Teatro Vento Forte, que só foi revertido após escândalo público, e afirmou que não quer repetir esse erro. “Vamos agir e nos antecipar a esse fato, dando apoio e intimando a Prefeitura a apresentar as razões efetivas dessa reintegração de posse.” Segundo ele, a portaria e as ações associadas revelam um projeto de gentrificação. “Nenhuma família deveria ser excluída. Essa é a nossa diretriz.”
No campo cultural, o caso mais emblemático é o do próprio Teatro de Contêiner. Instalado em um terreno público na rua dos Gusmões, o espaço foi construído com recursos próprios e se tornou polo cultural e ponto de referência para iniciativas comunitárias. Em entrevista, Léo Akio, um dos fundadores do teatro, relatou que o grupo foi surpreendido com um ofício da prefeitura dando 15 dias para a retirada do espaço, sem diálogo prévio. Disse ainda que o projeto sempre teve caráter público, recebendo programas como o Piá e o Vocacional, além de ser ponto oficial da Virada Cultural. Léo lamenta que, em vez de apoio ou regularização, o equipamento esteja sendo removido de forma sumária.

Ele afirma que o grupo não foi procurado para nenhuma reunião formal e que não houve apresentação de proposta de realocação. O terreno, segundo ele, é pequeno e não comportaria um projeto habitacional robusto, como alega a prefeitura. Por isso, vê na remoção uma tentativa de apagamento da cultura independente e das expressões comunitárias do centro.
Moradores e comerciantes da Santa Ifigênia e Luz relatam um clima de insegurança institucional. “Ninguém sabe quem é o próximo. A cada semana tem lacre novo, hotel fechado, loja esvaziada. E a maioria é de gente que estava aqui há décadas”, relata um comerciante que pediu para não ser identificado. “Já vi a fiscalização fechar três comércios na mesma calçada no intervalo de uma manhã. E todos tinham pedidos de regularização em andamento.”
Prefeitura fecha comércio
O gabinete do vereador Eduardo Suplicy, em nota à reportagem, informou “que estamos tendo é uma série de denúncias de fechamento de comércios pela prefeitura, coisa que já vem acontecendo há algum tempo em virtude do projeto do Governo do Estado de levar a sede para a região”.
Para Giordano Magri, que também analisou os impactos da dispersão das cenas de uso, a intensificação de instrumentos administrativos como a portaria atual agrava o processo de exclusão urbana. Em seu diagnóstico, o Estado está utilizando normas técnicas e dispositivos burocráticos para efetivar a remoção de populações historicamente marginalizadas do centro da cidade. Ele alerta que, sem debate público e sem oferecer alternativas concretas de permanência, a gestão pública contribui para apagar a história social do centro de São Paulo.
Magri também apontou que essas ações não afetam apenas pessoas em situação de rua, mas atingem comerciantes, artistas e moradores antigos que mantinham vínculos com o território. “Estamos assistindo à remodelação forçada do centro, com prejuízos profundos à diversidade e à função social da cidade”, afirmou em seu depoimento.