A tensão racial que só aumenta no Brasil

Os "casos isolados" que se amontoam diariamente
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Está na cara. A tensão racial ganha escala e ameaça as relações pessoais, institucionais e, em última análise, a democracia brasileira. Não dá mais para falar em casos isolados. Na realidade, nunca deu. Tudo está interconectado de uma maneira assustadora. Os preconceitos que começam na fala, na piada e no pouco caso e degringolam em prisão, em adoecimento mental e morte.

Não é preciso muito tempo pesquisando para ver a coleção de casos envolvendo estudantes e ataques racistas que terminam no hospital ou no cemitério. No final de 2024 foi um aluno negro e bolsista do Colégio Bandeirantes a tirar a própria vida por ser alvo do ódio e da repulsa dos colegas; em março deste ano foi a vez de um estudante da rede pública de Maricá, no Rio de Janeiro; e no último mês de maio uma estudante foi encontrada desacordada no banheiro do Colégio Mackenzie. Ela também sofria com ataques racistas e homofóbicos.

A polícia agora investiga panfletos nas paredes do Mackenzie com referências a Ku Klux Klan, o grupo supremacista branco norte americano, responsável pela morte de milhares de pessoas negras nos Estados Unidos nos séculos passados, mas ainda em atividade atualmente pregando sua cartilha segregacionista.

Os norte-americanos não reprimem, pois consideram tudo “liberdade de expressão”. Um direito que para eles não encontra obstáculos, mesmo que haja ameaça à vida alheia e indignidades à humanidade. Nas bandas de cá, felizmente, o direito a expressar opinião não é absoluto. Nenhum direito é. Todos encontram os limites que são às ameaças a civilidade.

Há poucos dias completaram-se cinco anos da morte do menino Miguel, filho de Mirtes Renata, alvo da negligência de Sari Corte Real, patroa de sua mãe. A falta de punição a esta mulher exala o cheiro de água de colônia que não vê crianças negras como crianças, não se compadece da dor de uma mulher que sangra em praça pública clamando por justiça há mais de 1.800 dias e muito menos encara a vida de Miguel ou da própria Mirtes como relevantes. Um ranço racista difícil de extirpar, numa sociedade que em pleno 2025, com a perseguição ao MC Poze do Rodo e ao funks, reedita as 20 prisões de João da Baiana, o sambista que vivia enquadrado na Lei da Vadiagem apenas por portar um pandeiro e ousar ser artista no início do século 20.

As letras dos sambas retratavam as mazelas daquela época. O funk, as de agora. Uma realidade duríssima que facciona todas as pessoas muitas vezes apenas por viverem em determinados bairros, que praticamente joga os jovens nos braços do crime, que possui fortes conexões com as forças de segurança. Na cidade de Salvador/BA, por exemplo, segundo relatório da UNICEF, nove entre 10 jovens assassinados são negros.

Todo esse “combo” de inferno deságua nas piadas sem graça, ofensivas e criminosas de “humoristas” como Leo Lins. Um discurso — esse sim — que evoca uma dezena de crimes e que por isso mereceu uma pena pesada como recado de que, da mesma forma que a bala disparada, a palavra proferida não tem volta. Ela viaja, atravessa outros corpos e promove mais e mais violência.

“Negro com a Ku Klux Klan vai preso por agredir o Zé Gotinha”, “Na época da escravidão já nascia empregado e também achava ruim”, “Tem ser humano que não é 100% humano. O nordestino do avião? 72%”; e por aí vai numa longa fila de ofensas a pessoas gordas, autistas, cadeirantes, idosas… tudo encapsuladas de gracinha para uma plateia ávida por rir de quem está quase sempre na ponta mais frágil e que já é o endereço certo do escárnio desde sempre. Se não o verbal, o factual, visto que são as pessoas com menos acesso aos privilégios que colocaram o tal humorista em evidência para falar o que bem entendesse, incluindo referências sérias a abusos com menores.

Minha filha esta semana assustou-se com um menino, no grupo da escola, que enviou uma mensagem homofóbica em meio a uma conversa aleatória em que os jovens estavam trocando figurinhas engraçadas: “Sem paciência para viados, trans e homossexuais”. O que ele quis dizer com isso? O que ele fará com a sua “falta de paciência”?

O alerta está ligado. A panela de pressão está apitando. Talvez seja inevitável que ela exploda.

 

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