Aproximadamente 60% das exportações brasileiras aos Estados Unidos em 2025 serão afetadas pela tarifa adicional de 50% imposta pelo presidente Donald Trump, de acordo com levantamento realizado pela Folha de S.Paulo, com base em dados da plataforma Dataweb, da Comissão de Comércio Internacional dos EUA.
A nova taxação, oficializada em decreto na quarta-feira (30), entra em vigor em 6 de agosto e representa uma ampliação significativa das barreiras comerciais impostas ao Brasil.
A decisão atinge fortemente o comércio bilateral, com impacto estimado sobre 57% do valor total exportado em 2024. Apenas 43% das vendas brasileiras aos EUA entraram na lista de exceções anunciada pelo governo americano — uma lista que inclui setores como alimentos, minérios, produtos de energia e aviação civil. A análise feita considera dados detalhados por item, seguindo a classificação HTSUS (Harmonized Tariff Schedule of the United States), padrão oficial utilizado para identificar mercadorias.
Embora alguns dos principais produtos brasileiros tenham escapado da tarifa — entre os 15 itens mais exportados, 10 estão isentos —, a medida atinge diretamente segmentos menos visíveis, mas importantes, como frutas (incluindo mangas), sal e insumos diversos.
Antes mesmo da entrada em vigor da tarifa de Trump, regiões como o Vale do São Francisco, principal região produtora e exportadora de manga no país, já sente os efeitos da guerra comercial. Pequenos produtores já veem suas mangas encalharem e o preço desabar — como a produção que ia aos EUA já está sendo redirecionada, o mercado de manga começa a superlotar do produto.
Segundo a reportagem da Folha, tanto a BMJ Consultoria, especializada em comércio exterior, quanto a Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), estimam que cerca de 40% a 43% das exportações brasileiras escaparam da tarifa, o que confirma a abrangência da medida.
O impacto é especialmente severo para dois setores com forte alinhamento político ao ex-presidente Jair Bolsonaro: o agronegócio e a indústria de defesa. Ambos ficaram de fora das 566 posições tarifárias isentas descritas no Anexo I do documento da Casa Branca, que reúne produtos considerados de interesse estratégico para a economia e segurança nacional dos EUA.
Tarifa cria insegurança para cadeias globais
Além do impacto direto sobre o valor exportado, as sobretaxas criam insegurança para cadeias globais de valor que dependem da previsibilidade no comércio bilateral. A Amcham destacou, em nota, que a decisão compromete a competitividade de empresas brasileiras e pode afetar cadeias produtivas integradas internacionalmente.
As tarifas anunciadas por Trump foram justificadas, segundo o decreto, como uma resposta a “políticas, práticas e ações recentes do governo brasileiro que constituem uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos”. No comunicado oficial, o governo Trump menciona nominalmente o ex-presidente Jair Bolsonaro, afirmando que ele estaria sendo “perseguido” pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).
No mesmo dia em que anunciou as novas tarifas, Trump impôs sanções financeiras contra Moraes, em um gesto interpretado por autoridades brasileiras como uma retaliação política travestida de medida comercial. Para o governo Lula, a taxação tem um claro componente ideológico, ligado à polarização entre os grupos políticos brasileiros e à tentativa de Trump de influenciar o cenário eleitoral nos EUA, mantendo laços com aliados da extrema direita global.
Aço e derivados
O impacto das tarifas também se soma a outras medidas protecionistas que já afetam o Brasil. Produtos como aço e derivados já enfrentam sobretaxas setoriais, como as aplicadas desde o governo Trump em seu primeiro mandato. Em 2023, por exemplo, o Brasil exportou mais de US$ 3,5 bilhões em produtos semiacabados de ferro ou aço, que já estão sujeitos a taxação especial.
Além disso, permanece em andamento uma investigação comercial conduzida pelos EUA sobre práticas brasileiras que, caso avance, pode abrir espaço para novas tarifas. O próprio decreto assinado por Trump prevê ajustes futuros nas sanções, com a possibilidade de endurecimento das medidas caso o Brasil adote retaliações. Ao mesmo tempo, o texto deixa margem para flexibilização, desde que haja “aproximação política” entre os dois países.