No STF, Heleno só responde perguntas da defesa; Bolsonaro é o próximo a depor

Heleno negou a intenção de infiltrar um agente da Abin nas campanhas
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O Supremo Tribunal Federal (STF) retoma, nesta terça-feira (10), o interrogatório dos réus da ação que apura a tentativa de golpe de Estado em 2022. O terceiro a ser ouvido foi o general Augusto Heleno, que optou por não responder as perguntas do ministro Alexandre de Moraes. Após o intervalo na sessão, às 14h30, o ex-presidente Jair Bolsonaro será ouvido.

Questionado por sua defesa, Heleno negou a intenção de infiltrar um agente da Abin nas campanhas. “Tecnicamente poderia se conseguir, com prazo bem maior. Não havia tempo para fazer infiltração, a ideia era acompanhar de perto o que acontecia e agir em prol de não-realização de coisas que fossem prejudicar o andamento das campanhas”, falou.

O general Augusto Heleno também negou ter feito anotações sobre um suposto plano de golpe em uma agenda apreendida com ele pela Polícia Federal. O general respondeu que a agenda “não apresentava nada que pudesse levar ao julgamento de que essa agenda era uma caderneta golpista” e que já tinha o caderno antes de o governo começar.

O segundo a ser ouvido foi Anderson Torres, ministro da Justiça do governo Bolsonaro e um dos oito réus do chamado ‘núcleo crucial’ do golpe a prestar depoimento.

No depoimento, Torres negou que o rascunho de decreto de golpe de Estado encontrado na casa dele era de autoria dele. “Isso foi parar no meu escaninho. Eu levava pastinhas simples dessas para a minha casa, foi colocado para ser descartado. Nunca tratei disso com o presidente da República, nunca tratei disso com ninguém”, falou.

Anderson Torres, ministro da Justiça do governo Bolsonaro. (Foto: Ton Molina/ STF)

“Foi organizado pela minha assessoria que veio dentro de um envelope. Nunca trabalhei isso, o documento era muito mal escrito, cheio de erros de português, concordância. Até o nome do tribunal estava escrito errado. Não é da minha lavra, não sei quem fez, quem mandou fazer e nunca, nunca discuti esse tipo de assunto”, disse.

Ao Supremo, Torres confirmou que o Ministério da Justiça não tinha elementos técnicos sobre fraudes nas urnas após o resultado das eleições de 2022. “No âmbito do Ministério da Justiça propriamente dito — sem ser através da Polícia Federal — não temos setor, nem área nenhuma que trabalhe com essa questão de urnas eletrônicas […]. Tecnicamente falando, não temos nada que aponte fraude nas urnas. Nunca chegou essa notícia até mim”, afirmou.

“Eu passava isso e quando era questionado pelo presidente [Bolsonaro] e por qualquer autoridade, eu sempre passei isso: não tínhamos tecnicamente nada a dizer sobre as urnas eletrônicas”, prosseguiu. “O material que tive acesso eram sugestões de melhorias às urnas eletrônicas”.

Torres, que era era secretário de Segurança Pública do Distrito Federal no 8 de janeiro de 2023, estava viajando com a família em Orlando, nos Estados Unidos. Ao STF, o ex-ministro disse que perdeu celular com mensagens do 8 de janeiro porque ficou “transtornado”. “Eu perdi meu telefone. Naquele momento, acho que até aquele momento foi o mais duro da minha vida. Eu com três crianças pequenas nos EUA, saí daqui como secretário de segurança e saiu minha prisão no dia 10. Isso me deixou completamente transtornado”, contou.

“Perdi o equilíbrio completamente com aquela notícia, a realização do sonho das crianças se tornou um pesadelo pra mim. Nesse contexto, acabei perdendo meu celular, uns dólares, e isso foi muito ruim para a minha defesa, eu não tinha nada a esconder. Ali tinha muita coisa que me ajudaria”, completou.

Alexandre de Moraes questionou se foi coincidência o fato de Anderson Torres ter viajado para o exterior na noite de 6 de janeiro de 2023, às vésperas dos atos golpistas do dia 8, quando era secretário de Segurança Pública do Distrito Federal. Ao fazer a pergunta, Moraes citou um provérbio chinês. “Vou repetir o que eu disse para o almirante Garnier, apesar de perceber que ele não acredita no ditado chinês, que coincidências não existem”, disse o ministro.

Anderson Torres negou, ainda, omissão no 8 de janeiro e diz que ataque foi gerado por falha grave de forças de segurança. “Viajei adotando todas as providências que o secretário de segurança pública tem que tomar, principalmente deixando esse protocolo assinado”, disse. “Houve falha na aplicação do protocolo.”

A audiência foi aberta com o depoimento do almirante Almir Garnier, comandante da Marinha no governo de Jair Bolsonaro. O almirante é acusado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de participar do “Núcleo 1” da trama golpista, responsável por planejar o golpe.

Garnier negou ter afirmado que colocaria suas tropas à disposição do então presidente Jair Bolsonaro para a execução de um golpe de Estado.

Respondendo ao ministro Alexandre de Moraes, relator da ação, ele confirmou ter participado de reunião no Palácio da Alvorada em que foi discutido o “cenário político e social” do país após as eleições e citou que um dos assuntos foi a possibilidade de implantação de um decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

“Não houve deliberações, e o presidente não abriu a palavra para nós, ele fez as considerações dele, o que pareciam para mim mais preocupações e análise de possibilidades, do que propriamente uma ideia ou intenção de conduzir alguma coisa numa certa direção”, disse o ex-comandante.

O almirante disse que se ateve às suas funções de comandante da Marinha, que, segundo ele, é extremamente hierarquizada. “Nós seguimos bem à risca o Estatuto dos Militares, que diz que a um subordinado é dado apenas o direito de receber por escrito uma ordem que ele receba e considere flagrantemente ilegal”, afirmou.” Até que isso aconteça, para mim ilações, discussões, ouvi aqui coisas como conversa de bar. Eu era o comandante da Marinha, não era assessor político do presidente. Eu me ative ao meu papel institucional”.

Almir Garnier, comandante da Marinha no governo de Jair Bolsonaro.

Na intervenção feita logo em seguida, Moraes citou entrevista à imprensa em que Garnier fez várias considerações sobre o processo eleitoral, numa aparente contradição do almirante.

Além Garnier, compõem o grupo o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, o ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional Augusto Heleno, o ex-ministro da Defesa Paulo Nogueira, o ex-ministro da Casa Civil Walter Braga Netto, e o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Também foram incluídos no “Núcleo 1” o deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem e o tenente-coronel e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro Mauro Cid. Ambos foram os primeiros interrogados na Corte, sendo Cid na condição de delator. A expectativa é que todos os réus sejam ouvidos ao longo desta semana, em oitavas feitas em ordem alfabética.

stf
Ministro Alexandre de Moraes

STF está na fase da instrução criminal

Ao todo, a PGR denunciou 26 pessoas por envolvimento na trama golpista, que foram divididas em três grupos distintos conforme suas atividades. No caso do núcleo de Bolsonaro, as acusações são:

  • Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito
  • Tentativa de golpe de Estado
  • Participação em organização criminosa armada
  • Dano qualificado
  • Deterioração de patrimônio tombado

Os interrogatórios fazem parte da etapa de instrução criminal – etapa em que a defesa e a acusação trabalham para a produção de provas. Ao fim das oitivas, as partes deverão apresentar suas alegações finais e o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, preparará o relatório final para o julgamento.

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