Por José Guimarães*
A abertura dos trabalhos da Assembleia-Geral da ONU, deste ano – momento em que se celebra 80 anos de sua fundação – possibilitou ao mundo ver o esvaziamento de sua autoridade diante da escalada de conflitos, tragédias humanitárias e ambientais. O colapso do multilateralismo, da cooperação, o aumento do protecionismo nas relações comerciais entre as nações e violações da soberania de países democráticos.
Ao mesmo tempo, o mundo presenciou a diferença de visões da realidade política, econômica, social e ambiental de dois líderes globais, o Presidente Lula e o Presidente Trump, que se destacam, no mundo polarizado pela desigualdade extrema, da hiper concentração da riqueza e o alastramento da pobreza, da fome e da tragédia ambiental.
Em seus discursos, o Presidente Lula e o Presidente Tump, expuseram, com riqueza de detalhes, suas abissais divergências de projetos de civilização.
Lula falou como estadista, que rompeu a linha da pobreza carregando consigo a memória de um povo que conhece a dominação, a fome e a humilhação, mas também a força da resistência e da esperança, não só de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros, mas de todo o mundo, que sofrem as agruras da crise do capitalismo.
Trump falou como representante da maior potência econômica, tecnológica, bélica e nostálgica, com sua retórica de xerife do mundo, seus muros separatistas, tarifas, confrontos e seu desprezo pelo meio ambiente. Sem conseguir esconder o desespero dos Estados Unidos diante da China. Entre eles, não havia apenas divergências políticas, mas o abismo entre dois modos de compreender o mundo, a humanidade e seus projetos de construção do futuro.
O Presidente Lula defendeu a democracia com o sentimento de quem já foi privado dela, quando chegou a ser preso pela ditadura militar apoiada pelos Estados Unidos. E de quem foi vítima da tentativa de golpe de Estado, após sua posse, em janeiro de 2023, por um movimento extremista, que usa e abusa das redes sociais como terra sem lei, com desinformação, monetização do ódio, da violência, na tentativa de subjugar as instituições do país. Na oportunidade, Lula defendeu a construção de uma governança multilateral de acordo com o Pacto Digital Global, já aprovado pela ONU, para proteger a democracia, crianças e adolescentes e pessoas vulneráveis, da violência nas redes.
Hoje, o Brasil tem na sua história um ex-presidente e seus comandados, muitos deles militares de alta patente, condenados pela Suprema Corte, por tentativa de golpe, num processo no qual todos os direitos de defesa foram garantidos com base na Constituição e nas nossas leis. Apesar das agressões a nossa soberania, com sanções impostas ao Brasil e a autoridades brasileiras, pelos Estados Unidos, urdidas por falsos patriotas junto ao governo Trump, na busca da impunidade dos golpistas.
Em seu discurso, o Presidente Lula defendeu a justiça social como razão de viver; o combate às desigualdades por ser presidente de um dos países mais desiguais do mundo. Falou da erradicação da fome e da pobreza como um sobrevivente dela, que soube transformar a humilhação e as privações sofridas em força e luta por direitos humanos. Lembrou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada no G20, presidido por ele. A Aliança já conta com apoio de 103 países.
Seu senso de justiça é guiado pela consciência de que não se pode mais admitir que 670 milhões de pessoas durmam de estômago vazio e cerca de 2,3 bilhões de pessoas enfrentem insegurança alimentar num planeta que produz alimentos em abundância.
Abordou a crise ambiental com base nos fundamentos da ciência e nos problemas causados pela degradação, que tem afetado todos os continentes, principalmente a população mais pobre.
Também aos chefes de Estado pressentes, o Presidente Lula pediu para que redobrem esforços a fim de fazer avançar a transição energética e reforçou a relevância da presença de todos na COP30, em Belém, em razão da importância da Amazônia para a humanidade, na luta contra as mudanças climáticas. Disse que o Brasil reduziu o desmatamento pela metade nos últimos dois anos e se comprometeu reduzir entre 59 e 67% suas emissões de gazes em toda a economia. O Presidente Lula defendeu o desenvolvimento econômico sustentável como modelo fundamental para conciliar crescimento econômico com justiça social e ambiental.
O Presidente Trump falou como quem ergue muros e isola os Estados Unidos do resto do mundo. Reafirmou um nacionalismo estreito, agressivo, que alimenta o medo. Defendeu tarifas, sanções e fechamento de fronteiras. Com seu negacionismo, ridicularizou a existência do aquecimento global e as mudanças climáticas com inverdades. Acusou adversários, ameaçou rivais, desdenhou de organismos multilaterais. Para ele, o mundo é um campo de batalha, onde cada nação deve se armar contra a outra, e onde os de maior poder econômico e bélico têm o direito de impor suas regras.

Lula falava para o mundo por acreditar no destino comum do ser humano. Por saber que nenhuma nação vencerá sozinha a crise climática, que nenhuma economia será sustentável se a desigualdade corroer suas bases, que nenhuma democracia se manterá de pé se a fome e a exclusão não forem erradicadas.
Trump fala para dentro, para uma plateia nacional ressentida, de orgulho em baixa. Ele não vê humanidade, vê adversários. Não enxerga o planeta como casa comum, mas como território de disputa aos pés dos Estados Unidos.
O Presidente Lula foi enfático ao reafirmar sua oposição ao atentado terrorista do Hamas, denunciou o genocídio em Gaza e o uso da fome como arma de guerra, pelo governo de Israel. Defendeu a criação do Estado independente da Palestina, integrado à comunidade internacional, apoiada por 150 membros da ONU, mas obstruída por um único veto, e expressou sua admiração aos judeus de Israel e de outros cantos do mundo, que são contra a barbárie que o governo Netanyahu impõe aos palestinos.
Ao se erguer diante da ONU, Lula reposicionou o Brasil no cenário mundial. Depois de anos de isolamento, projetou o país como protagonista no debate global. O governo Lula, do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida, do Plano Safra, do PAC, da Nova Indústria e da Transição Energética, se apresenta como o governo da diplomacia ativa e altiva, que não se submete a tutelas, defende nossa soberania e constrói pontes entre continentes.
Como presidente do Brics, o Presidente Lula se destaca como liderança expressiva do Sul Global, que sonha com um mundo em que as nações cooperem para a paz, a prosperidade, e não para a guerra; que seja capaz de substituir os combustíveis fósseis por energia limpa; e que a riqueza seja repartida e não concentrada. O Presidente Lula falou não apenas como representante do Brasil, mas como esperança.
Já o Presidente Trump, ao retomar ao púlpito das Nações Unidas, trouxe de volta sua retórica do espectro da Guerra Fria, da lógica do inimigo externo, da supremacia baseada na força. Sua fala soou deslocada, como ecoada de outro tempo. O mundo mudou: a China consolidou-se como potência tecnológica e econômica, a África exige espaço, a América Latina ergue sua voz, o Brics se fortalece, o Sul Global reivindica voz, vez e voto.
Talvez a maior diferença entre os dois discursos esteja na questão da paz. Lula defendeu o diálogo e que a ONU assuma seu papel de mediadora e não de espectadora. Lembrou que a ONU tem, hoje, quase quatro vezes mais membros do que os 51 da sua fundação e reiterou a necessidade de uma reforma da governança global, capaz de resgatar o multilateralismo, a cooperação, a prosperidade e a paz entre as nações.
Apesar da grande diferença de visão de mundo e de posições políticas dos dois líderes, o Presidente Lula foi surpreendido pela manifestação pública de desejo do Presidente Trump de dialogar sobre os contenciosos entre os dois países. Que a paz, a cooperação e o multilateralismo sejam as âncoras da convivência entre as nações.
* Advogado, Deputado Federal, PT/CE, e Líder do Governo na Câmara dos Deputados.