Por Cleber Lourenço
No feriado de 7 de setembro, a avenida Paulista voltou a ser tomada por apoiadores de Jair Bolsonaro. O ato, convocado como demonstração de força política e em defesa do ex-presidente, foi também uma resposta simbólica às investigações judiciais que cercam Bolsonaro e aliados.
Naquele domingo, entre carros de som, bandeiras estendidas e cânticos contra o governo Lula e o Supremo Tribunal Federal, construiu-se a narrativa de que o Brasil vive sob uma ditadura — ainda que os mesmos participantes exercessem livremente seu direito de manifestação. Esse paradoxo era evidente para qualquer um que observasse de fora.
Ao sair do metrô Trianon-MASP, a sensação era a de entrar em outra realidade, quase um mundo paralelo. A estação fervia de gente vestida de verde e amarelo, um mar de camisetas e bandeiras que lembrava mais uma torcida organizada do que um movimento político.
O som das cornetas, os gritos de guerra e as músicas ecoando dos carros de som criavam um ambiente quase carnavalesco. O cheiro de pipoca dos ambulantes se misturava ao suor da multidão, formando a atmosfera de um estádio em dia de clássico. Ali, não se discutia inflação, desemprego ou políticas públicas: falava-se de liberdade. Ou melhor, da liberdade que, segundo eles, havia sido perdida no governo Lula.
As mesmas pessoas que gritavam contra uma censura imaginária eram aquelas que, ao longo de meses, ocuparam ruas e redes sociais sem nunca sofrer prisão ou tortura. Ainda assim, acreditavam fielmente que viviam sob uma ditadura.
O termo “liberdade” tornou-se uma abstração, um código de identidade que unia desconhecidos como se fosse uma senha secreta. Uns falavam em “voltar ao Brasil de antes”, outros evocavam teorias conspiratórias sobre supostos planos do Supremo Tribunal Federal para silenciar cidadãos comuns. A convicção era tão forte que não havia espaço para nuances: ou se estava com eles, ou se era inimigo.
Conversei com alguns manifestantes e, ao perguntar sobre uma anistia restrita caso a ampla não passasse, a resposta foi unânime: rejeição. Preferiam o tudo ou nada, mesmo que isso significasse prejudicar os próprios pares que, dois anos atrás, decidiram arrebentar as sedes dos Três Poderes em uma tentativa desesperada de derrubar um governo democraticamente eleito.
Essa lógica se estendia a outros temas: justificavam até tarifas impostas pelos Estados Unidos contra o Brasil, desde que fossem apresentadas como alinhamento a seu líder. Para eles, os custos eram menos importantes do que o gesto político. O pragmatismo foi substituído pela devoção, como se o ex-presidente fosse um imenso bezerro de ouro erguido em pleno asfalto da Paulista.
Na avenida, os cânticos eram eufóricos, mas também desconexos. Entre bandeiras, bíblias e cartazes, o inimigo comum tinha nome e sobrenome: Lula e Alexandre de Moraes. Um senhor, bíblia em punho, chegou a me perguntar que emissora eu representava.
Depois, disse em tom grave que rezava “para Deus derrubar o avião” do ministro do STF. Era uma fé atravessada pelo ódio, uma mistura inquietante de religião e violência simbólica que, para quem observava de fora, beirava o surreal. A naturalidade com que essa frase foi dita mostrava que, para muitos ali, orar por uma tragédia era entendido como ato de devoção política.

Em meio ao turbilhão, um episódio inesperado: duas moças, que disseram ser italianas, se aproximaram curiosas da manifestação e perguntaram a uma pedestre o que era aquele evento e, principalmente, por que havia tantas bandeiras de Israel expostas.
A simples observação foi suficiente para gerar uma confusão. Manifestantes se aglomeraram, hostis, acusando-as de provocação e exigindo explicações que nunca viriam. Quando me aproximei, percebi que estavam assustadas. Antes de responder qualquer pergunta, pediram apenas que eu fosse educado com elas, já que não estavam sendo tratadas assim pelos presentes. Concordei, e começamos a conversar. Uma delas, com sotaque carregado, insistia em entender: “Mas por que Israel? O que tem a ver com o Brasil?”. A resposta não veio. O que se viu foi um coro de gritos que transformou a curiosidade em ameaça.
A entrevista, no entanto, atraiu olhares desconfiados. Militantes exaltados chegaram a me acusar de ter armado a cena para prejudicá-los, como se minha presença fosse parte de uma grande conspiração midiática. A acusação era insensata, mas inflamou ainda mais os ânimos.
A polícia interveio, pediu que encerrássemos a conversa e, sob escolta, retirou as moças dali. O episódio terminou rápido, mas deixou no ar a tensão de um ambiente em que a simples presença do diferente é tratada como inimiga. A cena evidenciou como a bolha política que se formava ali rejeitava qualquer questionamento externo, por mais banal que fosse. Bastava uma pergunta para acionar o gatilho da hostilidade.
Mais tarde, outra cena marcou o dia. Um grupo de bolsonaristas tentou agredir o performer “Porquinho da Paulista”, conhecido por cantar músicas fantasiado de porco. Tentaram atingi-lo com um garfo; os agressores eram clientes de um restaurante ao lado. O incidente foi tão absurdo quanto simbólico: a fúria contra uma figura que fazia da sátira seu instrumento de protesto.
Mais tarde, o mesmo artista voltou ao calçadão e cantou “Como nossos pais”, de Belchior. E o improvável aconteceu: bolsonaristas que momentos antes hostilizavam aplaudiam a canção. O homem que fora alvo de violência simbólica e física tornava-se objeto de catarse coletiva. Era como se, por alguns minutos, a música dissolvesse os muros da intolerância.

Essa cena revelou outro paradoxo. Entre os que aplaudiam estava uma mãe com duas crianças, os três enrolados em bandeiras do Brasil e com a indumentária completa dos apoiadores de Jair Bolsonaro. Mas ali, diante da música, não pareciam militantes inflamados: eram apenas espectadores, encantados pela performance de rua. As crianças batiam palmas, a mãe sorria, e por alguns instantes a atmosfera de hostilidade deu lugar a um respiro de normalidade. O contraste era gritante: os mesmos que clamavam por força e punição se deixavam levar pela poesia da canção.
Ao longo do dia, percebi que muitos casais viam a manifestação quase como um programa de fim de semana. Caminhavam de mãos dadas, tiravam selfies com as bandeiras, compravam pipoca dos ambulantes e, entre uma foto e outra, gritavam palavras de ordem contra Lula e o Supremo.
Havia quem levasse cadeiras de praia e quem se reunisse em torno de carros de som como se fossem arquibancadas improvisadas. Para esses, odiar era também uma forma de lazer. Era uma espécie de turismo político, um ritual que mesclava militância, entretenimento e discurso de ódio. Um passeio travestido de resistência.
Isso também me chamou a atenção: o programa daqueles casais era dar as mãos não para celebrar o amor, mas para, juntos, manifestarem raiva e rancor por algo que, segundo o que notei, não estava muito claro. Lula? Alexandre de Moraes? Comunistas infiltrados? Flávio Dino? Não faltavam alvos e sobrava insensatez. O ódio compartilhado funcionava como cola afetiva, uma forma de pertencimento tão ou mais poderosa do que a política convencional.
O dia terminou como começou: em clima de fervor e delírio coletivo. Mas quando a Paulista se esvaziou, cada um voltou para sua casa. Os filhos seguiram na escola, as famílias jantaram, a vida cotidiana prosseguiu normalmente. O país não se transformou em ditadura. Mas, para aqueles que estiveram ali, a narrativa da liberdade perdida continuou de pé. Uma ficção coletiva, vivida com intensidade e fé, capaz de sustentar uma identidade inteira. Na memória deles, aquele dia ficará registrado como resistência. Na realidade, foi apenas mais um domingo em que a avenida Paulista serviu de palco para uma peça cujo roteiro não corresponde ao mundo fora da bolha.