‘Hora de congelar o debate sobre aumento de gastos’, diz Haddad

Ministro da Fazenda adota tom de austeridade e reforça que só despesas imprescindíveis devem ser consideradas; Tesouro prevê superávit de R$ 20 bi
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O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou na terça-feira (25) que o momento atual exige prudência e responsabilidade com as contas públicas. Em entrevista à TV Record, ele defendeu a suspensão temporária das discussões sobre aumento de gastos no governo federal. “Estamos em um momento em que devíamos congelar o debate sobre aumento de gasto até encontrar o caminho da sustentabilidade das contas. Nesse momento, nenhum aumento de gasto é bem-vindo, a não ser os imprescindíveis. Na situação do Brasil, menos é mais”, declarou.

A fala vem em meio a um cenário de melhora pontual nos indicadores fiscais. Segundo dados do Ministério da Fazenda, o governo central – que engloba Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social – deve registrar superávit primário de cerca de R$ 20 bilhões nos 12 meses encerrados em maio. No acumulado de 2025, o resultado fiscal está aproximadamente R$ 60 bilhões acima do observado no mesmo período do ano passado, impulsionado pelo crescimento da arrecadação e pelo corte real de mais de 3% nas despesas em relação a 2024.

Apesar do desempenho positivo, o governo mantém uma postura de cautela. O Tesouro Nacional classificou a atual política fiscal como “extremamente contracionista”, destacando que a combinação entre aumento do superávit e redução de gastos tem impacto direto na demanda agregada.

Por isso, o Ministério da Fazenda informou que não há previsão de reversão do contingenciamento de despesas realizado em maio. Uma nova avaliação será feita apenas em julho, com base nos dados do terceiro bimestre fiscal.

Haddad diz que alta da Selic já estava contratada

Haddad também comentou a decisão recente do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central de elevar a taxa básica de juros, a Selic, a 15% ao ano. Para ele, a elevação já estava “contratada” desde dezembro de 2023, sob a gestão do ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto.

“Essa alta, sendo muito honesto, quem é do ramo sabe, foi contratada na última reunião da qual participou o Roberto Campos [Neto, ex-presidente do Banco Central], em dezembro [de 2024]. É como se tivesse estabelecido uma contratação futura da taxa. Não dá para dar cavalo de pau em política monetária, vai perder credibilidade. Tem que ter muita cautela”, disse o ministro, em uma clara defesa ao atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, indicado pelo presidente Lula (PT).

“E outra, estávamos com problema de inflação, sobretudo de alimentos, que está sendo corrigido agora. Mas, assim, estamos num começo de um mandato [de Galípolo], que carrega a memória do anterior [Campos Neto]. Ainda precisamos dar um pouco de tempo ao tempo”, ponderou Haddad.

Por outro lado, Haddad reconheceu que o atual nível dos juros é excessivamente restritivo.

Justiça tributária

No campo político, Haddad voltou a defender maior justiça tributária e criticou a desigualdade na distribuição da carga de impostos no país. Utilizando uma metáfora, afirmou: “Não temos mais condição de viver em um país em que a maioria vive da mão para a boca, enquanto o morador de cobertura não paga condomínio e não se importa com o prédio”.

Segundo ele, a proposta econômica do governo busca aliviar quem já paga tributos e cobrar de quem atualmente está à margem do sistema.

Enquanto isso, no Congresso, seguem em discussão medidas como a Medida Provisória 1.303 (sobre o aumento do IOF e outros impostos), que aumenta a tributação sobre setores específicos, a regulamentação dos supersalários e a reforma da previdência dos militares.

Embora a Fazenda afirme que essas propostas não estão diretamente ligadas ao cumprimento da meta fiscal de 2025, Haddad considera que são temas relevantes e que merecem ser enfrentados com transparência e debate público.

Crédito imobiliário

Haddad também comentou durante a entrevista exibida na noite de ontem no Jornal da Record, uma oferta de crédito imobiliário para a classe média, que deve ser apresentada pelo governo federal em breve. A iniciativa está em fase de debates, segundo o ministro.

“O que está faltando acontecer é o crédito imobiliário para a classe média, que ainda é pequeno na comparação internacional — na casa de 10% do PIB [Produto interno Bruto]. Tem país, como o Chile, que é 30%. Temos uma avenida para percorrer e estamos nesse movimento”, disse.

Segundo ele, o tema foi debatido com o presidente Lula, o presidente do BC e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, no Palácio do Planalto, na manhã de ontem. A proposta, de acordo com o ministro, está em fase final de ajustes.

 

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