A Polícia Federal deve enviar até esta quarta-feira (27) ao STF (Supremo Tribunal Federal) um pedido de abertura de inquérito para apurar a disseminação coordenada de desinformação contra o Banco do Brasil (BB) por meio de redes sociais. As publicações afirmam, sem comprovação, que o banco estatal estaria sujeito a sanções internacionais que poderiam levá-lo à falência.
O caso envolve apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), inclusive parlamentares com foro privilegiado, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro.
De acordo com fontes da PF ouvidas pelo blog da Ana Flor, o relatório denominado “Informação de Polícia Judiciária” está em fase final e será submetido ao STF devido à citação de autoridades com prerrogativa de foro. O documento se baseia em um dossiê preliminar elaborado pelo Banco do Brasil e enviado à AGU (Advocacia-Geral da União) na última sexta-feira (22), em que já aparece o nome de pelo menos um deputado federal.
A AGU solicitou oficialmente à PF, nesta segunda-feira (25), a abertura de investigação sobre postagens que, segundo o órgão, incentivaram o pânico entre correntistas, estimulando retiradas em massa e a venda de ações do banco — o que pode configurar crime contra o sistema financeiro nacional.
Banco do Brasil: desinformação e efeitos de mercado
O conteúdo das postagens gira em torno da chamada “Lei Magnitsky”, legislação norte-americana destinada a punir estrangeiros acusados de violar direitos humanos. Segundo os boatos, o Banco do Brasil poderia ser sancionado por manter contas de ministros do STF — especialmente Alexandre de Moraes, citado por Eduardo Bolsonaro em vídeo divulgado nas redes.
Em tom alarmista, o deputado sugeriu que o banco poderia ser excluído do sistema financeiro global e até falir, o que, segundo a AGU, teria provocado instabilidade no mercado. Na semana passada, ações de bancos brasileiros recuaram na Ibovespa, com queda mais acentuada nas do Banco do Brasil.
Especialistas, no entanto, apontam que o uso da Lei Magnitsky contra o Banco do Brasil é juridicamente improvável, especialmente por se tratar de uma instituição pública nacional atuando sob jurisdição brasileira. Ainda assim, a narrativa provocou temor em parte da população e nos mercados.
Manipulação retórica e intenção política

Durante o programa ICL Mercado e Investimentos na segunda-feira, a economista Deborah Magagna analisou o vídeo de Eduardo Bolsonaro, destacando o uso estratégico de termos técnicos — como OFAC (Office of Foreign Assets Control, órgão americano que aplica sanções) e referências à Lei Magnitsky — para dar verossimilhança à desinformação.
Segundo ela, embora o deputado utilize conceitos corretos, distorce os significados para induzir o público a concluir que o Banco do Brasil está em risco iminente de colapso.
“O que ele faz é criar uma atmosfera de pânico, incentivando correntistas a tirarem dinheiro e investidores a venderem ações, o que pode desestabilizar a instituição e gerar prejuízo para o próprio público”, afirmou Magagna. Para ela, trata-se de uma “lorota braba” com potencial de dano real.
A economista também alertou para as consequências práticas dessas ações, como perdas financeiras por retiradas intempestivas ou vendas de ativos em momentos desfavoráveis, além da deterioração da confiança em uma das maiores instituições financeiras do país.
Reação institucional
O Banco do Brasil já ingressou com medidas judiciais contra as postagens, e a AGU acompanha o caso de perto, argumentando que há indícios de uma ação coordenada para gerar instabilidade no sistema financeiro nacional, com potencial de colapso bancário.
O episódio se soma a outros embates institucionais envolvendo figuras próximas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e órgãos do Estado. Caso o STF autorize a abertura de inquérito, os investigados poderão responder por crimes como incitação ao pânico, atentado contra a ordem econômica e disseminação de fake news com finalidade política.
Veja o comentário completo de Deborah Magagna no vídeo abaixo: