Por Cleber Lourenço
A derrubada do decreto presidencial que reajustava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no plenário da Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira (25), evidenciou a falta de apoio do governo no Congresso. Ao todo, foram 383 votos favoráveis à anulação do texto editado pelo Planalto. Desses, 241 partiram de apenas sete partidos, legendas que ocupam ministérios no governo Lula. O dado, que representa 62,9% dos votos “Sim”, escancara a fragilidade da base aliada e a dificuldade do Executivo em exercer controle sobre as legendas que formalmente compõem a coalizão governista.
A atual composição ministerial inclui União Brasil, MDB e PSD. PP, Republicanos, PSB e PDT. Esses partidos, embora estejam à frente de estruturas estratégicas da administração federal, não demonstraram fidelidade ao governo durante a votação. A debandada de votos indica que a ocupação de cargos na Esplanada não tem garantido a esperada reciprocidade legislativa.

Juntas, essas sete siglas governistas somaram mais votos favoráveis ao projeto do que toda a oposição tradicional, incluindo PL e Novo. O Partido Liberal, maior legenda da oposição, liderou individualmente com 88 votos favoráveis, mas a amplitude dos votos pró-derrubada entre os partidos governistas foi ainda mais impactante.
Quem se opôs à derubada do decreto do IOF
Partidos da base programática do governo, como PT, PCdoB, PSOL e Rede, mantiveram posição firme e coesa contra a proposta. Entre eles, houve orientação expressa do Palácio do Planalto, que foi seguida por praticamente todos os parlamentares. Ainda assim, a fidelidade dos partidos ideologicamente próximos ao governo não foi suficiente para barrar a articulação oposicionista e dissidências internas.
A crise de articulação política ganhou contornos ainda mais evidentes nas horas que antecederam a votação. Parlamentares relataram falta de mobilização do governo e ausência de coordenação para reaglutinar votos. Integrantes do próprio governo admitiram que houve um erro de cálculo na avaliação da base, subestimando a capacidade de mobilização da oposição e a independência dos partidos aliados.
No caso do PSB, que detém duas pastas ministeriais e integra o núcleo histórico da frente ampla que elegeu Lula, houve divisão de votos. Isso foi interpretado como mais um sinal de desgaste e perda de capacidade de comando político por parte do Planalto. A ausência de punição para parlamentares infiéis em votações anteriores também pode ter contribuído para a sensação de liberdade de atuação entre os deputados desses partidos.

Revisão da base do governo
Outro elemento determinante para o resultado foi a composição das bancadas. Siglas como PL, Republicanos, PP e União Brasil concentram um grande número de deputados com origem militar, policial ou ligados a forças de segurança. Esses segmentos possuem resistência histórica a propostas que envolvam aumento de arrecadação ou maior controle fiscal. A percepção entre esses parlamentares é de que o decreto traria impactos econômicos negativos sobre setores estratégicos que eles dizem representar.
Parlamentares governistas e interlocutores do Palácio afirmaram, em caráter reservado, que o episódio deve servir como ponto de inflexão na relação com a base. A ideia é revisar a estratégia de distribuição de cargos e fortalecer mecanismos de controle e fidelização, inclusive por meio de emendas parlamentares e outras formas de barganha política. O desafio, no entanto, reside em encontrar um equilíbrio entre a governabilidade e a fragmentação partidária cada vez mais evidente.
A votação revela, na prática, uma base governista fraturada, onde a ocupação de ministérios e a participação formal no governo não têm se traduzido em apoio parlamentar efetivo. O Planalto terá que reconstruir pontes, redefinir prioridades e investir pesado em articulação para evitar novas derrotas em temas centrais da agenda do Executivo.
Com a proximidade de votações importantes no Congresso, como a reforma tributária e pautas relacionadas à sustentabilidade fiscal, a instabilidade na base acende um sinal de alerta. A fidelidade não pode ser apenas declaratória; ela precisa se materializar no painel eletrônico do plenário.