A palavra e o caos

O que nos conta o sucesso da Bienal do Livro?
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Quando a Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2025 fechar suas portas, no próximo domingo (22), mais de 130 mil alunos das redes pública e privada terão percorrido seus corredores e, a julgar pelo esgotamento dos ingressos nos primeiros dias, tudo indica que um novo recorde de público terá ocorrido e talvez também de vendas, visto que os números de muitas editoras foram surpreendentes na largada. Anima, porém intriga, já que a recente pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil de 2024” traz dados, no mínimo, preocupantes.

Segundo a investigação, uma avassaladora multidão de 11 milhões de pessoas deixaram de ler no Brasil ao longo da última década. Este número é o equivalente a população de toda a Grécia, por exemplo, ou todo o estado do Rio Grande do Sul. Há 18 anos, em 2007, 55% dos brasileiros e brasileiras liam. Quatro anos mais tarde, em 2011, 50% e hoje o país tem 47% de leitores. Diante deste quadro, o que as Bienais do Rio, São Paulo, Bahia, Ceará, etc e outros eventos literários pelo país — todos lotados — querem nos dizer?

O excesso de tela, a falta de foco, as lacunas educacionais, as autocensuras, as censuras impostas, a superficialidade dos debates em redes sociais, o empobrecimento do vocabulário, do poder de reflexão, de escuta e argumentação, o tempo corrido, os custos elevados, as políticas públicas lentas ou inexistentes. Tudo isso é inimigo da leitura. Tudo isso afasta do ato de ler não apenas as novas gerações, mas as velhas também.

No entanto, talvez a pesquisa esteja falhando em captar a vontade, o desejo e a curiosidade não apenas sobre o livro, mas sobre quem os escreve. E não somente a pesquisa. Quem sabe todo o mercado editorial careça de maior conexão com um público que olha a leitura como quem admira um carro bonito e caro, ou seja, algo admirável, mas inacessível? Quando milhares de pessoas abarrotam um centro de convenções, uma praça, uma feira e se divertem e se surpreendem em eventos em que o livro é a estrela, porém despido da sisudez e da aparência de enigma, há uma mensagem que é preciso captar.

A gente esquece que o ato de ler não nasceu conosco. A humanidade não nasceu lendo. Ela aprendeu a ler. Esquecemos que o hábito da leitura é algo sofisticado e que precisa ser praticado e cultivado ao longo da vida. Chega a ser injusto exigir que um país que não entendeu até hoje o quanto é desumano alguém trabalhar numa escala de seis dias, para ter apenas um de folga ganhando o mínimo, seja extremamente leitor.

Os números das pesquisas são de certo modo até otimistas, diante de uma nação que precarizou a folga, o lazer, às férias remuneradas, a aposentadoria e todo e qualquer direito a uma vida que não gire em torno do trabalho que não dignifica, apenas humilha e adoece. Leitura, dentro deste cenário, é encarada como perda de tempo. E uma perda de tempo cara. Um luxo.

O que se lê? Como? Onde? Quando? Quem lê livros religiosos e de autoajuda fica por aí, ou seja, não lê mais nada? Não se interessa por outros temas, não tem curiosidade? Nunca contou ou ouviu uma história? Nunca chorou, se alegrou ou se emocionou com uma poesia ainda que na letra de uma música? Números são frios.

Enquanto isso, sabemos, ler poderia ser o alívio para a grande epidemia de ansiedade, tristeza e falta de sonho de uma população que não está cansada. Está exausta. Ler poderia ser um combustível a mais para prosseguir. Quem enfrenta fila, transporte e distância para chegar a uma Bienal, no fundo sabe disso. Quem mergulha na febre de livros para colorir também. Nos corredores da Bienal do Livro deste ano uma jovem falou para a outra com muito orgulho: “Este aqui é de colorir, mas este aqui é de palavras! De pa-la-vras”.

A palavra ainda é viva. A palavra ainda é vida… e ela, mesmo na dureza de alguns textos e histórias, ainda é um tremendo alívio em meio ao caos do mundo que parece a todo instante prestes a explodir… literalmente.

 

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