O encontro entre o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, realizado na quinta-feira (15), em Washington, marcou o reinício formal das negociações bilaterais entre os dois países para reversão do tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump sobre produtos importados do Brasil. Em tom pragmático e cordial, a conversa focou principalmente em temas econômicos e comerciais, deixando de fora questões políticas delicadas que haviam deteriorado o diálogo nos últimos anos.
Conforme deixou claro o Chanceler do Brasil em pronunciamento após o encontro, entre os principais pontos discutidos esteve a sobretaxa de 50% imposta pelo governo Trump a produtos brasileiros, anunciada em julho e formalizada em agosto. Vieira, contudo, fez um pronunciamento mais genérico sem esmiuçar os detalhes.
O que se sabe é que o Chanceler solicitou a suspensão temporária do tarifaço enquanto durarem as negociações. Segundo o chanceler, o pedido já havia sido feito diretamente pelo presidente Lula (PT) ao presidente Trump, em uma ligação realizada na semana anterior, e agora foi reiterado de forma oficial.
Também foi discutida a investigação aberta pelos EUA contra o Brasil com base na Seção 301 da legislação de comércio norte-americana. O processo, que alega práticas “desleais” por parte do Brasil, inclui desde temas ambientais e corrupção até regulação de meios de pagamento como o Pix e o comércio informal. Caso as alegações sejam consideradas procedentes, podem resultar em novas sanções comerciais. O governo brasileiro nega qualquer concorrência desleal e vê a investigação como uma medida política.
Logo após o pronunciamento de Vieira, no início da noite, foi divulgada uma nota conjunta à imprensa das diplomacias dos dois países, na qual ambos os lados “concordaram em colaborar e conduzir discussões em várias frentes no futuro imediato, além de estabelecer uma rota de trabalho conjunto”. “Ambas as partes também concordaram em trabalhar conjuntamente pela realização de reunião entre o Presidente Trump e o Presidente Lula na primeira oportunidade possível”.
Tarifaço: questões comerciais serão conduzidas por Alckmin
Ficou acordado que as questões comerciais passarão a ser conduzidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), junto ao vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin. Já os assuntos diplomáticos e geopolíticos, como sanções a cidadãos brasileiros e a relação com a Venezuela, continuarão sob responsabilidade de Mauro Vieira e Marco Rubio.
Nos bastidores, diplomatas brasileiros classificaram o encontro como um “passo inicial, mas significativo” na tentativa de reconstrução das pontes entre Brasília e Washington.
O governo Lula acredita que uma abordagem pragmática pode abrir espaço para reverter barreiras comerciais e avançar em agendas estratégicas. A ausência de qualquer menção ao ex-presidente Jair Bolsonaro — cuja condenação havia sido usada como condicionante por Trump para negociar com o Brasil — foi vista como um gesto de distensão por parte dos americanos.
Etanol, minerais críticos e transição energética entram no radar
Além das tarifas, o encontro também abordou temas estruturais do comércio bilateral. Um dos principais pontos de interesse dos Estados Unidos é a tarifa de 18% que o Brasil impõe ao etanol anidro americano. Atualmente, o Brasil importa etanol principalmente quando a demanda interna excede a produção local, enquanto os EUA — maiores produtores mundiais ao lado do Brasil — cobram apenas 2,5% sobre o etanol brasileiro.
Para interlocutores do setor privado, essa é uma das concessões mais prováveis no curto prazo, dada a complementaridade entre os mercados e o desejo político de demonstrar boa vontade nas negociações.
A revisão da tarifa sobre o etanol poderia se tornar um primeiro gesto concreto de reaproximação comercial, especialmente em um momento em que a transição energética e os biocombustíveis ganham protagonismo nas agendas globais.
Outro tema de crescente importância nas conversas foi a segurança no fornecimento de minerais estratégicos — como lítio, nióbio e as chamadas terras-raras — essenciais para tecnologias limpas, baterias, turbinas eólicas e semicondutores.
Os EUA desejam firmar acordos que garantam acesso preferencial a esses recursos, como parte de sua estratégia de reduzir a dependência de cadeias dominadas por rivais geopolíticos, especialmente a China.
As negociações sobre minerais incluem possibilidades de cooperação em prospecção, acordos comerciais específicos e garantias de fornecimento a longo prazo. O Brasil, que possui algumas das maiores reservas desses recursos, tem sido visto como parceiro-chave em um eventual reposicionamento estratégico das cadeias de fornecimento globais.
Perspectivas para os próximos meses
Ainda não há uma data confirmada para o aguardado encontro entre os presidentes Lula e Trump, mas fontes diplomáticas indicam que a reunião pode ocorrer à margem da cúpula da Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático), em Kuala Lumpur, na Malásia, no próximo dia 25 de outubro. Segundo Mauro Vieira, o compromisso de ambas as partes em realizar o encontro “na primeira oportunidade possível” foi reafirmado.
Apesar do histórico recente de desconfiança e choques diplomáticos, o encontro desta semana sinaliza uma disposição política renovada para destravar negociações e construir uma agenda mais previsível e orientada a resultados concretos. Se mantido o ritmo, o movimento pode marcar uma inflexão importante nas relações bilaterais — do confronto político à cooperação pragmática.