Por Rodrigo Ruperto*
A declaração recente de Celso Amorim de que “assistimos ao fim da atual ordem mundial”, não surge como provocação gratuita, mas como diagnóstico agudo de um colapso em curso. Mais do que uma crise geopolítica, trata-se do esgotamento estrutural de um modelo produtivo, econômico e institucional que garantiu, por décadas, a supremacia ocidental no sistema internacional.
A arquitetura dessa ordem combinava três pilares fundamentais: domínio industrial, controle das finanças globais e imposição de normas multilaterais moldadas pelos interesses do Norte Global. Esse arranjo não era fruto da harmonia entre os povos, mas de uma engenharia deliberada de hierarquias, consolidada após o fim da Guerra Fria e formalizada por instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC).
A partir do Acordo de Marraquexe (1995) e das bases negociadas na Rodada do Uruguai, a OMC se ergueu como a mais ambiciosa tentativa de institucionalizar a globalização sob controle do Ocidente. Seus três pilares operavam sob princípios que, embora travestidos de neutralidade técnica, reforçavam as assimetrias estruturais do sistema-mundo, garantindo que a liberalização econômica ocorresse nos termos favoráveis às potências hegemônicas.
O grande paradoxo desse modelo reside exatamente em sua aparente eficiência. Na busca incessante pela maximização dos lucros, as corporações transnacionais transferiram boa parte da produção industrial para o Sudeste Asiático, atraídas pelos baixos custos, pelas regulações mais flexíveis e por mercados consumidores em expansão. O que parecia uma estratégia segura — concentrar no Norte Global os elos mais lucrativos das cadeias de valor — acabou se convertendo em vetor de corrosão do próprio poder ocidental.
A China, em especial, soube instrumentalizar essa dinâmica a seu favor. Através de políticas de industriais perenes e acertadas, Pequim transformou sua condição de “fábrica do mundo” em alavanca para afirmar sua soberania econômica, tecnológica e geopolítica. O que o capital ocidental via como mero barateamento de custos, a estratégia chinesa leu como uma oportunidade histórica de transformação estrutural. O resultado é inequívoco: o centro dinâmico da economia global migrou do Atlântico Norte para o eixo Ásia-Pacífico. Simultaneamente, no Ocidente, a desindustrialização, a financeirização excessiva, a precarização estrutural do trabalho e o colapso das classes médias expuseram as rachaduras internas de uma globalização moldada para acumular capital sem distribuir desenvolvimento.
Essa erosão econômica e produtiva tem correspondência direta no plano institucional. O enfraquecimento da OMC, a paralisia do sistema multilateral de solução de controvérsias, o descrédito de organismos como o Conselho de Segurança da ONU e a proliferação de disputas comerciais e tecnológicas são expressões de um mundo que opera cada vez menos sob regras comuns e cada vez mais sob a lógica da força, da fragmentação e da disputa entre blocos.
O colapso da atual ordem mundial não se restringe ao domínio econômico. Ele avança, com igual intensidade, sobre os fundamentos do sistema de segurança coletiva e da própria promessa de paz que emergiu no imediato pós-Guerra Fria. O que se seguiu, no entanto, foi exatamente o oposto: uma nova dinâmica de disputa, reordenamento das áreas de influência e crescente militarização das relações internacionais.
O desmoronamento da União Soviética, longe de inaugurar uma era de consenso, abriu espaço para a reorganização das tensões geopolíticas. Paralelamente, assistimos à emergência da China como potência global e à consolidação de atores regionais de peso como Índia, Irã, África do Sul e Brasil. A ascensão desses países não foi suficiente para reformar a velha ordem, mas impôs, ainda que de forma tímida, tensões crescentes à hierarquia internacional consolidada desde 1945.
A recusa sistemática das potências centrais em reformar as instituições do pós-guerra empurrou os países em desenvolvimento à construção de alternativas. É nesse contexto que surge o BRICS. O que começou como um fórum restrito à cooperação financeira rapidamente se expandiu, transformando-se em um espaço político de articulação, concertação e disputa no interior da ordem global.
A possibilidade concreta de superação da ordem internacional vigente, ancorada no renascimento asiático e na consolidação de coalizões como o BRICS+, intensificou rivalidades sistêmicas. O mundo vive, hoje, uma escalada simultânea de disputas comerciais, tecnológicas, energéticas e militares. A corrida por mercados, rotas logísticas, hegemonia digital e acesso a recursos estratégicos se traduz, diretamente, na proliferação de guerras e na militarização como eixo estrutural da política internacional contemporânea.
Os dados são eloquentes: segundo o The Armed Conflict Survey 2024, vivemos o período com o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial. As fatalidades ultrapassaram 200 mil pessoas entre 2023 e 2024. Ao mesmo tempo, os gastos militares alcançaram o maior patamar desde o fim da Guerra Fria. Esse crescimento não se restringe às potências clássicas: embora Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha e Índia concentrem 60% dos investimentos em defesa, o aumento dos orçamentos militares tornou-se um fenômeno generalizado, alcançando mais de uma centena de países.
Essa espiral de militarização não é dissociada da tentativa de redefinir zonas de influência no mundo. Os conflitos na Ucrânia e, especialmente, o genocídio em curso na Faixa de Gaza são manifestações concretas dessa dinâmica. A possibilidade de uma guerra regional total no Oriente Médio, impulsionada pela escalada belicista de Israel e sua tentativa de arrastar o Irã para um confronto direto, carrega o risco real de transbordamento para uma guerra de dimensões globais, sobretudo pela interconexão sistêmica dos conflitos atuais.
A paralisia das instituições que deveriam servir à segurança coletiva aprofunda essa crise. O Conselho de Segurança da ONU está, na prática, disfuncional. As operações de manutenção da paz tornaram-se ineficazes ou, muitas vezes, meros instrumentos de contenção de crises residuais, incapazes de lidar com conflitos de alta intensidade.
A isso soma-se a crise de legitimidade do Tribunal Penal Internacional (TPI), cuja seletividade escancarada o transformou, na prática, em uma ferramenta de criminalização dos líderes do Sul Global, enquanto permanece sistematicamente inerte diante dos crimes de guerra, dos genocídios e das violações massivas cometidas por potências ocidentais e seus aliados estratégicos.
Se a crise da ordem mundial já se manifesta de forma dramática nos planos econômico e securitário, sua face mais contundente revela-se na paralisia da governança ambiental global. Nenhum outro eixo sintetiza com tanta clareza as contradições do multilateralismo contemporâneo, suas assimetrias estruturais e sua incapacidade de oferecer respostas civilizatórias à altura da emergência planetária em curso.
O debate ambiental no sistema internacional, formalizado na ONU a partir da Conferência de Estocolmo, em 1972, já nasce tensionado pela clivagem estrutural entre Norte e Sul. A defesa, então, da tese dos “limites do crescimento” convertia-se, na prática, em uma estratégia de conservação geopolítica: travar o desenvolvimento industrial dos países do Sul sob o pretexto da preservação ambiental, ao mesmo tempo em que as economias centrais mantinham intactos seus próprios padrões de produção, consumo e emissão.
Essa tensão entre conservacionistas e desenvolvimentistas atravessou toda a primeira geração das negociações ambientais e só encontrou uma tentativa de conciliação formal na Rio-92. Ali, sedimentou-se o princípio de que desenvolvimento e sustentabilidade não são objetivos mutuamente excludentes. A partir daí, consolidaram-se dois pilares normativos centrais do regime climático: de um lado, o desenvolvimento sustentável como horizonte normativo; de outro, o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, que reconhece a dívida histórica das nações desenvolvidas em relação às emissões acumuladas, impondo a elas obrigações maiores na condução da transição ecológica.
Contudo, o processo foi rapidamente capturado pelas mesmas lógicas assimétricas que
estruturam o sistema internacional. A adoção de mecanismos voluntários, após a fragilização do Protocolo de Kyoto e sua substituição pelo Acordo de Paris (2015), revelou-se uma estratégia de desresponsabilização coletiva. Ao abandonar as metas vinculantes, o regime climático passou a operar no horizonte da diplomacia de intenções.
O impasse se agrava quando se observa que os próprios fundamentos materiais da hegemonia estadunidense repousam sobre a lógica de uma matriz energética fóssil. O complexo industrial-petrolífero norte-americano não é apenas um setor econômico: é um pilar da sua projeção geopolítica, da sustentação do dólar como moeda global e da própria arquitetura militar que ancora sua hegemonia. A tensão é estrutural: qualquer transição energética ambiciosa ameaça não apenas modelos econômicos nacionais, mas o próprio arranjo geopolítico que sustenta a ordem internacional. Daí a recorrência cíclica de rupturas nos compromissos climáticos dos Estados Unidos.
O colapso da COP-29, realizada em Baku, foi um marco simbólico desse esgotamento. A
incapacidade de produzir consensos mínimos sobre financiamento climático, transferência tecnológica
e responsabilidades diferenciais expôs, sem disfarces, que o Norte Global não está disposto a abrir
mão dos dividendos de sua hegemonia. Assim, o risco de fracasso da COP-30 evidencia que não se
trata apenas de uma crise de negociação, mas de uma falência sistêmica da governança climática. O
próprio Brasil encontra-se, hoje, em uma encruzilhada. Pressionado a assumir compromissos cada vez
mais rigorosos, sem contrapartidas justas em financiamento e transferência tecnológica, o país volta a
ser alvo de narrativas neocoloniais que tentam transformar a Amazônia em patrimônio da humanidade
sob a lógica da tutela, não da cooperação soberana.
Todas as grandes instâncias da governança global encontram-se reféns do mesmo impasse
estrutural: a recusa do Norte Global em aceitar que a multipolaridade exige não apenas rearranjos
diplomáticos, mas uma redistribuição real de poder, de recursos e de responsabilidades. A paralisia
climática, portanto, não é um capítulo isolado da crise da ordem mundial. Ela é, talvez, sua expressão
mais cruel.
O colapso da ordem internacional não é súbito nem acidental. O ataque dos Estados Unidos
ao Irã, sem aval multilateral, é apenas um sintoma avançado de uma transição profunda e conflituosa
entre duas ordens em disputa. De um lado, a ordem liderada pelos EUA, sustentada por OTAN, FMI e
Banco Mundial, busca manter sua hegemonia através do controle financeiro, tecnológico e militar,
apesar do esgotamento do seu modelo produtivo, da crise ambiental e da crescente disfuncionalidade
institucional. De outro, emerge uma nova configuração liderada pela China, articulada por meio do
BRICS e de arranjos intergovernamentais alternativos, que vêm redesenhando discretamente os fluxos
de poder global.
O Sul Global encontra-se diante de um dilema histórico: seguir como periferia subordinada
em meio à disputa entre blocos, ou protagonizar a construção de uma nova ordem internacional
baseada em soberania, equidade e cooperação Sul-Sul. A transição atual é instável, marcada por
conflitos e tensões, mas também repleta de possibilidades. Longe de representar o fim da ordem, o
colapso do modelo liberal ocidental inaugura uma disputa irreversível sobre os fundamentos da ordem
que está por vir — e sobre quem terá o poder de defini-la.
*Historiador formado pela Universidade de Brasília (UnB). Atualmente, estuda temas ligados às Relações Internacionais, com foco no engajamento brasileiro em organismos multilaterais de geometria variável. Integra o Núcleo de Estudos Avançados de Política Internacional (NEAPI). Militante do Partido dos Trabalhadores (PT), é membro da Executiva Distrital da Juventude do PT (JPT-DF), onde coordena a área de Relações Internacionais.