Exemplos de economia circular no Brasil: das cooperativas aos brechós

Conheça iniciativas populares e políticas públicas que transformam resíduos em oportunidades no Brasil
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Por Iago Filgueiras*

Em uma sociedade pautada pelo consumo, comprar, usar e descartar já virou uma rotina. Segundo dados de 2023, em um ano, cada brasileiro gerou cerca de 382 kg de lixo. Isso é mais de um quilo por dia. Por isso, falar sobre economia circular no Brasil é urgente.

Talvez você tenha algum parente que ganhou um eletrodoméstico de presente há algumas décadas que, até hoje, ainda funciona. Mas por outro lado, é bem provável que aquele liquidificador que você comprou há alguns anos já esteja com seus dias contados.

Em um mundo onde as coisas não são feitas para durar, consumir e jogar fora virou a regra. Os milhões de anos necessários para a formação do petróleo, que deu origem a uma embalagem de plástico, são despachados sem muita cerimônia. Os milhares de litros de água, gastos para produzir a sua calça jeans favorita, se tornam irrelevantes quando ela ganha o primeiro furo ou perde a cor.

Mas, e se fosse possível subverter essa lógica? Será que tudo aquilo que já não nos serve, precisa obrigatoriamente virar “lixo”? O ciclo de vida dos produtos não precisa ser tão curto e isso é o que defende a economia circular. Vamos conhecer alguns exemplos desse modelo no Brasil e como eles colaboram para o consumo consciente.

O cenário das políticas públicas da economia circular no Brasil

A economia circular não é apenas resultado de escolhas individuais ou de pequenos negócios. O Estado também tem buscado criar políticas que ajudem a transformar esse modelo em prática estruturada. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), sancionada em 2010, foi um marco ao instituir a logística reversa e a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos.

Mais recentemente, o Plano de Transformação Ecológica incorporou a pauta da circularidade à agenda de desenvolvimento sustentável, integrando aspectos econômicos, sociais e ambientais. Dentro desse movimento, a Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC) surgiu como diretriz para orientar governos, empresas e sociedade civil em metas de redução de resíduos, inovação em design, estímulo à reciclagem e consumo consciente.

A economia circular tem se tornado um aspecto fundamental para garantir um futuro mais sustentável para o Brasil, gerando renda, inovação tecnológica e diminuindo o impacto ambiental. Foto: Alberto Rocha
A economia circular tem se tornado um aspecto fundamental para garantir um futuro mais sustentável para o Brasil, gerando renda, inovação tecnológica e diminuindo o impacto ambiental. Foto: Alberto Rocha

Para viabilizar essa estratégia, foi criado o PromEC – Promoção da Economia Circular — em parceria com instituições nacionais e internacionais — que busca desenhar instrumentos financeiros e regulatórios voltados também para micro e pequenos negócios.

Essas iniciativas mostram que o país começa a dar passos importantes em direção a uma economia mais regenerativa, ainda que o desafio esteja em transformar planos em realidade cotidiana.

Economia circular no Brasil: exemplos populares

Quando pensamos em economia circular no Brasil, é comum que a primeira imagem que venha à nossa mente seja de grandes empresas que destacam o seu compromisso com o meio ambiente e o combate ao aquecimento global.

Mas vale dizer que, para alguns setores, como os fabricantes de agrotóxicos, pilhas e baterias, eletrodomésticos ou pneus, se responsabilizar pelo descarte adequado ou reuso dos produtos e embalagens que fabricam, não é preocupação com o meio ambiente, mas sim, obrigação legal.

Por isso, vamos além de marcas ou empresas que adotam uma postura alinhada aos objetivos do desenvolvimento sustentável. Vamos falar sobre práticas comuns no cotidiano de muitos de nós e que, certamente, mostram na prática o funcionamento da economia circular no Brasil.

Sebos: se dá para ler, dá para vender

A tradição de vender livros usados tem acompanhado o Brasil ao longo de séculos, estima-se que o primeiro sebo tenha surgido no país no século 19. Desde então, em médias e grandes cidades, é comum encontrar lojas de livros usados, principalmente nas regiões centrais. Há até mesmo sebos online.

Além dos livros, é comum encontrar outros itens como discos de vinil, fitas cassete, CDs, DVDs e outros objetos antigos. Por isso, esses comércios são exemplos da economia circular na prática.

Neles, aquilo que é antigo e pode ser usado não se torna objeto de descarte, mas pode levar cultura a preços menores para muita gente, além de despertar o interesse de colecionadores de antiguidade. De gibis a livros de Rousseau, provavelmente você encontrará bons conteúdos em um sebo.

Os sebos são um exemplo prático de economia circular no Brasil, colaborando para o maior ciclo de vida dos livros e para a democratização do acesso à cultura. Foto: reprodução / Ana Clara Parreiras/Press/EM
Os sebos são um exemplo prático de economia circular no Brasil, colaborando para o maior ciclo de vida dos livros e para a democratização do acesso à cultura. Foto: reprodução / Ana Clara Parreiras/Press/EM

Brechós: grandes aliados do consumo sustentável

Talvez você já tenha comprado uma roupa e, logo depois de adquirir, percebeu que o caimento não estava legal; ou um sapato que você só usou para uma ocasião.

Segundo o relatório Fios da Moda, no contexto brasileiro, uma simples peça têxtil de algodão emite cerca de 32 kg/CO₂ por quilo do material, da produção ao descarte. Aquela calça jeans, peça versátil no guarda-roupa de muita gente, se produzida com fibra de algodão, além de emitir gás carbônico, gasta cerca de 5,2 mil litros de água da produção ao pós-consumo.

Além das roupas, o que também entrou na moda foi o impacto ambiental. Mas os brechós têm colaborado para tornar a cadeia de consumo desse setor mais alinhada à economia circular no Brasil. Segundo o Sebrae, o faturamento dos mais de 118 mil brechós brasileiros em 2025 deve ser de R$ 24 bilhões.

O valor prova que essas empresas sustentáveis fazem parte de um movimento crescente de consumo sustentável na moda e, além da sustentabilidade, geram renda para milhares de famílias. Cerca de 90% dos brechós são geridos por MEIs e 94% deles são dirigidos por mulheres. Entre 2020 e 2024, o número de empregos no comércio varejista de usados saltou de 4.817 para 10.381, uma alta de 115%.

O número de brechós no país têm crescido, o que mostra o poder do consumo consciente na indústria da moda. Foto: reprodução
O número de brechós no país têm crescido, o que mostra o poder do consumo consciente na indústria da moda. Foto: reprodução

Catadores de recicláveis: quem movimenta a economia circular no Brasil

No cenário da economia circular no Brasil, a reciclagem é uma peça fundamental na captação de resíduos sólidos que ainda têm potencial de retornarem à cadeia produtiva. O país produz cerca de 90 milhões de toneladas de lixo por ano, mas recicla apenas 7,5%. Grande parte desse volume reciclado é coletado por catadores de materiais recicláveis.

A reciclagem de resíduos sólidos urbanos (RSU) é responsável pela geração de mais de 386 mil empregos diretos. Segundo o Anuário da Reciclagem 2024, mais de 3 mil cooperativas reúnem cerca de 70 mil catadores. O setor tem um faturamento anual de R$ 1,3 bilhão.

Entre os itens mais reciclados estão: alumínio (98,7%), vidro (25,8%) e plástico (24,5%), segundo a Embrapa. Essas organizações, além reduzirem a pressão sobre o meio ambiente e a extração de novos recursos, são símbolos da economia solidária.

No entanto, é preciso dizer que o alto número de catadores reflete também a desigualdade social no país. A renda média desses profissionais é de R$ 1.305,65 e para muitas famílias é a única fonte de dinheiro disponível.

O setor das cooperativas de catadores de materiais recicláveis tem um faturamento anual estimado em R$ 1,3 bilhão. Foto: Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília
O setor das cooperativas de catadores de materiais recicláveis tem um faturamento anual estimado em R$ 1,3 bilhão. Foto: Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília

Outras iniciativas de economia circular no Brasil

Além dos sebos, brechós — exemplos de empresas sustentáveis —, há experiências que fortalecem a economia circular no Brasil em diferentes contextos. Seja por meio de cooperativas, negócios de impacto social ou políticas públicas, o importante é que ela aconteça. Essas práticas mostram como o consumo consciente e o reaproveitamento podem aliar impacto ambiental e social, promovendo uma sociedade mais justa.

Pila Verde

Você já imaginou poder trocar os resíduos orgânicos que gera por dinheiro? Essa foi a ideia que o poder público da prefeitura de Santiago, um município de cerca de 45 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul, colocou em prática — o Projeto Pila Verde.

A cada 5kg de resíduos coletados pelo cidadão e entregues para a compostagem, ele recebe uma pila — gíria para se referir a dinheiro. Cada moeda vale um real e pode ser usada para compra de produtos hortigranjeiros comercializados por produtores em feiras locais. Já os produtores podem trocar o dinheiro por mudas de plantas ou adubo.

O projeto favorece a economia circular, incentivando a compostagem, barateando o acesso a insumos para os produtores e colaborando para o desenvolvimento econômico da região.

A pila verde é um exemplo de moeda social que, além de impactar positivamente na sustentabilidade, colabora para o desenvolvimento econômico da região. Foto: divulgação / Prefeitura de Santiago
A pila verde é um exemplo de moeda social que, além de impactar positivamente na sustentabilidade, colabora para o desenvolvimento econômico da região. Foto: divulgação / Prefeitura de Santiago

Centros de Recondicionamento de Computadores (CRC)

Os Centros de Recondicionamento de Computadores (CRCs) são espaços físicos adaptados para o recondicionamento de equipamentos que seriam descartados, triagem e descarte adequado de resíduos eletrônicos e oferta de cursos voltados para as tecnologias da informação e comunicação (TICs), incentivando a inovação, o empreendedorismo e o desenvolvimento local.

A ação integra o Programa Computadores para Inclusão, uma iniciativa do Ministério das Comunicações para fortalecer a inclusão digital. Os computadores recondicionados são entregues para espaços públicos ou para famílias de baixa renda.

Em 2025, o CRC de Belo Horizonte, um dos 22 espalhados pelo país, entregou equipamentos recondicionados para 503 famílias em situação de vulnerabilidade. O objetivo é possibilitar maior acesso à educação e empregabilidade para essas pessoas.

Os Centros de Recondicionamento de Computadores (CRC) integram o Programa Computadores para Inclusão e colaboram para a inclusão digital e acesso à empregabilidade e educação. Foto: divulgação Prefeitura de Belo Horizonte
Os Centros de Recondicionamento de Computadores (CRC) integram o Programa Computadores para Inclusão e colaboram para a inclusão digital e acesso à empregabilidade e educação. Foto: divulgação Prefeitura de Belo Horizonte

Cooperativa de Trabalho de Costura do Dique da Vila Gilda

A Cooperativa de Trabalho de Costura do Dique da Vila Gilda (CooperDique) é uma iniciativa localizada em Santos, cidade do litoral paulista. O projeto fornece trabalho e formação em costura para moradores do Dique da Vila Gilda, a maior favela sobre palafitas da América Latina.

Em 2018, a iniciativa firmou parceria com o Projeto Albatroz para recebimento de tecidos e lonas usados em materiais de comunicação da Petrobrás. Já em 2023, em convênio com a Prefeitura de Santos, passou a receber materiais como linhas, agulhas e tecidos arrecadados em pontos de descarte de resíduos têxteis espalhados pela cidade.

Além do impacto ambiental, a CooperDique gera renda para as famílias da comunidade por meio do comércio das peças produzidas.

Em 2023, a Cooperativa de Trabalho de Costura do Dique da Vila Gilda firmou um convênio com a Prefeitura de Santos e passou a receber insumos captados em pontos de descarte de resíduos têxteis. Foto: divulgação / Prefeitura Municipal de Santos
Em 2023, a Cooperativa de Trabalho de Costura do Dique da Vila Gilda firmou um convênio com a Prefeitura de Santos e passou a receber insumos captados em pontos de descarte de resíduos têxteis. Foto: divulgação / Prefeitura Municipal de Santos

Economia circular no Brasil e o desafio de repensar o consumo

A economia circular no Brasil já mostra avanços concretos, seja em políticas públicas, iniciativas populares ou comunitárias. A prática tem crescido nos últimos anos e, segundo uma pesquisa da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), cerca de 86% das indústrias desenvolvem pelo menos uma iniciativa de economia circular no Brasil — seja logística reversa, reciclagem, programas de sustentabilidade ou outras ações.

Mas é preciso ir além. A adoção de práticas circulares não pode ser lida apenas como uma questão técnica. O consumo acelerado, que gera resíduos em escala nunca vista, é parte de um sistema econômico baseado no lucro imediato e na exploração dos recursos naturais como se fossem infinitos.

Nesse modelo, a natureza se torna mera mercadoria a ser trocada por crescimento econômico, enquanto os impactos se acumulam em desigualdade social e degradação ambiental. E a preocupação ambiental corre o risco de se tornar só mais um ponto para posicionar a marca em listas de empresas sustentáveis.

Precisamos repensar o consumo e, portanto, repensar também a forma como nos organizamos socialmente. A economia circular é uma alternativa que aponta caminhos, mas sua plena realização depende de uma mudança cultural que ultrapasse o individual e alcance o coletivo.

*Estagiário sob supervisão de Leila Cangussu

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail