Máxima humilhação

O peso que não vem do tornozelo
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O ex-presidente do República Federativa do Brasil está com um dos tornozelos ocupado por um equipamento eletrônico, usado por quem precisa ser monitorado pela justiça. Nas palavras do Jair, o uso do acessório é o “símbolo da máxima humilhação”. Sério mesmo, Messias? Máxima, tipo assim… topo? Nada pior que isso?

O povo da nação que você afirmava estar acima de tudo, abaixo apenas de Deus, tem outras experiências para compartilhar quando o assunto é afronta, mortificação, desonra e vexame. Vejamos.

Tivesse o Jair alguma noção do que seja vergonha, engoliria suas palavras no meio do caminho até a ponta da língua. Seria absurda a sua fala não fosse este um lugar que dizimou milhões de indígenas, roubou, saqueou e ocupou suas terras, induzindo populações inteiras a situações degradantes em pleno 2025.

Não fosse este o chão onde pisaram mais de 5 milhões de pessoas sequestradas para viajar em cima de excrementos e terminar escravizadas ao longo de quase 400 anos, nem assim esse homem poderia falar em humilhação, quanto mais máxima!

Jair Messias se dizer envergonhado seria aviltante mesmo que não fosse este o território sempre no topo das listas dos que mais matam mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e jovens negros na terceira década do século 21. Violências que ele sempre fez questão de ignorar.

No entanto, como o Brasil foi e é o palco destes atos tenebroso no teatro da história da humanidade e ele não faz a menor ideia do que possa ser nada disso, grita aos quatro ventos que sabe o que é ser pisado. Não pensa meia vez em afirmar que estão querendo humilhá-lo, como não hesitou em imitar gente morrendo asfixiada na crueldade da pandemia, massacrando a dignidade humana centenas de milhares de doentes e suas famílias.

Como há décadas é pago pelo povo brasileiro exercendo cargos públicos, ele também não tem a menor ideia da indignidade que a fome obriga e fechou os olhos para a barriga vazia de seus compatriotas, que reviravam lixo e comiam ossos, fazendo o país figurar outra vez num mapa do qual já havia saído.

O homem que agora olha as câmeras com ares de grande injustiçado, propositalmente esqueceu que construiu a carreira com a argamassa da ofensa e o cimento da calúnia, humilhando toda e qualquer pessoa que ousasse se opor ao seu jeito de tripudiar de quem foi ou teve familiares desaparecidos, torturados e mortos no período de chumbo da ditadura.

E nem falamos nos motivos objetivos que o levaram a ficar, como dizem no nordeste, com o “mocotó grosso”, ou seja, as tentativas antidemocráticas para se perpetuar no poder.

Os índices de desemprego e subemprego, as negligências com a saúde e a educação, o escárnio com os trabalhadores e trabalhadoras da cultura nacional, as violações incontáveis aos direitos humanos, as ofensas diárias em rede nacional a cidadãos e cidadãs que mereciam ter ao menos o olhar respeitoso de quem ocupava a cadeira da presidência da república de um país tão vasto, diverso e importante… nada disso, para o Jair é sinônimo de humilhação.

O que é humilhante para Jair Messias Bolsonaro, o que massacra sua vaidade, é estar em casa, arrastando uma trava feita de borracha, fibras óticas e outros materiais que somados pesam entre 100 e 200 gramas, cercado de aduladores profissionais e com a conta recheada de contribuições milionárias enviadas por pix. Isto sim para o senhor Jair é humilhante.

Imagine se alguém dissesse que ele, como bovinos e outros animais irracionais, precisa ser pesado em arrobas?

Não fosse todo o resto, ainda teve isso.

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