Por Prof. Dr. Babalawô Ivanir dos Santos
Para fechar o mês de junho, quero aqui fazer uma breve análise sobre os dados publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ao que tange ao recorte do Censo Demográfico 2022 voltado às religiosidades no Brasil. Realizada, desde de 1940, a cada 10 anos, a pesquisa revelou um cenário social religioso difuso e em constante transformação.
Segundo os dados informados, o número de pessoas que se declaravam católicas, em 2010, era de 65%. Em 2022, passou para 56,7%, apresentando uma queda de 8,3 pontos percentuais. Já entre os evangélicos, houve aumento de 5,2 pontos percentuais. Em 2010, eram 21,7%. No último Censo, passou para 26,9%. Entre os adeptos das religiões de matrizes africanas, umbandistas e candomblecistas, passou de 0,3%, em 2010, para 1% em 2022.
Ainda de acordo com o Censo, a maioria dos adeptos de religiões de matriz africana, como umbanda e candomblé, se autodeclara branca, com 42,9%. Entretanto, a soma de pardos (33,2%) e pretos (23,2%) representa a maioria, com 56,4% de adeptos. O que nos leva a concluir sobre a centralidade da presença de pessoas negras nos cultos de matrizes africanas no Brasil.
Para além dos apontamento sobre o crescimento e a diminuição de determinados seguimentos religiosos, precisamos fazer o exercício minucioso de escutar e ler o que o dados nos relevam. Mesmo com uma queda acentuada de pessoas que se declaram católicas e um crescimento, pouco expressivo, das pessoas que se declaram evangélicas, o Brasil ainda é um país com uma ampla maioria de pessoas que se declaram cristãs. Um total de 83,6% entre cristãos católicos e evangélicos.
Ao olharmos para os dados sobre o crescimento dos adeptos das religiões de matrizes africanas, umbandistas e candomblecistas, os resultados do IBGE de 2022 aponta dois pontos interessantes, o primeiro é um crescimento expressivo em relação ao ano de 2010.
Tal crescimento pode estar relacionado aos processos de luta de garantia dos direitos de culto e liberdade religiosa que vêm, ao longo dos anos, promovendo engajamento, conscientização sobre a promoção da democracia e do Estado Laico.
O outro ponto se refere à correlação entre religião e raça, em que é revelado que partes significativas de pessoas que de declaram pertencente às religiões de matrizes africanas são brancas, 42,7%.
Tal resultado aponta para outro debate extremamente significativo sobre o panorama religioso brasileiro que envolve raça e representações religiosas. Longe de fundamentar um debate sobre racialização das manifestações religiosas, chamamos a atenção para os casos de intolerância religiosa que ainda hoje são ‘definidos’ e ‘defendidos’ como racismo religioso.
Mas esse debate vamos deixar para um próximo artigo!
*Professor e orientador no Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ. Coordenador do Observatório da Liberdade Religiosa -CEAP